Protocolo de intenções foi assinado ontem à tarde em solenidade no Palácio Piratini, na Capital. Foto: Karine Viana/Palácio Piratini

Iniciativa pioneira. Em Montenegro, planta produzirá biogás, biometano, CO2, biofertilizantes e energia termoelétrica

O governo gaúcho assinou ontem à tarde protocolo de intenções com a empresa JMalucelli Ambiental, sediada no Paraná, para a construção de uma usina de biogás de aproximadamente R$ 100 milhões em Montenegro. Pioneiro no Rio Grande do Sul, o empreendimento será erguido numa área de 40 hectares onde antigamente funcionava uma pedreira, a cerca de cinco quilômetros do Polo Petroquímico de Triunfo, perto da rodovia ERS-124.

A expectativa é de que as obras iniciem em 2019 e sejam concluídas num prazo de 18 a 24 meses. O grupo paranaense vem desenvolvendo o projeto há três anos em conjunto com o Consórcio Verde Brasil — iniciativa da cooperativa Ecocitrus e da empresa Naturovos, de Salvador do Sul, que levou à criação da usina de biogás em Passo da Serra, junto à central de compostagem, na margem da RSC-287. Não foi detalhado o grau de envolvimento dos parceiros locais no empreendimento, que não tem par no Brasil em escala industrial a partir de resíduos vegetais e animais oriundos do agronegócio
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A secretária estadual de Minas e Energia, Susana Kakuta, conta que projeções dão conta de que seriam produzidos 35.000 m³/dia de biometano, 40 toneladas/dia de dióxido de carbono (CO2), 4.000 ton/mês de biofertilizante, além de energia térmica e elétrica. “É uma iniciativa que transforma um problema ambiental em uma fonte energética. Existe hoje uma limitação ao crescimento em algumas áreas de agronegócio, como suinocultura e avicultura, porque está começando um problema de não se ter onde depositar os dejetos dessas culturas. A usina é uma solução neste sentido.”

Para Susana, outro aspecto importante é que a planta contribuiria para o aumento da arrecadação de ICMS, um dos gargalos do governo gaúcho. “Vamos ter energia produzida aqui no Estado, o que irá gerar ICMS aqui no Estado. Hoje, de todo o gás natural que se vende no RS, o ICMS é cobrado na entrada [do gás] no Brasil, que é no Mato Grosso do Sul. O projeto, então, irá gerar emprego, renda e tributação para o RS, além do crescimento de setores do agronegócio”, enaltece a secretária, para quem é “inconcebível que na Europa haja 16 mil plantas de biomassa instaladas, enquanto nós não temos nenhuma de escala industrial”. A fábrica em Montenegro, segundo ela, irá suprir de 1% a 2% da demanda por gás natural no RS, o que demonstra o potencial de crescimento.

Para o governador José Ivo Sartori, é um grande desafio do Estado empregar novas tecnologias que preservem o meio ambiente e atendam ao Plano Estadual de Energia. “O empreendimento traz uma nova potencialidade energética como estratégia econômica, a partir de uma energia ambientalmente correta, demonstrando atitude inovadora.”

Empresa tem experiência no segmento

Barrionuevo enaltece a geração de bioenergia a partir de resíduos procedentes da agricultura. Foto: Karine Viana/Palácio Piratini

Diretor da JMalucelli Ambiental, Eduardo Covas Barrionuevo relata que a grupo de investidores já está formado e pronto para iniciar a execução do projeto, mas ainda é preciso encontrar colocação para o biometano no mercado gaúcho. Tanto a Companhia de Gás do Estado do Rio Grande do Sul (Sulgás) quanto grandes indústrias, inclusive do Polo Petroquímico de Triunfo, têm sido sondadas. “Depois disso, já teremos um cronograma de obras, que eu gostaria que iniciassem ainda em 2018. Os demais produtos da usina já têm compradores garantidos. Também já estamos alinhavados com a construtora [da usina]”, relata Barrionuevo.

De acordo com ele, o processo para obtenção do licenciamento ambiental está pronto, mas ainda não deu entrada nos órgãos estaduais porque o Rio Grande do Sul não possui classificação para projetos de biometano de grande escala, por ser uma novidade. O diretor conta que o governo está resolvendo essas questões internamente para que a nova planta seja habilitada em local adequado.

Barrionuevo conta que a JMalucelli Ambiental tem participado do desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil desde 2013, ano em que foi fundada a Associação Brasileira de Biogás e Biometano. Em Santa Catarina, a companhia possui plantas de biogás que geram energia elétrica. No Rio de Janeiro, a empresa irá colocar em operação em breve a maior usina de biometano da América Latina, com capacidade para produzir 160 mil m³/dia.

A diferença em relação ao projeto montenegrino é que lá a matéria-prima vem de resíduos depositados em aterros sanitários. “Em Montenegro teremos o diferencial de produzir biogás a partir de resíduos do agronegócio. Entendemos que o fruto mais nobre da árvore do biogás é aquele oriundo de agronegócio, porque não será destinado a aterro. Ele vai para projetos de biodigestão, onde o material biodigerido volta para a lavoura como componente, fechando um ciclo. É a nossa menina dos olhos.”

Oportunidade de desenvolvimento, diz Kadu

Prefeito Kadu Müller. Foto: Arquivo/Jornal Ibiá

O prefeito Carlos Eduardo Müller, o Kadu, diz que as negociações com o grupo paranaense tiveram início ainda em 2017, quando um diretor da JMalucelli procurou a Administração Municipal. “Surgiu a oportunidade e demonstramos interesse”, afirma. O projeto agora toma forma com a assinatura do protocolo de intenções com o governo do Estado. “Esta é uma oportunidade para Montenegro continuar se desenvolvendo”, avalia.

Kadu diz que a área onde a usina de biogás será instalada ainda não está definida, mas possivelmente será em um terreno próximo da ERS-124, estrada que liga Montenegro ao Polo Petroquímico. O chefe do Executivo montenegrino destaca que além de um grande investimento, a novidade traz uma empresa com conhecimento na área e que mobilizará a economia de toda a região. “O produto com o qual eles vão trabalhar é o que hoje é descarte. Este insumo deixa de ser passivo para ser ativo”, comenta.

O investimento da JMalucelli pode transformar Montenegro numa referência em biogás. Ele cita que na cidade a Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí (Ecocitrus) já desenvolve um projeto na área através do Consórcio Verde Brasil, do qual também faz parte a Naturovos. “Este é um belo exemplo do potencial do biogás, inclusive com um produto já concretizado”, diz ao lembrar que veículos rodam no município abastecidos com o combustível produzido pelo consórcio.

Para o secretário municipal da Indústria, Comércio e Turismo, Elias da Rosa, que acompanhou ontem o ato no Palácio Piratini, o investimento será um marco para a história de Montenegro. Além de gerar emprego na construção e na operação da usina, de injetar altas somas na economia local e de desafogar o agronegócio regional quanto à destinação de resíduos, o projeto tornará o município ainda mais competitivo na atração de empreendimentos, pois será uma referência nacional em geração de bioenergia. “Já temos pareceres prévios de várias secretarias que liberam, por parte da Prefeitura, o andamento do projeto”, garante.
* Colaborou André R. Herzer

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