A gravidez é um evento natural e não deve ser encarada com temores e preocupações além do necessário. Foto: reprodução internet

Planejada ou de surpresa, não importa, quando os dois traços vermelhos aparecem no teste de farmácia, não há coração feminino que permaneça calmo. São tantos pensamentos, dúvidas e possibilidades que, nos primeiros momentos, parece que se trata de um sonho. Mas é bom acordar, agir e aproveitar essa fase, que é uma das mais belas da vida, garantem muitas mamães. Mas algo é inegável: a maternidade vai mudar tudo.

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Alessandra Pölking ginecologista e obstetra
Foto: Arquivo Pessoal

A ginecologista e obstetra Alessandra Pölking, acostumada a ver tantas mulheres tornarem-se mães e, também, a perceber a apreensão que todas as adaptações geram, diz que é preciso compreender as mudanças e que, se antes era possível “dar conta”, agora não é mais. Após acompanhar as gestantes pelos nove meses, sabendo das expectativas acumuladas, nas consultas após o parto – feitas quando o bebê tem por volta de 10 e 30 dias – ela vê muita felicidade, mas, também, esforço a fim de vencer os desafios da maternidade.

Em tom de brincadeira a médica, que também é mãe, afirma que é preciso “dividir as dívidas” porque tendo um bebê pequeno sempre se vai “dever” para alguém. É tempo antes destinado ao marido ou namorado ou a si mesma que, agora, é todo do filho. Quando a licença maternidade acaba, é preciso, ainda, se dividir com o trabalho e, quem quiser fazer algum curso ou especialização, precisará fazer o dia render ainda mais. “Quando as mães chegam no consultório eu sempre pergunto como está a adaptação à nova vida. A resposta costuma ser “é lindo, mas é difícil” e essa é a realidade porque quando você se torna mãe, deixa de ser dona da sua vida”, destaca Alessandra, ao salientar que isso, na sua opinião, não deve impedir a mulher de retomar o ritmo de vida ao longo do tempo. Conforme a criança cresce, a mãe passa a ganhar mais tempo para si novamente.

Mas, afinal, ao ver os traços vermelhos no teste de farmácia, quais devem ser os primeiros passos? Precisa passar tanto nervoso e mudar a vida por completo? Do ponto de vista médico, Alessandra garante que não. “A gravidez é um evento natural e de saúde. As buscas no Google e o excesso de informação na mídia podem atrapalhar ao passo que se exagera na preocupação com algumas coisas. Em uma pesquisa rápida na internet, um sintoma normal em gestantes pode parecer algo grave”, explica a obstetra, que destaca, ainda, que toda gestante tem de falar com o seu médico e confiar em quem acompanha de perto o caso. “Aproximadamente 90% das gestações são normais. E não adianta supervalorizar algo que, pode até trazer algum incômodo, como uma cólica, azia, enjôo ou sono, mas é normal. Cada mulher e cada gravidez é diferente.

Claro que, se for uma gravidez de risco, os outros 10%, o médico acompanhará de outra forma”, diz Alessandra. Ao lado, você confere entrevista completa com Alessandra Pölking. Ela fala da prática – cada vez mais frequente – de adiar a gestação e seus reflexos, os exames básicos, mitos e cuidados necessários para toda gestante. Confira!

Quando o tema é gravidez, as mulheres têm muitas dúvidas . Foto: reprodução internet


Entrevista com a ginecologista e obstetra Alessandra Pölking

Jornal Ibiá: É perceptível no seu consultório uma tendência atual das mulheres adiarem a gravidez? Isso pode dificultar a concepção?
Alessandra Pölking: Sim, isso é uma realidade atual. E, inclusive é discutido em congressos de ginecologia e obstetrícia. Prorrogar a maternidade é uma tendência, assim como ter menos filhos. O Rio Grande do Sul tem uma taxa de natalidade menor que a do Brasil, no geral. Aqui a média é de 1,8 filhos por casal, menos do que o necessário para a manutenção da população. Isso, sabemos, se deve a mudanças na sociedade. Cada vez mais mulheres começam a pensar em ter filhos quando já passou dos trinta e, às vezes, é necessário que nós (ginecologistas) lembremos a uma paciente que, caso ser mãe esteja nos planos, é bom que seja logo, ou ela poderá enfrentar dificuldades na concepção. Sabemos que a partir dos 32 anos as mulheres têm uma menor capacidade reprodutiva. Mas consideramos como “ideal” que a gravidez ocorra até os 35 anos porque, após, há maior taxa de aborto, má formação de feto e gravidez de risco. Após os 40 anos, a taxa de fertilidade cai muito e a gravidez natural se torna bem mais difícil.

JI: Mas ocorrem, certo? São noticiados casos, mesmo que esporadicamente.
AP: Sim, ocorrem. Porém, são totalmente fora da curva. E não é aconselhável que uma mulher deixe para ser mãe mais tarde, caso esse seja um desejo seu.

JI: No caso de uma mulher que está próxima desse limite considerado seguro para engravidar, deseja ser mãe, mas ainda não considera o melhor momento, há algum exame que indique quanto tempo ela ainda pode esperar?
AP: Sim. Existe o exame que verifica a reserva de óvulos da mulher. Ao longo da vida, desde que começa a menstruar, a mulher vai liberando óvulos, todos os meses. Se ela não teve pausas na menstruação, por uma gravidez, por exemplo, ela liberou mais óvulos. Bom, se o exame apontar uma reserva baixa e essa mulher não quer engravidar naquele momento, a saída seria congelar os óvulos. O custo desse procedimento pode passar dos R$ 10 mil e ainda há a anuidade para manter o óvulo congelado.

