Em análise. Incidente ocorreu no mesmo dia em que órgãos federais iniciaram inspeções no Polo Petroquímico

João Freire. foto: Divulgação/Braskem

Em entrevista exclusiva ao Jornal Ibiá na tarde de ontem, o diretor de relações institucionais da Braskem para o Sul do País, João Ruy Dornelles Freire, explicou que as causas da explosão seguida de incêndio na empresa, que ocorreu no início da noite da última segunda, dia 4, já estão sendo investigadas internamente. Por esse motivo, a planta de polietilenos, também chamada de “PE6”, permanece parada por tempo indeterminado até que possa voltar a operar em condições de segurança. A identificação dos motivos é fundamental, segundo ele, “para que possíveis falhas sejam corrigidas e assim se evite, na origem”, novos episódios como o de segunda-feira. Ninguém se feriu e nenhum atendimento médico foi necessário.

Conforme Freire, o incidente ocorreu em um reator que atua sob elevada pressão e alta temperatura dentro de uma casamata de concreto cujas paredes têm um metro de espessura e 10 metros de altura — estrutura projetada para conter a propagação lateral de chamas e ondas de choque. Como não possui telhado, as chamas se irradiaram para cima, como se vê nos vídeos registrados no entorno do local. A casamata não teve danos estruturais e, nesse local, nenhum funcionário trabalha.

Ao processo de despressurização se seguiu uma combustão porque no interior do reator (espécie de panela de pressão gigante), há gás eteno, que é submetido a uma reação química a fim de produzir polímeros. Esse fenômeno gerou um estrondo ouvido a quilômetros de distância e também uma onda de choque que estilhaçou vidros, deslocou forros de PVC e comprometeu estruturas laterais de fibrocimento de alguns pavilhões da unidade.

Questionado quanto às consequências que poderiam sofrear as pessoas que estivessem circulando pelos locais atingidos pela onda de choque, o executivo observou que “não comenta hipóteses, apenas fatos”. O incêndio foi prontamente assistido pela brigada da própria Braskem, que possui tecnologia e treinamento internacional de excelência para atender este tipo de emergência.

Freire declarou que a comunidade do entorno do Polo Petroquímico de Triunfo não tem maiores motivos para preocupação, porque nos 35 anos de funcionamento do complexo nunca houve nenhuma ocorrência que repercutisse externamente em danos ou ferimentos. Ele argumenta que nas imediações das empresas há 68 hectares de área verde, que não apenas protegem a população, como também preservam o meio ambiente. O monitoramento da espaço mostra que as mais de três mil espécies de plantas e animais “evoluíram positivamente” desde a inauguração do polo.

Com relação às medidas de segurança no complexo, o diretor destaca que a Braskem segue os mesmos protocolos internacionais que estão em vigência, por exemplo, nos Estados Unidos e na Alemanha — países onde a empresa também possui unidades. “São esses procedimentos extremamente rigorosos que nos levam a apurar as causas desse evento recente. Atuar em prevenção faz parte da nossa cultura.”

Além da constante capacitação técnica de funcionários para agir em eventos imprevistos dentro da planta, a Braskem também afirma investir, em média, R$ 200 milhões ao ano na manutenção, melhoria e garantia dos processos ligados à área de segurança.

Segurança no polo já foi maior, diz sindicato

Ondas de choque causaram danos em estruturas de PVC. foto: Divulgação

“Não é um local inseguro, mas já foi mais seguro”, afirmou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Petroquímica de Triunfo (Sindipolo), Gerson Borba, que trabalhou por 25 anos na unidade onde houve o incidente na segunda-feira. Segundo ele, desde que o Grupo Odebrecht/Braskem assumiu o polo em definitivo, em 2007, a política de segurança vem perdendo espaço, porque as equipes estão mais enxutas e se reduziu o número de técnicos especializados que atuam, por exemplo, como eletricistas, instrumentistas e segurança do trabalho, obrigando os operadores a assumir tarefas de manutenção para as quais não são devidamente capacitados. “Isso eleva os riscos de acidente. Temos feito reclamações, mas não temos avançado muito nas negociações”, alerta o dirigente.

Para ilustrar a insuficiência de efetivo, ele observa que não existiria equipe suficiente caso houvesse mais um sinistro do mesmo porte na segunda-feira. Além disso, avalia que se não houve feridos é porque ninguém passava por perto na hora da explosão. Para chegar e sair do posto de trabalho, funcionários caminham ao lado dessas estruturas de fibrocimento que foram danificadas pela onda de choque, acrescenta o sindicalista. “Estamos operando no limite, tanto no aspecto operacional quanto de segurança, o que nos causa muita preocupação”, revela.

Nos últimos anos houve duas evacuações emergenciais de funcionários em virtude de vazamentos — eventos que não eram recorrentes no histórico da planta. “No caso mais recente, as explicações que a empresa deu foi de que o vazamento no tanque de nafta se deu em razão do mau tempo. Culparam São Pedro”, recorda o presidente.

Outro aspecto que está errado na visão do Sindipolo é a Braskem não autorizar a participação de nenhum membro da entidade nos processos de investigação dos acidentes. “A empresa deveria ser mais transparente quanto a isso. Queremos entender o que houve na segunda-feira, mas ninguém entra em detalhes. Explicaram por cima. Gostaríamos de mais autonomia para debater essas questões.”

