Mentiras. “Quebra-pau” no Congresso, intervenção militar, manifestação na Alemanha. Teve de tudo nas redes sociais

Em dez dias de paralisação dos caminhoneiros no país, a falta de abastecimento de diversos produtos provou a importância da classe, marcando o impacto que a falta dos motoristas traz para a população. O período, no entanto, também foi marcado por muita desinformação. As fake news (notícias falsas) correram soltas em grupos de WhatsApp e no Facebook.

Algumas serviram para dar apoio à causa; outras para empurrar algumas pautas à lista de reivindicações do movimento; e outras, ainda, pareceram apenas servir para gerar pânico. Fato é que, durante as históricas manifestações dos últimos dias, ficou clara a importância de buscar informações em veículos confiáveis e de ficar atento aos conteúdos recebidos. Compartilhar desinformação tem consequências.

Desde 2013, um grupo de jornalistas criou o site boatos.org, que tem o único objetivo de buscar conteúdos compartilhados do tipo e verificá-los. Durante a paralisação, diversos casos foram registrados pelos profissionais. Pelas redes sociais, falava-se que o governo cortaria a internet e o WhatsApp para impedir a comunicação dos caminhoneiros; que a energia elétrica de todo o país seria cortada; que uma funcionária do Banco do Brasil estaria alertando para o confisco de contas bancárias; e até que o PCC mataria quem tentasse abastecer seu carro. Apareceu de tudo um pouco. Tudo desmentido pelo site.

O cientista político e professor de jornalismo da Unisinos, Bruno Lima Rocha, afirma que muitas notícias falsas, inclusive, correram entre os caminhoneiros em paralisação. Sem uma clara liderança, os profissionais se comunicavam via grupos de redes sociais, também replicando informações incorretas. Bruno conta que, em um ponto de manifestação em Santa Catarina, rolava até o boato de que o caminhão que não colocasse faixas de apoio à intervenção militar seria preso.

“As fake news radicalizam e trazem noções equivocadas, principalmente em áudios, que são fáceis de compartilhar. Essa circulação é desastrosa”, aponta o professor. O acadêmico diz ainda que há uma relação entre a divulgação das notícias com o descrédito em relação às mídias tradicionais. Parcialmente, segundo ele, a mídia tem culpa nisso. “Ao não trazer a complexidade e o contraditório da coisa, os conglomerados de mídia legitimam o anseio por escutar o que é passado nas redes sociais”, opina.

Conheça alguns dos conteúdos falsos que circularam durante os dias de manifestação
“Quebra-pau” na Câmara e estado de sítio decretado?

Essa fake news chegou a circular com um vídeo. Mostrava que o presidente Michel Temer teria decretado, a pedido de Rodrigo Maia, o estado de sítio. Na Câmara, houve “quebra-pau” e uma acalorada discussão entre Maia e o Deputado Paulo Pimenta (PT-RS) sobre a invasão dos militares na Esplanada dos Ministérios. O texto compartilhado afirmava que “isso a Globo não mostra”. Tudo falso. Se não bastasse o fato de que nenhum veículo de comunicação noticiou o “ocorrido”, as imagens gravadas eram de abril de 2017, quando alguns policiais invadiram a esplanada para protestar contra a Reforma da Previdência.

Helicóptero da PF tocou o Hino Nacional para os caminhoneiros?
Um vídeo gravado em Santa Catarina, no município de Tubarão, mostrava um helicóptero da Polícia Federal que, em apoio à paralisação dos caminhoneiros, levou uma caixa de som na aeronave para tocar o Hino Nacional aos presentes. Na descrição, dizia-se que a mídia não divulgava a imagem, pois o governo estava comprando as pautas de todos os jornais para colocar o povo contra os motoristas. Tudo mentira. Na filmagem, primeiramente, quando o helicóptero se afasta dos manifestantes, não há nenhuma mudança na intensidade do som do hino – mostrando que a música não teria como estar vindo do helicóptero. Além disso, pelo som alto emitido pela aeronave em seu funcionamento, não faria sentido a instalação de caixas de som em seu interior.

