Valeska defende controle maior

O aplicativo Family Link foi desenvolvido para os pais controlarem o que as crianças podem ou não fazer no celular

O tempo de exposição ao celular e a decisão de acessar sites impróprios são os maiores problemas entre pais e filhos quando o assunto é o uso da internet. Se depender do Google, os pais brasileiros conseguirão impor certas restrições às crianças com mais precisão. Isso porque a empresa lançou um aplicativo para os responsáveis controlarem o que os pequenos fazem no smartphone, desde que rode Android.

O Family Link foi criado em uma parceria das equipes de engenheiros do Google no Brasil, que ficam em Belo Horizonte, e dos Estados Unidos, sediados na Califórnia. Ele estava em teste desde setembro de 2017 no país norte-americano e já está disponível na Play Store para os brasileiros. O aplicativo, na verdade, é voltado exclusivamente aos pais. São eles que devem instalá-lo em seu aparelho, seja Android ou iPhone. Vale lembrar que o controle dos responsáveis não será mais possível quando o usuário completar 13 anos de idade.

Com ele, os pais podem criar uma conta Google familiar, a ser configurada no celular dos filhos – por ser uma conta Google, só aparelhos do sistema Android estão dentro do raio de ação do serviço. É possível, por exemplo, aprovar ou proibir apps instalados da Google Play Store; limitar o horário de uso do celular e para cada aplicativo; monitorar o tempo gasto por aplicativo em períodos semanais e mensais; e bloquear remotamente o dispositivo em determinada hora do dia.

A psicopedagoga Valeska Marx Machado afirma que a novidade tem aspectos positivos e negativos. Para ela, esses aplicativos deveriam garantir um controle maior sobre como os usuários agem nas plataformas. “Se os pais usarem isso de uma forma totalmente invasiva, é um hábito ruim. Se usarem de forma amigável, procurando entender por que o filho tem curiosidade em acessar determinado site ou instalar um programa, aí pode ser benéfico. Só que geralmente essas redes não conseguem controlar isso, simplesmente largam uma plataforma na mão dos usuários”, comenta.

Na prática, a novidade é uma jogada do Google para incentivar crianças e adolescentes a usarem seus serviços com segurança. No Brasil, é preciso ter 13 anos para criar uma conta pessoal para navegar nas ferramentas da empresa. Essa idade muda para 18 se o intuito for ver determinados vídeos no YouTube ou usar serviços como AdSense, AdWords e Google Wallet. Mas não é segredo que a rede ainda libera muitos sites inapropriados para os pequenos – como os pornográficos – e, para acessar, basta um clique.

“O Family Link dá à criança a liberdade para acessar um dispositivo Android, mas, ao mesmo tempo, obviamente, seguindo as regras que o pai ou a mãe estabelecerem”, disse Marcel Leonardi, conselheiro sênior de políticas públicas do Google, no lançamento do produto.

Pais estão divididos

Rogério é contra a utilização de celulares por crianças menores de 12 anos

É difícil aceitar que um serviço estabelecerá as regras dentro de casa. Pais montenegrinos expressam seu otimismo para com o Family, mas também não escondem a preocupação pela perda de autoridade natural com seus filhos. Rogério Guilherme da Silva, de 32 anos, pai de Pablo, de oito, e de Laura, de 10, é contra o uso de celulares pelos pequenos, menores de 12 anos. Mesmo achando interessante a ideia da ferramenta, ele aponta para um possível problema. “O bom é que os pais vão saber o que os filhos estão acessando e fazendo. E o lado ruim é que eu acho que o aplicativo vai tirar autoridade dos pais sobre os filhos, que não vão respeitar mais as ordens deles, mas sim o que for determinado no aplicativo”, comenta.

Antônio Marcos Teixeira, de 46, vem de uma geração em que a internet nem sequer existia. Ele, que é pai de Emilia, de seis anos, lembra do tempo em que era fácil se divertir com futebol, taco, bolita, entre outras brincadeiras. “Primeiramente, acho que deveria se reavaliar se o nosso país está apto, ou está trabalhando nisso, para se usar a internet. Acho que nós estamos um tanto atrasados quanto à informática. Nós, adultos, já não temos uma educação dentro da informática, que dirá as crianças. Sendo assim, é preciso uma reeducação”, comenta.

Ele acredita ainda que esse ponto de vista muda, de acordo com a família e com a sua simpatia pelo uso da internet. Antônio procura incentivar outros meios, como a leitura, teatro e resgatar brincadeiras que envolvam a comunhão dos pequenos. “Em resumo, acho uma boa esse aplicativo, pois gera um cuidado especial dos pais. Acho que a mídia tem trabalhado muito forte na sensualidade e se a criança não tiver um bom direcionamento dentro da família, pode gerar sérios problemas”, diz.

Criançada na rede
Em janeiro deste ano, o Facebook já havia criado uma versão de seu serviço de bate-papo para crianças que é controlada por pais. Entretanto, o Messenger Kids, como foi chamado, foi alvo de uma série de críticas de ONGs de defesa da infância, que alegavam que elas não estavam prontas para ter uma conta em redes sociais. Mas é óbvio que, mesmo com a taxação de idade, muitos jovens criam contas na rede falsificando sua data de nascimento. O lançamento propõe que cada família avalie o grau de maturidade da criança e defina o que pode ou não acessar.

O aplicativo também possui recursos que impedem crianças de burlarem as restrições impostas pelos pais. Um deles é o que proíbe os pequenos de mudarem de conta para ter acesso mais livre aos serviços. Somente o dono do celular em que o app está instalado consegue fazer isso.

Por meio do aplicativo, é possível ainda configurar contas diferentes, com níveis diversos de restrição. Isso é uma alternativa para famílias com mais de um filho. O que o aplicativo não consegue fazer é impedir as ações das crianças dentro de um aplicativo. Se os pais liberarem o uso do WhatsApp, por exemplo, o Family Link não é capaz de barrar que recebam ou enviem fotos ou que conversem com pessoas desconhecidas.

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