Promessas, benzas, passes, imposição de mãos, cirurgias espirituais. Por muitos anos a medicina tradicional rechaçou qualquer possibilidade de uma manifestação de fé ter o poder de curar, sob o argumento de inexistência da comprovação científica. Nada disso pôs fim às práticas e hoje a forma de encarar a religiosidade na cura apresenta muitas mudanças. Estudos já demonstraram o valor da fé para a saúde. Hoje, médicos confirmam haver muito a ser descoberto.

O Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (Gemca) é uma das muitas iniciativas que abordam esse tema. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a ter uma regional do Gemca, que hoje tem mais de 800 sócios pelo Brasil, sendo 144 no RS. Em encontros realizados por todo o país, os profissionais abordam o tema da espiritualidade e sua influência na saúde. Presidente do Gemca/RS e vice-presidente do Gemca/Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o cardiologista Mário Borba resume o tema como “o estudo de algo que sabe-se estar ali, que interfere de alguma forma, mesmo que ainda se ignore o todo” e defende que a aproximação da medicina com a fé é algo cíclico. “Se retrocedermos na história, veremos que a medicina tem seu início ligada à religião. Os médicos eram padres porque a medicina era ensinada em instituições religiosas”, lembra ele. Depois, no entanto, houve um afastamento. A doença chegou a ser tratada por alguns como um castigo divino. “O que é pura falta de esclarecimento”, resume Borba.

Mário Borba, Cardiologista e Presidente do Gemca/RS. Crédito: reprodução internet

Pelo mundo, estudos já começam a comprovar o que a crença popular sempre soube: a fé tem papel relevante na saúde humana. Mário Borba cita alguns deles, como o realizado pela Universidade de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, que acompanhou pacientes por anos e verificou que quanto maior o grau de religiosidade, menor eram os índices de doenças e suicídios. Outro estudo, também americano, publicado em 2017, tratou do assunto num público muito restrito. Os pesquisadores acompanharam mulheres negras norte-americanas que iam à igreja e verificaram a proteção contra várias doenças. Um dos resultados foi o registro de cinco vezes menos suicídios em quem frequenta a igreja. “Imagine a importância disso, considerando que vivemos uma epidemia mundial de suicídios. É mais otimismo em relação a vida. Isso significa um menor grau de doenças”, diz Mário Borba.

Já outra pesquisa, também realizada em Harvard, denominada Nurse health study, avaliou a importância de ir à igreja. Ela considerou o impacto em várias questões como suicídio, câncer, doenças cardíacos e circulatórias, entre outras. A conclusão foi um índice de mortalidade 35% inferior. Já o Estudo que avaliou otimismo, mas não diretamente frequência a Igreja, apontou 52% a menos na taxa de morte por doenças infecciosas.

A espiritualidade de cada um
É cada vez mais comum se ouvir “não tenho religião, mas tenho espiritualidade”. Pelo menos no que se refere à saúde, isso seria positivo. Estudo realizado pela Universidade da Califórnia, EUA, apontou que a espiritualidade interfere cinco vezes mais em relação a mortalidade que a religiosidade. A explicação para isso talvez esteja na ideia de fraternidade entre todas as crenças. O estudo não descartou, porém, a relevância de quem segue uma religião.

Questionado sobre qual a sua fé, Mário Borba se diz um “espiritualista convicto”, que respeita todas as crenças, mas não tem uma religião específica. “O Brasil é um país privilegiado por seu sincretismo religioso. Acredito que quando religiosos brigam entre si é porque ainda estão numa fase muito superficial. Os grandes líderes não falaram de religião específica. Porque a verdadeira religião é a que alcança a todos, prega a fraternidade e a caridade, sem separar as pessoas”, finaliza.

“Não receito, mas respeito”
Não há estudos que comprovem que um passe na umbanda, a benção de um padre ou a ida a uma benzedeira tenham curado alguém.

Apesar de já haverem pesquisas sobre algumas dessas práticas. Há, porém, um mundo a se descobrir e é indicado respeitar o desconhecido. Mas, se uma pessoa diz ter se curado de uma doença grave através de uma cirurgia espiritual, isso deve ser encarado como? Para o cardiologista Mário Borba, com a necessidade de confirmação, mas, não necessariamente com descrédito.

“Eu não receito, mas respeito. Não é porque algo ainda não foi estudado que deve ser rechaçado. O ‘achismo’ não é científico”, defende Mário Borba.



