Com a experiência, Assis (à esquerda)pôde absorver um pouco da cultura local

Ele pensa em incorporar os ensinamentos em iniciativas junto à comunidade

A vista era um prato cheio para a reflexão dos conhecimentos recebidos.
CRÉDITO: Acervo Pessoal

Em setembro, Assis Tomaz Vieira passou 28 dias viajando pelo Nepal, Tibete e parte da Índia. Natural de Lavras do Sul, mas se considerando montenegrino por viver no município desde 1981, ele conta que o objetivo principal de sua viagem era a possibilidade de conhecer a religião budista em sua essência. Hoje, de volta à cidade, partilha com alegria alguns dos muitos conhecimentos que adquiriu durante a experiência.

O budismo já faz parte da vida de Assis há 12 anos. Em seu contato com a religião (ou filosofia), ele participava de retiros nos templos e centros de estudos budistas de Viamão e Três Coroas. O interesse pelos conhecimentos adquiridos foi aumentando com o tempo. “Foi com essa paixão pelo budismo que eu comecei a ter uma necessidade de ir até a sua essência”, conta. Nascia o projeto da viagem.

Tudo começou a ser programado há cerca de um ano. Seu companheiro na experiência foi o nepalês Lama Dawa, do templo de Três Coroas, que aproveitava a oportunidade para visitar a família no país natal. Assis deu a ele algumas ideias do que gostaria de conhecer e deixou que o amigo desse as coordenadas. Além de guia, o nepalês também foi intérprete da língua local durante o quase um mês de viagem.

Na chamada “Cerimônia das lamparinas”, Assis fez pedidos de saúde, paz e harmonia aos familiares e amigos.
CRÉDITO: Acervo Pessoal

E assim foram. Visitando os belos templos, adquirindo informações e conhecendo a cultura local. Por vezes, os companheiros de viagem recebiam orientações de mestres para irem até determinados lugares ou cumprirem certos “desafios”. “Era uma forma de ir da teoria para a prática”, reflete Assis. “A gente foi entrando na prática diária deles e se integrando aos grupos. Tudo de forma muito simples”, revela.

A dupla de viajantes chegou ao Nepal durante as comemorações do ano novo local. Foram quinze dias de festa para celebrar a chegada do ano de 2074, de acordo com o calendário deles.

Durante a estadia, passavam as noites em hotéis ou em alojamentos dos templos, dependendo do local e da atividade realizada. O montenegrino conta que não estranhou a comida oferecida, baseada principalmente em frutas, verduras, cereais, peixe e frango. O grande ponto da experiência foi mesmo o conhecimento sobre a cultura local e a religião.

Iniciativas no município

Assis, à esquerda, e o companheiro de viagem, Lama Dawa, em frente a um dos templos do Nepal

Enquanto se despedia dos monges, no último dia de viagem, bateu a vontade de ficar. Quando revelou o desejo a um dos mestres, Assis recebeu uma resposta que ainda reverbera em seu pensamento. “Tu vai. Volta quando puderes, mas vai. Nós estamos onde a gente precisa estar”, relembra.

De volta ao lar, ele pensa hoje em iniciativas que possam passar as reflexões do budismo para outras pessoas. “Às vezes tu conversa com uma pessoa e ela já melhora”, diz. Não há nada oficial ainda, mas o viajante pensa em formar um grupo de estudos budistas em Montenegro, em um futuro próximo.

Também cogita uma parceria com a Smec para trazer uma palestra do Lama Padma Samten – conceituado estudioso e praticante da filosofia budista – para as escolas de Montenegro, como forma de incorporar os conhecimentos na formação inicial. “O budismo é o que a gente quiser que ele seja. Pra mim, ele é uma ciência da mente. Ele faz um estudo de como a mente funciona e como nós nos relacionamos. Nossa ação e reação se dá a partir da realidade que a gente vai forjando”, finaliza.

Reflexões trazidas do oriente
Questionado sobre o que foi mais marcante na viagem, Assis aponta as noções de honestidade, solidariedade e gentileza que lhe foram passadas. O desapego com os bens materiais também foi outro forte ensinamento. “Conversando com um monge, ele me apontou que o mundo ocidental vive uma grande crise de civilização. Há uma insatisfação com tudo. Tudo é motivo de estresse”, coloca. Ele conta que essa reflexão o sensibilizou muito.

“Todo apego gera um sofrimento. É preciso entender que estar desapegado não é um relaxamento. É fazer com que as coisas não nos dominem. Elas devem gerar alegria, satisfação e felicidade, sem que passem a ser uma preocupação”, coloca. Assis relata que, de sua percepção com a cultura local, percebeu que o povo carrega essa ideia consigo sempre. “Tem uma pobreza lá, mas é com dignidade. O povo não é apegado às coisas. Eles entendem que tudo faz parte de uma energia e que as coisas têm que fluir.”

Aliada a esse pensamento está a colocação dos problemas em perspectiva, distanciando-os da angústia do apego e os analisando com calma e serenidade, mesmo quando algo não sai como planejado. “Quando as coisas não dão certo, se abre um leque para outras perspectivas”, diz Assis. Outro ensinamento trazido foi em relação a julgamentos. “Não tem como tu saber, de fato, o que a pessoa julgada passou ou está passando. Então é uma perspectiva injusta”, afirma.

O “poder da palavra” também é citado. Ela, que, depois de dita, não pode mais ser dominada, pode ser mais letal do que uma agressão física e suas cicatrizes podem não sarar nunca. “As palavras têm muita força.”
É neste sentido, diz Assis, que o budismo prega o respeito mútuo, com o reconhecimento de que cada um tem a sua caminhada, a sua importância e o seu papel.

 

Deixe seu comentário