Gui Massena, assim como os outros fundadores da Dobra, acompanhou sessão em que os desenhos foram criados. FOTOS: DOBRA/DIVULGAÇÃO

Exemplo privado. Dobra chama alunos para criar carteiras cujas vendas serão revertidas à reforma do pátio

“Não serão os governantes, mas sim as empresas com propósitos e valores que servirão de vetor de transformação social no futuro”, disseram os jovens empreendedores Guilherme Massena, Eduardo Seelig e Augusto Massena, fundadores da startup Dobra, em entrevista veiculada pelo Jornal Ibiá em 28 de fevereiro deste ano. Apenas quatro meses depois, eles demonstram na prática, aqui em Montenegro, o que estavam a dizer. Até porque, como afirmou o filósofo alemão Albert Schweitzer, “dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros; é a única”.

A iniciativa dos guris mira a recuperação do pátio do Colégio Estadual Ivo Bühler, o Ciep. Denominado Mãos à Dobra, o projeto social irá revitalizar, ainda este ano, o espaço de recreação, hoje sem nenhum atrativo, mal aproveitado. Foram as próprias crianças e adolescentes que votaram e elegeram essa prioridade. “É um lugar sem vida, sem cor. Nem parece que faz parte de uma escola. Nosso propósito é recuperar essa área, colocar brinquedos, transformar num local bacana”, conta Augusto. E quem irá colocar a mão na massa será a própria equipe da Dobra, em conjunto com alunos, porque isso vai estimular o senso de responsabilidade e de pertencimento.

Para bancar as despesas, a startup irá reverter todo o lucro levantado com a venda das carteiras que os próprios estudantes criaram. “Fomos até a escola e passamos uma manhã desenhando com eles. 85 alunos de 6 a 16 anos se inscreveram. Sozinhos e em grupos, eles desenharam as carteiras de seus sonhos, criando muitas estampas. Nós selecionamos 32 delas para ir à votação em nosso site.” Seis foram eleitas e já podem ser compradas na loja on-line da Dobra.

Antes de decidirem pelo Ciep, os empreendedores avaliaram diversas outras instituições. Todas tinham suas deficiências. Para Augusto, essa realidade mostra que a educação somente é prioridade em discurso político. “A gente se decepciona vendo o descaso, mas ao mesmo tempo é gratificante, porque se nós, com nosso tamanho e apenas dois anos de existência, conseguimos fazer diferença, imagina as empresas grandes. Imagina como seriam as escolas se todos fizessem alguma coisa. Gostaríamos que outras empresas se espelhassem em nosso projeto”, provoca.

Smile Flame, especialista em ações sociais

Ao todo, 85 alunos de 6 a 16 anos participaram da atividade em que as estampas foram desenhadas. As mais votadas já podem ser compradas

A iniciativa conta com o engajamento da Smile Flame, uma empresa de consultoria baseada em Porto Alegre que ajuda outras empresas a realizar ações sociais. O Mãos à Dobra já é fruto de um projeto maior e anterior, o Dobra +1. Através dele, cada produto vendido pela startup montenegrina tem um real revertido a um fundo social gerido pela empresa que, por sinal, é a fonte de financiamento da intervenção no Ciep. “Nosso propósito é causar impacto positivo, é promover a transformação através de ação social, então ajudamos aquilo em que acreditamos”, ressalta Augusto.

A gerente de projetos da Smile, Flame Fernanda Viuniski Verdi, conta que a Dobra se aproximou dela para criar projetos que gerassem impacto positivo na sociedade. “O +1 é um projeto em que as empresas recolhem R$ 1,00 do preço de cada produto vendido e o comprometem com um fundo que será aplicado para a geração de impacto social. Dentro dessa parceria, o primeiro projeto que criamos foi o Mãos à Dobra”, explica.

Segundo ela, a ação foi pensada para fazer a diferença dentro de uma escola pública e de uma maneira que envolvesse os alunos e os próprios produtos da Dobra. “A gente queria dar as ferramentas, a tecnologia e o suporte para que a comunidade escolar criasse as próprias carteiras que trariam dinheiro para a melhoria do seu espaço.”

A escolha pelo Ciep, diz Fernanda, ocorreu quando se soube das consequências causadas pelo temporal de outubro do ano passado, que também danificou outros estabelecimentos de ensino, alguns até hoje não recuperados. “Entramos em contato com a escola, as professoras nos responderam com muito entusiasmo e, no dia em que fomos conhecer o colégio, vimos um pátio super grande. Ficamos sabendo que a escola tinha mais de 900 alunos e percebemos que poderíamos fazer algo muito legal ali.”

“Os alunos estão se sentindo valorizados”

Ao todo, 85 alunos de 6 a 16 anos participaram da atividade em que as estampas foram desenhadas. As mais votadas já podem ser compradas

Integrante do corpo docente do Colégio Estadual Ivo Bühler, a professora de artes visuais Ágata Tejada Klein não poupa elogios ao projeto oriundo da iniciativa privada. “É com arte, cultura, esporte e momentos fora do estereótipo antigo de escola que a educação realmente acontece de forma eficaz”, enaltece. Ela disse que é apoiadora da proposta, pois cuidou da logística até o dia do evento e, além disso, selecionou os alunos mais interessados e envolvidos com desenhos. Confira :

De que forma os alunos receberam o Mãos à Dobra? Com que sentimento eles participaram da atividade proposta pela empresa Dobra?
Receberam da melhor forma possível. Nossos alunos são envolvidos e amam todas as manifestações artísticas. Gostam de se expressar com arte, esporte, etc. Nossa realidade é carente em diversos sentidos, então toda parceria que pode acrescentar é extremamente bem-vinda. Na manhã de trabalho com a Dobra e Smile Flame, os olhinhos brilhavam. Foi um momento de criação divertido para todos.

O projeto tem repercutido no dia a dia? De que forma?
Muito, pois além de a escola ter ganhado todo o material disponibilizado pela Tris, que está sendo extremamente aproveitado, os alunos estão se sentindo importantes e valorizados por seus trabalhos já estarem expostos no site da Dobra. Todos também amaram conhecer a grande equipe que esteve no Ciep. [Os estudantes] fazem referência a eles com frequência.

Como professora de artes, qual avaliação você faz deste tipo de iniciativa?
A avaliação seria a melhor possível, como já dito, por todas as necessidades que nossos alunos têm, mas principalmente por acreditar que é com arte, cultura, esporte e momentos fora do estereótipo antigo de escola que a educação realmente acontece de forma eficaz. Projetos assim emocionam e transformam o meio. Todos os envolvidos são beneficiados.

Como é a situação atual deste pátio que o projeto irá revitalizar?
Nosso pátio está em situação regular. Não há exatamente algum problema. A proposta do pessoal da Smile e Dobra é torná-lo atraente e funcional, já que nossa escola é de tempo integral e os alunos passam muito tempo por lá. Não há nenhum atrativo. Escola pública não recebe a verba que seria ideal, mas problemas de obras, saneamento… isso, não. Possui limpeza também.

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