A fé que ajuda também pode prejudicar

Ainda há muitas barreiras que separam a fé e a medicina. Profissionais se revoltam, principalmente, quando determinadas crenças impedem um tratamento médico. A doação de órgãos e a transfusão de sangue, por exemplo, são “proibidas” por algumas religiões. E delas muitas vezes dependem a manutenção de vidas. “No consultório se recebe casos como ‘o pastor disse que eu estou curado então eu não vou mais me tratar’ e isso preocupa. A fé colabora, mas cada um tem que fazer a sua parte”, resume Mário Borba.

A fé pode ser positiva, negativa ou neutra na hora de enfrentar uma enfermidade. É positiva se o paciente utilizá-la para ter forças no tratamento e colaborar para cura. Negativa se encarar a doença como um castigo dos céus e não lutar pela cura sob argumentos religiosos. Já o neutro é controverso. Afinal, nesse caso, a fé é encarada como sem interferência. Assim, o paciente não se utiliza dela como auxílio para cura, o que também é um fator negativo.

Seria coincidência?
Três das cidades com maior longevidade no mundo têm populações muito vinculadas com religiões. Okinawa, no Japão, onde o budismo é muito praticado. Sardenha, na Itália, com o catolicismo. E a Califórnia, nos EUA, onde a religião adventista é muito forte.

No RS, uma cidade também tem atraído curiosidade nesse assunto. É Veranópolis, onde o catolicismo é a religião da maioria. São locais diferentes, com culturas bastante específicas, mas com a religiosidade em comum, mesmo que com crenças distintas. É claro que os hábitos de vida – exercício físico, alto consumo de alimentos naturais – também chamam a atenção nesses locais. Mas a religiosidade cumpre seu papel.

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Padre Claudio Finkler Crédito: arquivo pessoal

A opinião dos religiosos
“Os fiéis vem pedir por proteção e agradecer pela saúde. São bênçãos que vêm dos céus”, resume o padre Claudio, que revela ter ele também já contato com as orações da comunidade para se restabelecer de um problema de saúde. “O padre também tem suas dores”, brinca. Ele não tem dúvidas em afirmar os efeitos que a fé traz. “A fé pode sim curar. O amor de Deus pode curar. Quando se está doente e se tem o que amar, você se sente útil, age com positividade e encontra uma força incomum para se curar”, enfatiza.

Muitos recorrem à religião como salvação num momento de doença na saúde. O padre diz que oferecer conforto espiritual e esperança em dias melhores é o objetivo. “A gente espera ofertar bem-estar, apoio e muito carinho. Graça e fé reanimam”, diz ele. Durante a missa, o religioso lembrou o valor do cuidado entre as pessoas. “Quando alguém está com uma dor no braço e a vizinha vai lá e lhe coloca um pano molhado. A dor passa. O que é isso? É fé. É solidariedade entre as pessoas. É salvar uns aos outros, algo muito importante”, disse Claudio Finkler. Mas e os milagres? Eles surgem sempre que alguém abre seu coração para receber o outro.

Babalorixá, Hendrix de Orunmilá, matriz africana, umbanda e candomblé, fé, espiritualidade
Babalorixá, historiador e afroteólogo Baba Hendrix de Orunmilá Crédito: reprodução internet

O Babalorixá, historiador e afroteólogo Baba Hendrix de Orunmilá destaca que para as tradições de matriz africana a saúde faz parte do estado natural da existência humana. A ausência de saúde sempre é causada por uma entidade espiritual chamada “Arun”, um dos “Ajoguns”, seres espirituais que existem apenas para prejudicar os humanos. Os ajoguns podem ser afastados deixando as pessoas em seu estado natural novamente. “Para isso é feito primeiro o acolhimento da pessoa acometida por doença. Não se faz julgamentos morais do por que da pessoa estar doente. Também não nos interessa a fé que ela segue. Explicamos que a doença é um agente externo e que por isso pode ser removido”, diz Hendrix.

Com a invocação de Orixás que têm o poder sobre a doença e outros que podem potencializar os remédios, se auxilia na cura. “Note que nunca anulamos os tratamentos da medicina ocidental, pelo contrário, a potencializamos, para que seu resultado seja efetivo”, defende o babalorixá. Hendrix, que é autor da pesquisa “Tradições de matriz africana e saúde: o cuidar nos terreiros” lembra que para os seguidores das tradições de matriz africana, como o Batuque e o Candomblé, a vida é comunitária, de forma que se um indivíduo está doente, então a comunidade está doente, por isso há grande gama de métodos para se estabelecer a cura e trazer a comunidade à normalidade.

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Dério Milke, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
Crédito: arquivo pessoal

Representando a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, o pastor Dério Milke diz crer que a fé tem o poder de curar. “Nossa base é a bíblia. Se eu acredito em Jesus e os quatro evangelhos dão testemunhos de cura, como não crer? Mas é junto da medicina, em âmbitos diferentes”, diz Dério. Ele cita o “milagre de uma nova vida não apenas no entendimento físico, mas como uma evolução. “Quando um dependente químico encontra a palavra de Deus e larga o vício, ele foi agraciado com o milagre de uma nova vida”, exemplifica.

Na Luterana não são comuns atos como a imposição de mãos para envio de energias positivas, prática muito realizada nas igrejas evangélicas de linha pentecostal. “Para nós é mais a oração e a visitação. A acolhida de quem passa por uma enfermidade”, diz Dério. Mas essa busca por orientação e acolhimento não pode ser vista como uma barganha com Deus. A ida à igreja em troca da cura não pode ser oferecida. “Doença não é castigo nem a vontade de Deus. Não há pedágio para a cura. Deus é pai e pai não cobra por um abraço”, defende o pastor.

O religioso destaca o papel da religião em trazer conforto e não angústia a quem está doente. “Deus nos liberta para fazer escolhas. Muitas coisas estão sendo colocadas na conta de Deus”, diz Dério Milke. Fazer visitação num hospital aos doentes é algo importante. Mas não no sentido de ‘se você não ir na minha igreja eu não posso garantir a sua cura’ porque isso é tirar proveito do sofrimento alheio.

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Carlos Alexandre Schröder, presidente da Sociedade Espírita Missionários da Luz,

O presidente da Sociedade Espírita Missionários da Luz, Carlos Alexandre Schröder, lembra que, como doutrina Cristã, o espiritismo crê no que Deus disse: “Tua fé te curou”. Porém, não é a cura pela fé apenas por crer. “Tem de merecer”, explica Schröder. E não só num passe, imposição de mãos ou oração. A vontade de fazer o bem promove a cura.

“A doença ocorre de dentro para fora e a medicina espiritual trata dessa forma. Porque a saúde é a perfeita harmonia do corpo com a alma já que é o corpo que manifesta as dores do espírito”, define Carlos Alexandre Schröder. Ele cita o uso da água fluidificada e as cirurgias pelo espaço nas quais um médium incorporado pelo espírito de um médico realiza uma cirurgia espiritual, que ataca a causa de determinada doença. Nunca, porém, eles indicam o abandono da medicina tradicional. “Apenas agregamos. É a ciência da terra e a ciência do espiritual. Juntas”, resume Schröder.

O membro da religião espírita defende, ainda, que no momento de desencarnar do espírito, a morte, toda a reza e a fé não devem ser consideradas em vão. “Prece nunca é em vão. A doença filtrou o espírito, que seguirá evoluindo, agora no plano espiritual”, diz Schröder, destacando que aqueles que permanecem nesse plano devem manter a fé e enviar bons pensamentos ao espírito desencarnado para que esse consiga evoluir.

NO HOSPITAL Montenegro (ao lado) e no Unimed Vale do Caí (acima) capelas estão disponíveis e é permitida visitação religiosa. Os hospitais realizam celebrações nos espaços

A fé pelos hospitais
Quem já passou por internação médica sabe que é comum voluntários de diversas crenças irem até os leitos, rezarem pelos enfermos e oferecerem conforto. Essa prática, considerada importante para trazer apoio psicológico e esperança, é mantida nos dois hospitais de Montenegro, com as regras de cada instituição.

No Hospital Montenegro 100% SUS, segundo Eliane Maria Leser Daudt, presidente da Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (Oase), mantenedora da instituição de saúde, a entrada de religiosos é permitida, respeitando a crença e desejo do paciente. “A Oase mesmo visita muito. Isso faz diferença, leva conforto. Respeitando a fé de cada um”, diz Eliane. O toque não é permitido para evitar contaminação. A capela do hospital recebe uma vez por mês a realização de cultos ecumênicos.

Já de acordo com o administrador do Hospital Unimed Vale do Caí (HUVC), Robson Sodré Morales, é permitida a entrada de religiosos na casa de saúde para dar bênção aos pacientes internados. Em ocasiões especiais também são realizadas celebrações na capela do hospital para os pacientes e colaboradores que quiserem participar.

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