Marcelo Rezende previu e padre Fábio de Melo apoiou?
Envolvendo famosos, rolaram nas redes diferentes materiais sobre a paralisação. Um deles trazia o falecido jornalista Marcelo Rezende, em áudio, prevendo a greve dos caminhoneiros e a falta de combustível que estaria para ocorrer após sua morte. Em análise, nem mesmo a voz era parecida com a do profissional. Outro conteúdo trazia um sermão do padre Fábio de Melo apoiando o trabalho e a importância do caminhoneiro. O texto não foi escrito por ele.

Embraer fez vídeo criticando os impostos e os políticos do Brasil?
“Que coragem da Embraer em fazer este filme. Tem que tirar o chapéu para essa empresa”. Assim era apresentado um vídeo que, com imagens dos aviões, criticava o país, que tinha, dentre outros, “os políticos mais caros do mundo” e “os pedágios mais caros do mundo”. O conteúdo, que teve mais de 700 mil visualizações, é falso. Com qualidade duvidosa para uma empresa do tamanho da Embraer, erros de português e informações equivocadas, como a de que ela é a terceira maior fabricante de jatos do mundo e a de que o Brasil tem os maiores juros do mundo, o vídeo foi categorizado por quem o compartilhou como “ousadia pura”.

Juiz Sérgio Moro mandou carta ao povo sobre “fazer revolução”?
Figura conhecida pela Operação Lava-Jato, o juiz Sérgio Moro emitiu uma carta pública ao povo brasileiro, pedindo uma revolução que seria sem armas, mas pelas redes sociais. Ele também listou suas escolhas para o ano de 2018, pedindo, dentre outros pontos, a redução do número de deputados e o voto facultativo. Nada disso é verdade. O mesmo texto, semanas atrás, já havia circulado como se fosse de autoria da ministra do STF Carmen Lúcia. Na verdade, ele saiu no espaço “Coluna do Leitor” do jornal O Globo, publicado em 2011. Cabe ressaltar que, por sua posição como juiz, Moro não faz declarações públicas relacionadas à política.

Federal Judge Sergio Moro speaks during a business meeting promoted by Business Leaders Group (LIDE) in Sao Paulo Brazil on September 24 2015. Moro is in charge of the investigation on oil giant Petrobras corruption scandal. AFP PHOTO / Nelson ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Quando subiu a gasolina na Alemanha, o povo todo parou seu carro em manifestação?
Buscando apoio da população geral para a paralisação dos caminhoneiros, muito circulou uma imagem onde, na Alemanha, o povo todo parou o carro em uma grande avenida em protesto ao aumento dos combustíveis ocorrido no país. Nada do tipo ocorreu. Na foto que ilustraria a manifestação, vê-se muitas pessoas de cabelos pretos e olhos puxados – feições muito diferentes das do povo alemão – se “manifestando”. Na verdade, a imagem retrata um grande engarrafamento, em 2012, que ocorreu na cidade de Shenzhen – uma das maiores da China.

Ministro gravou áudio contando que Temer iria cair?
Um áudio circulou pelas redes no qual o Ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, estaria contando que, como já previamente combinado com a Rede Globo, o governo tinha acabado e o presidente Temer iria cair. Havia até diferentes versões do áudio vazado, que começava com um “Claudião, só não vaza esse áudio, por favor”. O mesmo conteúdo, meses atrás e antes das manifestações, já havia circulado como se fosse atribuído ao ex-deputado Edinho Bez. No material, não há nem semelhança com a voz de Marun ou de Bez.

General anunciou intervenção militar?
Diversos áudios e textos remetendo a uma intervenção militar circularam durante a paralisação. O mais significante seria do General Villas Bôas que, com texto e áudio, trazia que: “sem maiores transtornos, declaramos vago à Presidência da República, assim suspendemos o Congresso Nacional e afastamos todos de suas funções de Ministros do Supremo a partir de zero hora na data de 30/05/2018. Com isso, assume o Governo do BRASIL as forças armadas e Junta Militar”. Tudo falso. O áudio não tinha a voz e nem o sotaque do General. O texto contém erros de português e não houve nenhuma referência no site oficial do Exército. A entidade negou.

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