JI: Algum método contraceptivo pode dificultar a fertilidade quando a mulher já deixou de fazer uso? O tempo de uso interfere?
AP: Não. No momento que a mulher para de utilizar, a sua taxa de fertilidade volta ao que ela teria caso não estivesse fazendo uso do contraceptivo.

JI: A mulher pode engravidar imediatamente após parar de tomar pílula ou tirar o Dispositivo Intra-Uterino (DIU) então?
AP: Pode acontecer. Mas não é o que nós indicamos. O ideal é que a mulher espere três meses, aproximadamente, e assim tenha uma menstruação natural. Só então é recomendado que ela comece a tentar engravidar. Caso ela engravide logo após parar com o contraceptivo há uma chance maior de sofrer aborto porque os contraceptivos deixam o endométrio mais frágil e o ideal é que ele esteja fortalecido para receber o feto.

JI: Até que ponto o teste de farmácia é confiável? A gravidez precisa ser confirmada com um exame laboratorial?
AP: É bastante confiável. O que pode ocorrer é o chamado “falso negativo” quando a mulher o utiliza antes da hora. Teste de farmácia deve ser feito quando a mulher já tem um atraso menstrual de pelo menos uma semana. E, às vezes, a mulher está muito ansiosa para ter certeza de que conseguiu engravidar ou para poder descartar essa ideia e faz o teste antes da hora. O que o teste detecta na urina leva um tempinho para ser identificado. Já o exame laboratorial é de sangue e confirma a gestação, mesmo quando mais recente.

JI: Ao ver os dois traços vermelhos no teste, o que fazer? Quais as primeiras orientações?
AP: Perceber que tudo mudou na sua vida e saber que os dias parecerão ter menos horas. Entender que é desafiador, mas muito bonito ser mãe. E é preciso ter claro que a gravidez é um evento de saúde. Na grande maioria dos casos, queixas como cólica, azia, enjôo ou sono são ocorrências normais. Na gravidez a mulher tem muitas mudanças hormonais e cada pessoa é diferente. Desconfia que está grávida ou já confirmou com o teste de farmácia? Procura seu ginecologista e será dado início ao pré-natal.

JI: Como é essa fase inicial do pré-natal?
AP: Costumo dizer que é muito mais sobre a mãe. Verificar como ela está para gerar esse bebê. Ver se está tudo em dia com as vacinas, verificar sorologia para doenças específicas e se o bebê está se desenvolvendo dentro do útero, basicamente. E, claro, uma avaliação fetal para verificar o desenvolvimento do bebê. É indicado que a mulher que planeja engravidar faça exames prévios.

JI: Muitas mulheres, mesmo tendo a confirmação da gravidez, preferem não contar a amigos e familiares nos primeiros meses. Há uma razão para isso?
AP: Até a 14ª semana gestacional é quando o feto se forma, e há o risco da gravidez não prosseguir. A gente costuma dizer que ok, está grávida, mas é preciso esperar para confirmar se a gravidez vai adiante. Cerca de 30% de todas as gravidezes vão terminar em aborto nesta fase.

JI: Mulher grávida deve evitar atividade física?
AP: Não. Atividades físicas não devem ser interrompidas. Salvo casos específicos onde há risco de aborto, quando houve sangramento, gestante apresentou problema de hipertensão ou teve alguma alteração na placenta. Porém, indica-se que seja restrito a três vezes por semana e práticas de baixo impacto. Claro que não é a hora ideal para uma mulher sedentária se tornar atleta. Tem que respeitar o seu preparo físico. Nesse caso, uma caminhada, hidroginástica ou um Pilates são mais indicados.

JI: Toda gestante faz acompanhamento nutricional e faz uso de uma suplementação?
AP: Não todas. Algumas fazem por já ter a sua nutricionista e outras por indicação da ginecologista e obstetra. Claro que se a mulher está com o peso muito fora da curva ela terá obrigatoriamente de ter um acompanhamento mais de perto. A questão da suplementação depende muito do médico. Eu prescrevo para todas, mas não são muitos suplementos. O ácido fólico no primeiro trimestre é para prevenir a má formação no tubo neural, que afeta coluna e sistema nervoso. Depois disso há, em alguns casos, suplementação de ferro e ômega 3, esse último hoje muito citado para o desenvolvimento cognitivo do feto.

JI: Chama a atenção relatos de mães que, ao parir, ou em gestação avançada, afirmam não saber da gravidez. Isso, por vezes, gera temor em quem não quer ter filhos e usa algum método contraceptivo. É possível estar grávida e não saber?
AP: É muito difícil. Mas, há relatos. Já tive paciente que, mesmo já tendo gravidez anterior, afirmou não ter percebido nada de diferente. Porém, considero que seja possível não saber até o 5º mês de gestação. Porque é possível que ela não tenha tido enjôos, tonturas ou cólicas. Mas, depois, começa a ter movimentação do feto no útero e aí é praticamente impossível que a mulher não perceba o bebê.

JI: É proibido que gestantes façam procedimentos estéticos como pintar o cabelo por risco ao bebê?
AP: Depende do procedimento. Mas não existe mais a necessidade de gestante com a raiz por fazer. Hoje há produtos que os salões de beleza utilizam sem nenhum risco e os profissionais da área de estética sabem disso. É indicado evitar algumas químicas mais agressivas, principalmente nos três meses iniciais. Não é aconselhável descolorir todo o cabelo com amônia.
E, o principal, pergunte ao seu médico antes de fazer os procedimentos ou se surgirem dúvidas. Há muitas técnicas estéticas que, mesmo sem uma confirmação que fará mal, dependendo do caso, é evitado.

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