Corrupção. O país mais uma vez se afunda no lamaçal da roubalheira e a população se pergunta quais são as alternativas para acabar com desvios

Na noite da última quarta-feira o Brasil foi sacudido pela notícia de que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do frigorífico JBS, ofereceram depoimentos e gravações comprometendo políticos na Operação Lava Jato. Eles gravaram Michel Temer endossando a compra do silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, atualmente preso. Além disso, afirmaram que o senador Aécio Neves (PSDB) pediu R$ 2 milhões à JBS. Gravações comprovam a entrega do dinheiro.

Os desdobramentos se deram durante todo o dia de ontem. A Polícia Federal amanheceu em diversos endereços ligados a Aécio Neves. Andréa Neves, irmã do político, foi presa em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. Um primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, também foi preso. Ele teria sido filmado recebendo R$ 2 milhões a mando do empresário Joesley Batista. Ainda ocorreram buscas no apartamento de Altair Alves Pinto, homem de confiança do deputado Eduardo Cunha.
Já no início da tarde, o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), negou o pedido de prisão do senador Aécio Neves. Porém, o manteve afastado do mandato, além de apreender seu passaporte.

Ainda na noite de quarta-feira o Palácio do Planalto já sentia a turbulência das graves denúncias. A divulgação de uma nota oficial não teve – obviamente – força para segurar a pressão contra Temer. Na manhã de ontem, toda agenda do Chefe de Estado foi derrubada e ele se reuniu com ministros na tentativa de armar estratégias para segurar o governo. A renúncia e a possibilidade de impeachment passaram a ser cogitados. Ele, no entanto, negou a possibilidade de deixar o cargo, mas a pressão para a renúncia só faz crescer. Também já existem dois pedidos de Impeachment protocolados na Câmara.

Caso Michel Temer saia de cena, quem assume de maneira imediata é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com a tarefa de convocar eleições indiretas. Ou seja, deputados e senadores elegem o novo presidente. Outra possibilidade é que o Congresso aprove um projeto de emenda constitucional prevendo eleições diretas imediatamente. Porém isso dependeria de uma aprovação em dois turnos, por três quintos dos parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

A crise é tão profunda que ninguém sabe o que pode acontecer daqui para a frente. E agora, qual é a saída para o país?

Dario Afonso Colling, presidente do PMDB em Montenegro: “Não podemos nos apressar em julgamentos precipitados. Porém, havendo provas de tudo isso que surgiu no noticiário, precisa-se acabar com a impunidade, independente do partido, com a máxima urgência. Mudar todas as pessoas, numa eleição geral para presidente, vice, senador e deputados federais e estaduais. Porque, se com a saída do presidente Michel Temer assumir o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, já começa com novas desconfianças de corrupção. Tem de eleger pessoas com compromisso com o povo. Existem pessoas de bem na política. Mas esses, no cenário nacional, são postos de lado.”

Eduardo Ferreira, 20 anos, estudante de Filosofia: “Alguém que tem envolvimento em roubo tem que estar preso e não regendo um país. Todos os ministros envolvidos em desvios, um governo autoritário e sem consideração pela população, reformas impostas e injustas. Acho que não existe uma solução imediata pra nada, mas o governo é um reflexo da população. Para ter políticos honestos, temos que formar pessoas honestas. A educação é o elo mais fraco dessa corrente.”

Lucas da Silva Jantsch, 24 anos, agente de correios: “Não fiquei surpreso nem nada do tipo. Fiquei aliviado. Eu já suspeitava de tudo que vem aparecendo contra os líderes da direita. Finalmente isso aconteceu e espero que as investigações não parem. A solução é uma reforma política completa e eleições gerais diretas. Nosso país vem sendo governado por super empresários então a ilusão democrática do voto acabou. Reforma política é o único caminho saudável para o país.”

Augusto Luís dos Santos, 20 anos, desenvolvedor: “Eu já esperava que fosse estourar algo do tipo há algum tempo. É uma situação complicada e triste que estamos passando no cenário político do país. Não existe uma solução imediata, mas acredito que se os políticos se preocupassem em realmente investir em educação acima de tudo, investir no país, as coisas funcionariam melhor e as pessoas teriam condições de vida mais favorável.”

Waldir João Kleber, presidente da ACI: “Ninguém sabe onde isso vai parar e não se enxerga uma saída. Agora, que a economia dava sinais de recuperação, tudo pode ir por água abaixo. Podemos ter uma repetição da novela do impeachment, com o Brasil dividido entre direita e esquerda, se digladiando. É um paciente que retorna à UTI. Renunciar é algo que só Michel Temer pode decidir. E se ele sair ou for retirado, o caminho seria a eleição indireta. A pergunta é: o Congresso tem legitimidade para escolher o novo presidente? Legal, sim. Mas muitos lá estão envolvidos nas denúncias. O outro caminho, as eleições gerais, que é complicado. Tem que mudar a Constituição. E hoje não há maioria para nada no Congresso.”

Charlene Uez, 26 anos, oficineira de teatro: “Foi um susto muito bom. Precisamos das diretas já. Dilma nunca deveria ter saído, foi só ela virar as costas e fizeram o mesmo, porém amparados pela lei. ‘Votou na Dilma votou no Temer’? Nada disso! Votei em plano de governo, e ele fez totalmente o contrário do que a população escolheu. Agora é hora de tomar as ruas e mostrar a força popular, pensar que o próximo ou próxima faça uma reforma política que estabeleça uma Câmara de Deputados com direitos e deveres. O golpe de 64 foi escandaloso, doloroso. O atual também, porém temos a tecnologia a nosso favor, mesmo que ainda não para todo o brasileiro, mas temos. Agora precisamos verificar os fatos e invadir as ruas.”

