Sempre no perigo. Levantamento do IBGE apontou a realidade de quem vive com medo de deslizamentos e inundações

Em uma publicação inédita, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o número de brasileiros que vivem em áreas de risco no país. São pessoas que convivem diariamente com possíveis desastres ambientais, em locais sujeitos a alagamentos ou deslizamentos. Só no Rio Grande do Sul, o levantamento aponta para 274.390 gaúchos vivendo nesta situação.

Vera Lucia da Silva diz que vive com o medo de que sua casa caia já na próxima cheia

A pesquisa é o resultado de um acordo entre o IBGE e o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), que busca computar os dados para incentivar políticas que reduzam o número de vítimas e os prejuízos causados por estes desastres. Para o índice, foram relacionados os 872 municípios monitorados pelo Cemaden com o último Censo do IBGE, de 2010, sendo que 39 cidades gaúchas estão entre elas. Na região, o representante é São Sebastião do Caí, com 9.503 pessoas que moram em área de risco.

Mesmo ainda não compondo o índice – a expectativa é de que o levantamento seja aprofundado nos próximos anos – Montenegro não foge à regra apontada. As principais áreas de risco do município referem-se às habitações feitas nas proximidades do Rio Caí ou no pé do Morro São João. Nessas áreas vivem muitos e os riscos são grandes.

De acordo com a Defesa Civil, cerca de 20% da área urbana da cidade é inundável pelas enchentes. É nessa área que mora a faxineira Vera Lucia da Silva, já há nove anos. Um claro exemplo da constatação exposta pelo IBGE, a montenegrina vive em uma casa que, anualmente, tem o pátio inundado. Com as cheias, a área aterrada da residência está afundando e a estrutura entortou, já precisando ter os alicerces reforçados. O chão balança enquanto se caminha de uma peça para outra.

Vera conta que mora ali com o marido, no bairro Industrial. Quando recebe o aviso das enchentes, eles recolhem tudo do pátio – flores, adornos e até os cachorros e as galinhas que criam – e colocam para dentro da área e da casa, que é elevada. Por opção, os dois nunca vão para os abrigos disponibilizados pela Prefeitura. Ficam ilhados durante todos os dias de enchente. Na maioria das vezes, até a luz é cortada e a comida precisa ser racionada.

“Nós que construímos aqui. A gente está escrito para receber as casinhas da Prefeitura, mas nunca nos chamaram”, relata. “A gente não sabe nadar e até tem medo de dar uma enchente grande e a gente morrer aqui. A casa já é torta e eu acho que quando der a próxima, ela não vai aguentar não”. O desejo por um lar melhor evidencia um dos principais problemas em relação ao tema: apesar de existirem, as políticas públicas de habitação ainda não conseguem atender toda a demanda de munícipes em situação de necessidade.

No pé do Morro São João, também há risco
Coordenador da Defesa Civil, Elton José Santos da Silva aponta que, além dos locais de enchentes, há muitos que vivem em áreas de risco de deslizamentos em Montenegro. “Tem a questão do Morro São João, onde as pessoas cada vez tão subindo mais e de forma não controlada. Aí vão degradando a vegetação e trazendo risco”, aponta. Hoje, um dos principais pontos em que a situação é identificada é no bairro Bela Vista.

Apesar do perigo, Edwirges Fernandes de Mattos se diz tranquila com o lugar onde vive

Uma das montenegrinas que mora lá é a aposentada Edwirges Fernandes de Mattos, de 83 anos. Ela vive na última casa de um núcleo habitacional que se formou ao pé do São João. De subida íngreme, ela já pouco sai de casa por causa das dificuldades de locomoção. Aos fundos do seu pátio só existe o paredão do Morro e não há espaço para construir mais nada. Uma de suas vizinhas, ela lembra, já teve a residência danificada por uma pedra que rolou e atingiu a edificação.

“Faz 35 anos que eu moro aqui. Graças a Deus que pra nós nunca deu perigo nenhum”, conta. “Só se caísse alguns dos ‘pedrões’ lá de cima, que daí não sobrava casa nenhuma”. Edwirges morava anteriormente em outro lado do Morro, mas saiu de lá para morar na casa onde vive hoje, que era da filha. Ali ela ficou criando os netos em uma edificação construída em meio a pedras e “reforços” colocados para evitar o desabamento. Apesar do risco, ela se diz tranquila com o lugar onde vive.

O que faz o Poder Público em Montenegro

A casa da aposentada Edwirges, no Bela Vista, é a última antes do paredão do Morro São João

A situação é delicada. Elton José Santos da Silva, coordenador da Defesa Civil, conta que a Prefeitura costuma consultar o órgão para verificar se determinado local tem risco eminente de algum desastre natural. Pode haver interdições e a retirada dos moradores em locais irregulares e de invasão, desde que a Secretaria de Habitação tenha como realocar os indivíduos que, em sua maioria, são pessoas carentes. Mesmo assim, apesar do risco, alguns acabam voltando para as áreas de onde foram retirados.

No que se refere a sistemas de monitoramento, ao contrário do que existe para as enchentes, não há nada que indique a movimentação do solo que posso acarretar em um deslizamento. Elton explica que, após grandes chuvas, indícios como rachaduras em paredes começam a acender o alerta de que algum desastre pode ocorrer.

Sobre o lidar com as pessoas, a Assistência Social da Prefeitura possui um cadastro de quem precisa de auxílio e as políticas de habitação realocam – conforme a disponibilidade – os moradores para áreas com habitações regulares e que não oferecem riscos. Além disso, a Defesa Civil destaca o encaminhamento de 14 projetos feitos em maio deste ano, que buscam minimizar os impactos, ao menos das cheias. Eles prevêem limpeza de arroios, reparo de pontes e aumento de tubulações.

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