Airton entre a mulher Rosaura e os seis filhos, dos quais dois deles são de coração foto: arquivo pessoal

Dia dos Pais. Para assumir a responsabilidade pelos filhos é necessário mais do que genética: é preciso amor

Estar presente quando cai o primeiro dente de leite ou ocorre a primeira decepção amorosa. Velar o sono impaciente da criança adoecida. Fazer pegadas de coelho na Páscoa, pagar o aparelho dentário e o plano de saúde e torcer para que tudo dê firmemente certo na vida de alguém. O significado de pai tem menos a ver com biologia e mais a ver com relacionamentos, sentimentos e dedicação.

De acordo com o dicionário Aurélio, pai é gerador, genitor, criador, autor, protetor e benfeitor. Na vida, ele pode ser qualquer pessoa: a mãe, que solteira criou os filhos sozinha, padrasto ou avós. A definição é elástica e abraça todos que não se encaixam na questão biológica.

Vanessa, grávida, junto ao pai, Laureni de Andrade

As histórias montenegrinas que o Ibiá escolheu para homenagear o Dia dos Pais, que se comemora neste domingo, são sobre homens que optaram pela paternidade, não de sangue, mas de coração e conduta. Como o belo exemplo do montenegrino Laureni de Andrade, 54 anos, que acolheu os dois enteados quando ainda eram pequenos. Vanessa Andrade tinha então dois anos e seu irmão, Fabricio Andrade, por volta de um. O sobrenome veio junto com a criação e com a bagagem de carinho e zelo do pai Laureni, como prova de amor.

“Eu vivi com a mãe deles, a Lunalva, por 18 anos até que, infelizmente, ela faleceu. Nesse período nós criamos as crianças e tivemos mais dois filhos. Com o consentimento do pai biológico da Vanessa e do Fabricio, passei meu sobrenome para os dois”, conta.

Segundo ele, mesmo não carregando a mesma carga genética, os dois são considerados filhos iguais aos outros três biológicos (um deles é do primeiro casamento). “Todos foram um presente dado por Deus a mim. É um grande lucro, pois formei uma família bem grande e bonita. O conselho para todos os pais é que cultivem seus filhos, pois é a única coisa realmente importante. Dinheiro e bens materiais não estão acima do valor da familiar”, ensina.

A filha Vanessa, 33 anos, é só elogios. “Ele é meu exemplo, pessoa especial que me acolheu, educou e me tornou essa pessoa que sou. Pai de coração, que mesmo sem ser pai de sangue faz tudo que pode para deixar minha vida melhor. Que mesmo depois do falecimento da minha mãe, não me abandonou. Pai de coração, que vai sempre estar ao meu lado. Meu amigo, meu braço direito, meu protetor, meu pai”, termina.

Em coração de pai, sempre cabe mais um
Em coração de pai, sempre cabe mais um. Pai também é quem cria. O comerciário montenegrino Airton José Finger, 50 anos, que o diga. Além dos quatro filhos biológicos, ele adotou mais dois quando começou a se relacionar com a atual companheira, Rosaura. “Isso há 10 anos. Na época, o menino, Ramon, tinha 10 anos, e a Rafaela, sete. E desde o primeiro momento que entrei na vida deles, passaram a me chamar de pai”, conta.

Airton relata que a convivência entre todos os filhos — biológicos ou não — é a mais saudável possível. “Fazemos a reunião de família e eles se reconhecem como irmãos. Eu desejo a mesma coisa a todos, tanto para os biológicos quanto para os filhos de coração”, relata ele, carinhosamente.

Brigas, cobranças e respeito, como em toda a família, fazem parte da convivência rotineira. “Tem até aquilo de ciúme de irmãos, como não moram todos juntos. E se perguntar, eles sabem que sou muito justo. Se um dos seis ganha de presente, no aniversário, certo valor em dinheiro, o outro ganhará a mesma coisa”, salienta.