Cristiano Bratz, vereador pelo PMDB: “O pior é pensar que o fundo do poço pode ainda não ter chegado. Novas delações virão e outras pessoas podem ser envolvidas. A política perde ainda mais sua credibilidade, que já estava em baixa. O que eu espero é que essas pessoas sejam punidas e tenham hombridade para sair. Comprovadas essas denúncias, Michel Temer deve renunciar e, segundo o que está na lei, eleições indiretas – através do Congresso – serem feitas. É importante que isso sirva de lição para as próximas eleições e que a renovação ocorra, assim como na Câmara de Vereadores de Montenegro, também em nível estadual e nacional. E que cada cidadão avalie bem em quem irá votar.”

Heitor José Müller, presidente da FIERGS: “Agora que a economia brasileira começa a dar sinais de recuperação, todos perderiam se a crise política viesse a agravar a crise econômica, que ainda está longe de ser superada. É necessário e urgente separar a nova crise política da economia. As questões políticas podem e devem ser resolvidas dentro dos seus limites. As Reformas têm que continuar. Elas não são do Governo, são necessárias e definidoras do futuro do País. Não podemos deixar que o seu andamento seja contaminado. Confiamos que os políticos, suas lideranças e todas as autoridades constituídas saberão separar as soluções para o País, cada qual no seu âmbito.”

Mercado cai
O pronunciamento em que Michel Temer disse que não vai deixar a Presidência foi mal visto pelo mercado financeiro. Turbulento desde a noite de quarta-feira, havia a expectativa de que a renúncia trouxesse estabilidade. O Ibovespa, principal indicador da bolsa, caiu 8,8%, Já o dólar teve a maior alta em mais de 14 anos, subiu 7,91% e alcançou R$ 3,3815 na venda.

A cura deve vir de dentro
Antes da invenção dos antibióticos e das pomadas milagrosas, quando as pessoas tinham uma ferida, sabiam que a cura podia demorar. Às vezes, o processo de combate à infecção levava meses e era doloroso. Primeiro, o local atingido ficava muito vermelho e inchava. Normalmente, formava-se uma bolha de pus logo abaixo da pele. Muitos aqueciam uma agulha na chama de uma vela e a furavam para que as impurezas saíssem mais rápido e a cicatrização iniciasse, de dentro para fora.

Lembrei disso quando soube das gravações que incriminam o presidente Michel Temer. Ele foi grampeado por um executivo da JBS concordando com o pagamento pelo silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Preso por envolvimento no assalto à Petrobras, feito por empreiteiras com a conivência e a participação de políticos de todas as legendas, Cunha sabe demais. De certo, tanto que vale a pena tapar-lhe a boca com dólares sujos para que outras figuras da República não lhe façam companhia atrás das grades. Temer, inclusive.

Não há dúvidas de que isso caracteriza crime de responsabilidade e, como tal, deve ser motivo de um processo de Impeachment. Será o segundo em pouco mais de um ano. E é aí que reside um novo problema: quem vai assumir? Ou melhor, nesse mar de lama, existe algum marinheiro que ainda não tenha sujado a farda e possua experiência para assumir o leme?

No Brasil, a corrupção nivelou os políticos. Ainda que preguem ideologias distintas, praticamente todos se igualam no ataque aos cofres públicos. Governistas e oposição avançam sobre o dinheiro do povo com o mesmo apetite. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia; e o do Senado, Eunício Oliveira, estão no mesmo pau de galinheiro que Temer. E Aécio Neves, que poderia ser uma alternativa, divide o poleiro com eles. Não são galinhas, que produzem ovos e alimentam a nação. São, na verdade, abutres que vivem do lixo moral em que transformaram o país.

A Constituição determina que se Temer tiver a hombridade de renunciar (duvido que tenha), ou for cassado, assume o presidente da Câmara e convoca eleições indiretas. Ou seja, o Congresso, esse imenso lixão a céu aberto, escolherá, entre seus ratos e baratas, aquele que comandará a quadrilha, digo, o país, até outubro de 2018, quando finalmente teremos a oportunidade de dar a descarga. Não pode ser assim, não dá para esperar.

A segunda alternativa é fazer uma mudança na Constituição, permitindo a realização de eleições diretas imediatamente, para o Executivo e o parlamento. Para isso, é necessário o aval da maioria dos congressistas e duas votações na Câmara e mais duas no Senado. Só acontecerá se a sociedade for para as ruas e colocá-los contra a parede. Difícil, mas não impossível.

Muitos estão pessimistas e acham que o país não tem mais jeito. Sonham com um golpe de Estado, em que as Forças Armadas removam as úlceras com baionetas. Nada disso. A cura da enorme ferida que se instalou sob a pele da nossa democracia exige calma e persistência. O Impeachment de Temer será a agulha com a qual vamos acelerar o processo. Mas que ninguém se engane: os agentes infecciosos estão por toda parte, em cada pessoa que não se importa em lograr, em tirar vantagens e em receber o que não lhe cabe. