Em Muda Boi, o açaí Juçara ainda está verde. Ele leva cerca de três meses para adquirir a tonalidade roxa

Com características similares ao açaí original, do Norte do Brasil, o fruto cresce na porção Sul da Mata Atlântica

O consumo da polpa do açaí aumentou exponencialmente nos últimos dez anos. Em Montenegro, lojas que oferecem o produto para consumo também têm se multiplicado. O que muitos não sabem, no entanto, é quem nem todas elas oferecem o açaí original, vindo do Norte e do Nordeste do país. Algumas têm a polpa do chamado “açaí juçara”, que nasce na Mata Atlântica da região Sul e, inclusive, em Montenegro.

Não há grandes diferenças entre os dois. Apesar de espécies distintas, a cor e o sabor deles são muito similares. Há debates, mas muitos até afirmam que o juçara é mais saboroso, apesar de não render tanta polpa quanto o açaí original. Estudos indicam ainda que mesmo que ambos sejam ricos em gordura boa e em minerais, o juçara é o mais nutritivo.

A produção do fruto, em Montenegro, ainda não tem caráter comercial. Na localidade de Muda Boi, o agricultor Luis Carlos Laux tem mais de mil árvores que dão o fruto. Ele conhece uma segunda propriedade, em Bom Jardim, que também tem produção, e afirma que há uma outra no município de Pareci Novo. Contudo, não existem, até o momento, práticas de extração ou venda na região.

Laux introduziu o fruto pensando na biodiversidade de sua agrofloresta

Luis tem 45 hectares de terra na localidade, onde produz citros em um manejo agroflorestal – com a produção nascendo em meio à mata. Com mais da metade da propriedade mantida como floresta, o agricultor buscou introduzir diferentes espécies, pensando na biodiversidade do local. Entre o plantio de café, jabuticaba e outros, ele introduziu cerca de 200 sementes do juçara há cerca de dez anos. Elas foram trazidas de Maquiné.

A produção aumentou por conta, com o auxílio do vento e dos animais reflorestadores. Luis explica que o Vale do Caí tem uma malha de Mata Atlântica, de onde o fruto é característico. “Ele não tolera o frio, mas também não pode crescer em pleno sol porque a luz direta o queima”, aponta, indicando que, por isso, o desenvolvimento na floresta é o ideal. As árvores (palmeiras) chegam a oito metros de altura. Sete anos após o plantio, o agricultor identificou o aparecimento das primeiras frutas.

O açaí juçara dá em cachos, assim como o fruto “original”, e o tamanho de cada um varia, podendo pesar de cinco até quinze quilos, carregado das frutinhas. A colheita, por isso, é difícil. Derrubar o galho no chão pode “debulhar” o cacho e trazer perdas. Por isso que, dependendo da altura, precisa ser utilizada uma escada ou, caso esta não alcance, é preciso que a árvore seja escalada. O produtor montenegrino, até hoje, só realizou colheita em caráter experimental para amostragem.

Fruta tem grande impacto econômico para a região do Litoral
Luis Carlos Laux, em Muda Boi, afirma que só plantou o juçara focando na biodiversidade da propriedade e ainda não tem projeto de utilizar a produção com fim econômico, extraindo a polpa e a comercializando. Ele reconhece que a exploração é uma possibilidade, mas ressalta que seu primeiro intuito é povoar bem as terras com os diferentes frutos.

Na região de Maquiné, a comercialização da polpa já é característica. Em média, 15 toneladas da fruta são produzidas por ano em cooperativa

Um exemplo de sucesso econômico com essa produção, no entanto, não está longe daqui. O principal fica na região litorânea do Estado, entre Maquiné e Torres – de onde, inclusive, vieram as sementes introduzidas na propriedade montenegrina. No ramo desde 2000, um grupo de agricultores familiares uniu-se na cooperativa Econativa. Lá, a produção média do fruto chega a 15 toneladas por ano.

Técnico no Centro Ecológico que presta assessoria a esta cooperativa, Cristiano Matter explica que dois quilos da fruta rendem cerca de um quilo de polpa. Ela é comercializada já processada, com a adição somente de água – como é característico do açaí – e vendida por, em média, R$ 20,00 no atacado e R$ 25,00 em feiras, diretamente para o consumidor final. A venda é focada no eixo Porto Alegre-Florianópolis.

“É um mercado muito crescente e o consumidor está valorizando um produto que é realmente puro e autêntico”, avalia Matter. Colocando no papel os dados da cooperativa, pode-se contabilizar uma arrecadação anual bruta de R$ 150 mil com o juçara que, para os produtores da região, é categorizada como renda extra nas propriedades, que também produzem outras culturas.

Árvore em risco de extinção
Da árvore que provém o “açaí juçara” também vem o “palmito juçara”. Com maior valor agregado, o palmito foi, por anos, o principal foco de uso da planta. Para sua extração, no entanto, há a necessidade de corte do caule, o que acaba sacrificando a palmeira toda. Por isso, ela acabou em risco de extinção e a prática foi proibida. O uso da fruta, porém, não traz impactos neste sentido e é autorizado.

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