Uma das conquistas entre os procedimentos adotados é a possibilidade de acompanhamento do pai. FOTO: Reprodução/Tyler Olson

Equipe do Hospital Montenegro explica as práticas de “parto humanizado” adotadas na instituição 100% SUS

A pequena Lívia, primeiro bebê do ano, nasceu e logo foi colocada sobre a mãe, seguindo as diretrizes do parto humanizado

Em 2017, 1.124 partos foram realizados no Hospital Montenegro. Destes, 630 foram cesáreas e 494 foram normais. Seja qual for a categoria, todos estes foram realizados seguindo as preconizações do “parto humanizado”, dando atenção à paciente, respeitando seus desejos e tratando cada caso como único e especial. Nossos novos montenegrinos têm nascido cheios de cuidados.

A pequena Lívia Candido Voigt, que ficou conhecida por ter sido a primeira criança nascida em Montenegro este ano, veio ao mundo dentro destes parâmetros. Em entrevista no primeiro dia do ano, a emocionada mãe Kauana Candido Dias narrou os primeiros momentos com a filha, que foi colocada sob o seu peito logo que nasceu, como forma de reforçar o vínculo criado entre as duas durante a gestação. Após, no quarto, Lívia e Kauana seguiram juntas no mesmo local, para a alegria de ambas.

Na última semana, a equipe do Hospital Montenegro recebeu o Jornal Ibiá para explicar um pouco mais sobre este processo e em que ele consiste. O ginecologista, obstetra e mastologista Túlio Farret e a gerente de enfermagem Mirian Santos, com o apoio do pediatra Mauro Ladeira e da coordenadora do centro cirúrgico, Lauren Oliveira, demonstraram de que forma o parto humanizado é, de fato, mais humano.

CADA CASO É UM CASO
Em que contexto surgiu o “parto humanizado”?

Da esquerda para a direita, Túlio Farret,
Mirian Santos, Lauren Oliveira e Mauro Ladeira

Túlio Farret: Antes, as mulheres ganhavam os bebês em casa e, com o passar do tempo, elas passaram a ganhar no hospital. Dentro do ambiente hospitalar, existe uma série de regras e procedimentos mais rígidos e acabou que o parto foi encaixado dentro desses procedimentos. Nessa passagem, então, acabaram acontecendo alguns exageros, como, por exemplo, a aplicação de certos procedimentos que a gente viu que não seriam necessários em todas as pacientes. Temos a tricotomia, que é a raspagem dos pelos; o enema, que é uma lavagem intestinal que se faz antes do bebê nascer, dentre vários outros. Isso, para alguns casos, é indicado, mas não para todos. E tudo havia começado a ser feito sistematicamente em todo mundo, tornando o parto uma coisa quase industrial e automática. Era como se a paciente entrasse numa porta com a barriga e saísse em outra porta com o bebê no colo. Isso acabou desumanizando o atendimento e, muitas vezes, o tratamento não acontecia da forma mais adequada para a mãe e o bebê.

Que outras características têm esse parto “não-humanizado”?
Túlio Farret: Um parto não-humanizado é onde todas as pacientes são tratadas da mesma maneira; onde são realizados procedimentos desnecessários, onde ela nem sabe o porquê de eles estarem sendo feitos; onde ela não pode ter contato com o seu acompanhante em nenhum momento do trabalho de parto ou durante o nascimento; com a não permanência do bebê com a mãe sem um motivo de saúde. Tudo isso a gente considera um parto não-humanizado.

A PARTICIPAÇÃO DA MÃE
De que forma o “parto humanizado” dá mais autonomia para a mulher?
Túlio Farret: A questão é que ela pode participar do momento do trabalho de parto. Ela pode dizer o que ela quer e o que ela não quer, dentro do possível, e não é tudo totalmente imposto a ela, sem que ela saiba o que está acontecendo. São coisas do tipo: “agora a gente vai colocar um soro para que as contrações fiquem mais reguladas”, daí ver se ela quer ou se ela não quer. Também, se ela prefere que o trabalho de parto aconteça naturalmente; se ela quer o corte – que se chama episiotomia e é feito e não necessário em todos os casos. Enfim, ela pode participar das decisões sobre o nascimento do bebê. Claro, dentro do que é possível e recomendado.

Para isso, é preciso que o acompanhamento seja feito desde cedo?
Túlio Farret: Sim, a paciente tem que ser orientada desde o pré-natal. Já sabendo o que ela quer; o que ela pode e o que ela não pode; se é uma gravidez de baixo risco ou se é uma gravidez de maior risco; se ela vai ter que ser encaminhada para uma maternidade de referência, etc. Também é preconizado que a mãe saiba onde o bebê vai nascer, conhecendo o ambiente do hospital onde vai acontecer o parto.

