Na primeira carreta, Djalmo Tavares levava, orgulhoso, a imagem de São Jorge durante todo o percurso

Procissão à Cavalo e a 10º Carreteada da localidade ocorreram neste final de semana em homenagem a São Jorge

Em Costa da Serra, o final de semana foi de homenagem a São Jorge e de cultivo às tradições. Ocorreu a 14ª Procissão à Cavalo e a 10º Carreteada da localidade. Tudo começou na sexta-feira (20), com uma missa crioula e uma reunião dançante. No sábado (21), ocorreu a carreteada na parte da manhã, com sorteio de prêmios. Ontem, para encerrar, aconteceu a tradicional procissão, uma missa, competição de tiro de laço e nova reunião dançante com a banda Alma do Pampa.

A carreteada reuniu 118 carretas de boi. Os participantes vieram de diversas localidades de Montenegro e, também, de municípios vizinhos. Ao todo, 13 cidades – como São Vendelino, Barão, Bom Princípio e Salvador do Sul – estiveram representadas. Alguns em família, alguns sozinhos, os carreteiros realizaram um percurso de cinco quilômetros, exibindo suas carretas e seus animais ao público que compareceu para prestigiar.

Rosa Edi Flores foi convidada pelo companheiro Marcos dos Santos a conhecer o desfile e gostou tanto que garante voltar em outros anos

Rosa Edi Flores estava encantada com o “desfile”. Aos 67 anos, a pensionista moradora do bairro Timbaúva, nunca tinha visto um evento do tipo. “Eu adorei. Já vim na sexta, participei da missa. Gostei muito”, relata. Ela conta que foi por incentivo do recente companheiro, Marcos Rafael dos Santos, morador de Costa da Serra, que compareceu à carreteada. Deve vir mais anos.

Das 118 carretas, a de Djalmo Tavares – aposentado, de 74 anos de idade – era a primeira da fila. Nesta edição, foi dele a honra de carregar a imagem de São Jorge em sua carreta. Para isso, levou junto os filhos e um neto mais novo, de apenas quatro anos e que, segundo ele, já é apaixonado por bois. Djalmo lembra que foi seu pai que lhe ensinou a lida no campo e o uso das carretas. Ele se alegra por ver o neto tão interessado pela prática.

Ricardo Maurício da Motta, organizador do evento

Para Ricardo Maurício da Motta, um dos idealizadores, é justamente este fomento das tradições antigas que é o objetivo do evento. “A gente gosta disso e quer manter vivo. Eu organizo na localidade de Catupy uma carreteada anual também. A ideia é passar para a juventude que está vindo essa tradição e estes valores. E estamos alcançando. A cada ano tem mais crianças”, revela. Ricardo participa desde a primeira carreteada, há 10 anos.

Presença da fé

Além das missas, no sábado e no domingo, o padre Asabido Ludwig ,da paróquia de Brochier, deu bênçãos aos participantes da carreteada e da cavalgada. Ele vê este momento como algo muito especial, pois todos expressam seus sentimentos, uns tirando o chapéu, outros ficando em pé ou estendendo as mãos para receber as graças. “É para o trabalho e para a família”, conta o padre. “Para os que vêm de longe, eu sempre digo para que levem adiante esta benção de saúde e de paz, coisas que tanto precisamos.”

Padre Asabido Ludwig deu sua benção a todos os participantes

Asabido fala que a relação com São Jorge – santo com imagem presente na carreteada e protagonista da procissão a cavalo – é muito forte na comunidade. “Ele é o guerreiro que vence o dragão. Eles pedem a São Jorge ajuda contra as dificuldades, para que sejam vitoriosos na vida”, explica. Como ele é representado sempre em cima de um cavalo, a tradição da cavalgada nasceu em sua homenagem e também em lembrança dos costumes gaúchos. “Por aqui, eles incrementaram com as carretas, que é uma prática da região”, acrescenta o religioso.

História se mantém viva em todas as idades e gêneros
A carreta de Genilda Rodrigues chamou a atenção de quem prestigiou a carreteada no sábado. A moradora de Serra Velha desfilou sozinha, aos 60 anos de idade, em uma carreta puxada por duas vacas. Por si só, sendo mulher em uma atividade fortemente atribuída aos homens, sua presença já é curiosa. Ela, no entanto, vê como algo normal. Conta que, desde pequena ajudava o pai na propriedade e aprendeu a lidar com a carreta. Faz isso até hoje, agora ajudando o marido.

Os pequenos Aleton e Andrei são prova de que a tradição seguirá viva

Ele também desfilou, em um segundo carro de bois da família. Sobre o uso das vacas, Genilda relata que é uma prática normal da propriedade em que vive. Além de usá-las para tirar leite, elas também são colocadas para puxar o veículo, auxiliando na rotina. “Pode colocar o mesmo peso que os bois puxam”, explica a agricultora, orgulhosa do desempenho de seus animais.

Aos 60 anos, Genilda desfilou em sua carreta puxada por duas vacas

Outra carreta que se destacou foi a dos primos Aleton Claus, de onze anos, e Andrei Reidel, de doze. Moradores de Maratá, ambos aprenderam com um tio a lidar com os bois e desfilaram sozinhos em uma carreta só deles. Orgulhosos, eles contam que, no dia-a-dia, em casa, ajudam os pais na lida do campo, utilizando os veículos. São a prova de que, por enquanto, a tradição seguirá viva.

Cavalgada e festa
No domingo, a procissão a cavalo reuniu mais 220 cavaleiros, que saíram do Passo da Serra até a Igreja Católica de Costa da Serra levando a imagem de São Jorge. Ricardo, um dos organizadores, se orgulha do evento, lembrando que o primeiro, há quatorze anos, havia reunido apenas seis participantes. Na parte da tarde, uma reunião dançante animou a comunidade. A festa foi até as 18h.

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