Neste Dia dos Pais, Airton parabeniza a todos que, mesmo não sendo genitores biológicos, adotam e amam incondicionalmente enteados como filhos. “Tem muitos casos diferentes, mas para todos esses, deixo um bom dia com sua família.”

O amor de pai que enfrentou barreiras
É inconcebível pensar que qualquer forma de amor precise enfrentar algum tipo de preconceito. Mas foi assim na história de Paola e das duas irmãs Carolina e Aline, com o padrasto Sidinei de Paula. Depois que o pai das três faleceu, em 1996, a mãe reencontrou o antigo amor de adolescência e juntou-se com ele.

Brigadiano, Sidinei já tinha três filhos biológicos, o que não foi nenhum empecilho para que adotasse, em seu coração, as três como filhas. Porém, por ele ser negro e elas brancas, de acordo com a enteada Paola Araujo Flores de Souza, 32 anos, foi preciso lidar com o preconceito. Permaneceram unidos, fortalecendo o amor e os vínculos mais do que nunca. Ela relembra, com carinho, das vezes em que Sidinei levou-a para o hospital na própria viatura da Brigada Militar, quando ainda não existia Samu, para que não ficasse em apuros.

“Em cada lugar que íamos e chamávamos ele de pai, as pessoas olhavam com cara feia pela diferença de cor, mas nunca nos preocupamos com isso, pois ele sempre foi um ótimo pai. Trabalhando como brigadiano, quando ele estava de folga, brincávamos de esconder, de pegar, tomávamos banho de chuva, íamos para praia na Operação Golfinho e era mágico”, relembra Paola.

Sidinei acompanhou o crescimento dos seis filhos, educou e aconselhou na fase de tantas descobertas que é a adolescência, e hoje a família cresceu — tanto em idade quanto em tamanho — e já vieram os netos.

“Mesmo que ele e a minha mãe estejam separados, continua sendo meu pai e avô da minha filha. Quando perguntei sobre participar da matéria, a resposta foi: faz, sim, minha filha. Eu me sinto amado como pai por ti. Se não fosse verdade, as nossas brigas, nossos abraços e beijos não teriam sido sinceros”, encerra Paola.

Paola (encostada na árvore) e as irmãs Carolina e Aline foram criadas pelo padrasto, Sidinei de Paula

Pelo direito de adotar
Miriam Carolina Zilles Rodrigues Branco, 29 anos, e o marido, William Lopes Branco, estão juntos há oito anos. Dois anos antes, Miriam deu à luz o filho Zyon Zilles, hoje com quase 10, que carregará o sobrenome Branco. William não viu o Zyon nascer, tampouco a saída dos primeiros dentinhos. Porém, isso não impediu que o amor sentido ao ver o filho fosse maior do que qualquer coisa.

Com processo de adoção formal aberto, e ganho ainda no mês passado, agora lhe falta apenas os papéis para oficializar o que de sentimento já era sabido: a paternidade.

“Mesmo tendo criado ele desde pequeno, não sou visto como pai pela sociedade. E não é preciso ser genitor biológico para assumir um filho. Agora, com os papéis, eu vou poder buscar livremente meu filho na escola sem questionamentos. Ele é o que tenho de mais importante. Tudo que faço e me dedico é para ele”, relata, orgulhoso.

Miriam, o filho Zyon e o pai, William
foto: arquivo pessoal

Miriam, emocionada, descreve o forte vínculo existente entre eles e afirma que a juíza não teve dúvidas sobre conceder à guarda do filho, sob o consentimento da criança, também a William.

“Meu marido sempre fala ao pequeno: ‘foi Deus quem fez você pra mim e você me escolheu’. O pai biológico do meu filho simplesmente deixou de participar do convívio com ele ainda muito novo. Esse ano meu marido entrou na justiça para um pedido formal de adoção do meu filho e vencemos, confirmando que o verdadeiro pai será quem criou e cria ele com todo amor. A juíza disse que viu esse sentimento entre nossa família, e que para ela isso é suficiente”, conclui Miriam.

 

Deixe seu comentário