Que preparo, além da medicina, a equipe precisa?
Mirian Santos: O principal erro seria não deixá-la opinar. Dizer “não, agora tu fica quieta”. Porque a gente vai conduzindo as coisas e é um interação com ela, a equipe de enfermagem e a equipe médica no processo. Pode, ainda, que se tenha decidido alguma coisa, aí a mãe dizer que não está legal e se ter que pensar em outra coisa. Tem que ter a escuta, o explicar, o conversar e o fazer entender que aquilo é preciso. Então é um trabalho complexo. A pessoa vai sentir dor, não quer sentir, mas é preciso sentir para realizar o parto. É um processo de muito trabalho e isso que a gente faz demora horas. Não é algo em que a paciente chega, que nem em uma cirurgia, vai lá e anestesia, corta e sai.

FORTALECENDO VÍNCULOS
As pacientes do Hospital Montenegro sentem a diferença deste cuidado mais humanizado realizado na instituição?
Mirian Santos: A gente sente muito a confiança de quem chega aqui. Tem um obstetra que avalia, é feito o acolhimento, verificados os sinais e realizados os exames. Tem toda uma estrutura e elas entendem e sabem que foi tudo tranquilo.
Túlio Farret: De maneira geral, as pessoas ficam satisfeitas. Mas, claro, por mais que a gente se esforce, aqui são relações entre pessoas e nem sempre se pode agradar a todos. A gente lida com a questão da expectativa da paciente, que nem sempre está de acordo com o que é melhor para ela. Por isso é importante que exista uma interação adequada entre a mãe e a equipe.

Dentro deste processo “humanizado”, o berçário foi extinto. Como se deu isso?
Túlio Farret: Antes, os nenês nasciam e eram levados todos para um mesmo lugar, ficando longe da mãe. Hoje em dia, isso não existe mais. Agora se pratica uma coisa que se chama “alojamento conjunto”. Depois que o bebê nasce, ele já vai direto para perto da mãe e com ela ele fica até o momento da alta hospitalar.
Mirian Santos: Isso fortalece o vínculo entre a mãe e o filho e aumenta bastante a chance e a possibilidade dela amamentar. Aliás, a amamentação é algo que tem sido muito fortalecido e estimulado ultimamente.

Logo após o nascimento, já se dá esse contato entre mãe e filho?
Túlio Farret: Nem sempre se consegue. Mas nós tentamos fazer com que esse contato seja o mais precoce possível. Se a criança está bem, ela vai na hora para o colo da mãe. Se houver alguma intercorrência, isso vai ser resolvido e, assim que ela estiver em condições, ela vai para junto da mãe. Às vezes, isso não acontece exatamente na mesma hora do nascimento, mas o ideal é que ele nasça e já possa ter o contato.

depressão pós-parto
O “parto humanizado” pode diminuir o risco de depressão pós-parto entre as mães?
Túlio Farret: Essa depressão é uma doença que vai acometer a gestante, às vezes mesmo que tudo aconteça em um ambiente perfeito. É uma coisa que a gente não consegue mexer muito. Isso é da própria paciente e já vem desde antes do pré-natal e talvez desde antes da gravidez. Durante o pré-natal, o médico já tem que ter essa capacidade de perceber uma tendência de isso piorar após o nascimento. Claro, no ambiente onde as coisas são oferecidas de uma maneira ideal, onde se tem um cuidado adequado e se pode fazer o diagnóstico da melhor forma possível, a gente consegue minimizar os danos causados pelo problema. O ambiente vai ajudar em relação ao tratamento, mas não se pode dizer que seja o ambiente que vá causar esse tipo de problema.

centro obstétrico
O HM está trabalhando para aprimorar ainda mais estes procedimentos?
Túlio Farret: Sim, estas medidas, com a presença do pai junto da mãe, do bebê ficar com ela o maior tempo possível, do incentivo à amamentação, todas são práticas estimuladas e cada vez mais aprimoradas dentro da instituição. Tentamos fazer com que a equipe faça o melhor possível para que isso aconteça na maior parte das vezes. O projeto do Centro Obstétrico – que deve começar a ser construído neste ano – é de um andar inteiro pensado para atender estas medidas que envolvem a humanização do parto. Tudo foi levado em conta no projeto. Muitas vezes, as coisas que a gente tem um esforço grande para fazer nos são impossibilitadas pela estrutura física. Com o Centro, a gente vai conseguir exercer plenamente tudo o que é preconizado.

RISCOS EM CASA
Com o crescente movimento do “humanizado”, aumentaram os partos feitos em casa?
Túlio Farret: Muitos destes não existem, mas a gente vê que, com este movimento da humanização do parto, ocorrem radicalizações para os dois lados. Acho que o estímulo ao parto domiciliar – aí, já é uma opinião pessoal – seria uma radicalização para o lado oposto (ao do parto “não-humanizado”). Porque, em casa, com qualquer intercorrência, não haverá a estrutura que o hospital oferece. A maioria dos bebês vai nascer e não vai acontecer nada, mas, quando acontecer alguma coisa – e isso vai ser raro, mas vai acontecer algumas vezes – aí esta assistência vai faltar.

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