Artesanato kaingang foi apresentado a moradores de Montenegro em oficina promovida pelos índios no seu dia

Inédito. Kaingangs mostraram um pouco do seu modo de vida ontem no Cetam

Indíos kaingangs que vivem às margens da BR 386, em Tabaí, comemoram o 19 de abril de maneira diferente. Pela primeira vez, eles foram convidados pela Câmara de Vereadores de Montenegro para ensinar artesanato e demonstrar como se faz comidas típicas da cultura indígena. As crianças ainda fizeram uma apresentação de dança tradicional.

Cacique André diz que iniciativas de integração são sempre bem vindas

A ideia partiu da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Câmara, presidida pela vereadora Josi Paz (PSB). “Quando trabalhei no Conselho Tutelar e depois na Assistência Social da Prefeitura, havia muitas reclamações da comunidade quanto à exploração do trabalho infantil por parte dos indígenas. Na época, visitamos aldeias e ouvimos a Funai. Mas me senti incomodada com o tema e agora, através desse encontro, buscamos sensibilizar a cidade para o modo de viver dos índios”, explica a vereadora.

Totalmente informal, o evento foi realizado na sede do Centro de Treinamento da Emater (Cetam) e contou com a participação de integrantes da rede de proteção ao menor, parlamentares, representantes do Executivo e extensionistas. Enquanto as mulheres da tribo ensinavam a usar cipó e cordas para fazer o “filtro dos sonhos”, os homens cortavam bambu para fazer uma espécie de grelha onde seria assado peixe no carvão. Na cozinha, outro grupo cortava folhas de bananeira que servem para cozer bolo na cinza, além das tradicionais batata doce e mandioca como complementos.

Em um ambiente a céu aberto, a troca de conhecimentos entre as culturas ocorreu naturalmente, como se fosse uma vista à tribo. “Nós estamos muito agradecidos pela oportunidade. Essa interação é importante para nós que, pela primeira vez, fomos convidados pelas autoridades de Montenegro pra fazer essa demonstração. Buscamos mais interação com as comunidades e que isso desperte mais conhecimento e respeito pela nossa cultura”, aponta o cacique André Fongue.

vice-prefeito Kadu fala sobre resgate das tradições indigenas

Um estímulo à integração
Segundo a assessora da ONG Comin, Cassiane Schwingel, a Constituição brasileira diz que os indígenas podem viver de acordo com seus hábitos e costumes. Na cultura kaingang, o aprendizado se dá entre pais e filhos. O Estatuto da Criança e do Adolescente não se aplica a esses povos. “A mãe anda sempre com o filho e ela não come se ele não comer. Essa é a cultura deles, por isso as crianças também vendem artesanato. Isso fica de reflexão para nós. Nosso hábito é deixar filhos na creche. Encontros como esses ajudam a desmistificar os índios e a valorizar o artesanato, que não é apenas renda, mas uma expressão cultural dessa comunidade”, aponta a assessora.

O vice-prefeito Carlos Eduardo Müller esteve no Cetam e acompanhou a interação com os kaingangs. “Vejo isso como integração. No passado, tínhamos mais conhecimento sobre esses povos e hoje em dia há crianças e adolescentes que pouco sabem sobre as questões indígenas. Acredito que esse resgate é necessário. Afinal, na cultura deles, já havia agricultura, convivência em grupo. Que essa atividade seja ponto de partida para resgatar o trabalho indígena”, afirma Kadu.

Arte e sustento nas aldeias
O “filtro dos sonhos”, na cultura kaingang, é para ser colocado no quarto e ajuda a afastar pesadelos, explica uma das artesãs da tribo. Em poucos minutos, elas repassaram o conhecimento tradicional para o grupo de mulheres, que aprendeu na prática. “Eu não tinha ideia de como fazer, é muito difícil, mas está sendo uma boa experiência”, diz a extensionista da Emater Luisa Campos. A também extensionista rural Jaqueline Bernhard se surpreendeu com a própria habilidade manual. “Está sendo maravilhoso. Nunca imaginei que fosse tão difícil. Lembra um crochê, só que sem as agulhas.

Quem diria que só com as mãos a gente conseguiria esse resultado”, conta Jaqueline.
Pouco antes de degustar o peixe assado, as crianças da tribo foram pintadas para apresentar uma dança típica, uma celebração feita quando os homens retornavam das guerras, explicam os indígenas.

uma tradição dos kaingangs é o peixe na brasa. Eles mostraram como fazer
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