Borba também critica que, às vezes, a área comercial pressiona a estrutura operacional para produzir mais a fim de atender os aumentos de demanda — seja no mercado interno, seja no Exterior. “Com isso, em vez de a unidade ser parada para manutenções, o comercial diz para segurar. Então, a unidade segue trabalhando para dar conta de tudo, tornando os processos mais suscetíveis a problemas”, aponta. Fatos como esse ajudam a explicar por que o polo está sendo alvo de operação de fiscalização por parte de órgãos de governo, finaliza o sindicalista.

Números 
— De acordo com o Sindipolo, a Braskem emprega diretamente cerca de 1.900 pessoas. Já o número de terceirizados chega 3.000 trabalhadores, em média. Segundo a entidade, desde que o Grupo Odebrecht assumiu a empresa, o número de terceirizados tem sido cada vez maior em relação à quantidade de efetivos.

— O salário médio de um operador do polo petroquímico fica na faixa dos R$ 5 mil, considerando os adicionais, que chegam a 88% em cima do salário-base.

Conselheira reconhece riscos, mas afirma que há preparo

Casualmente, operação começou no mesmo dia da explosão na PE6. Foto: MPT-RS/Divulgação

Riscos de acidentes existem sim, como em qualquer ambiente de trabalho. É dessa forma que a professora aposentada Maria Terezinha Kraemer Canello, a Nica, avalia o incidente registrado na planta de polietilenos (PE6) da Braskem, em Triunfo, nesta segunda-feira. Integrante do Conselho Comunitário Consultivo (CCC) do Polo Petroquímico, cuja missão é “servir de canal de comunicação entre as empresas do complexo e a comunidade”, a educadora afirma estar ciente de que uma indústria petroquímica está sujeita a ter explosões como a do dia 4, mas que há funcionários bem treinados e todos os equipamentos necessários para atuar quando necessário. “A brigada de incêndio deles logo tomou uma atitude, porque eles têm tudo de prontidão, ali. Sabemos que pode acontecer, inclusive até pior, mas as equipes estão preparadas”, pondera.

No próximo sábado, dia 9, o CCC terá reunião ordinária no polo e a explosão de segunda-feira deverá estará em pauta, presume Nica. Neste sentido, ela espera inteirar-se melhor acerca desse episódio. “Todas as empresas têm uma preocupação muito grande com a prevenção, inclusive bem maior do que aquela que a gente tem no dia a dia. Sempre que nos reunimos, um técnico em segurança do trabalho avalia previamente o local da reunião e observa quais são as rotas de fuga em caso de emergência”, relata a professora.

Por ser integrante do Conselho Comunitário, ela recebeu um e-mail da área de relações públicas da Braskem pouco depois do evento. A mensagem informava que não havia ninguém ferido e que a situação já estava sob controle. Não houve maiores esclarecimentos quanto às causas do sinistro.

Operação examina condições de saúde e segurança
O Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul (MPT-RS) iniciou nesta segunda, dia 4, operação voltada às seis empresas que integram o polo petroquímico de Triunfo. O objetivo é analisar as condições de saúde e segurança do trabalho. A Braskem, maior empresa do polo, é a primeira a ser inspecionada. Da atividade também participam o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado (Crea-RS) e o Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador (Cerest).

A procuradora do MPT em Santa Cruz do Sul Enéria Thomazini, responsável pelo inquérito civil que examina a Braskem, explica que os órgãos parceiros devem relatar o resultado da inspeção a fim de instruir o procedimento e, se necessário, adotar as medidas cabíveis.

Denominadas de “segunda geração”, as demais empresas também serão inspecionadas, mas contarão com inquéritos próprios para continuidade de investigação, caso constatadas irregularidades. “A operação tem o objetivo de mapear as condições de saúde e segurança do trabalho nas empresas do polo petroquímico, tendo em vista a natureza das atividades, visando à prevenção de doenças e acidentes do trabalho”, observa.

O representante da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho (Codemat) do MPT, procurador Ricardo Garcia, destaca que a fiscalização tem como foco os espaços confinados, os vasos de pressão, trabalhos em altura, entre outras situações de risco.

Crea avalia riscos ambientais e normas técnicas 
O engenheiro químico e de segurança do trabalho Marino Greco, gerente de fiscalização do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS), afirma que ainda não tem elementos para avaliar as condições de segurança da Braskem, em Triunfo. A autarquia federal deu início nesta segunda, dia 4, a uma operação de fiscalização em parceria com o MPT-RS. As ações seguem um cronograma estabelecido previamente que não será alternado devido ao incidente havido pouco antes das 19h de segunda-feira. “Recém começamos nosso trabalho [no polo] e foi pela unidade de insumos básicos, onde nada ocorreu nesta segunda-feira. Passo a passo, chegaremos à unidade de polietileno conforme estabelecido em nosso cronograma.”

Greco explica que durante as averiguações serão analisados o Programa de Prevenção dos Riscos Ambientais e também as normas regulamentadoras 10 (sistemas preventivos) e 12 (segurança em máquinas). Não há uma data prevista para a conclusão das inspeções, mas ao final será divulgado um relatório cujo teor será tornado público.

1 comentário

  1. A BRASKEM TRATA DESSA EXPLOSÃO COMO SE FOSSE A PANELA DE PRESSÃO DO FEIJÃO QUE TIVESSE ESTOURADO NA COZINHA ! E TENHO DE CONCORDAR COM O SINDICATO APESAR DE SER CRITICO DO PRÓPRIO, A SEGURANÇA DECLINOU APOS A VENDA DA TRIUNFO, E ESSA PROFESSORA FALANDO DE ALGO QUE ELA TALVEZ SÓ SAIBA PELO QUE CONTARAM A ELA ! 21 ANOS DE TRIUNFO MAIS 13 EM PROJETOS NO POLO!

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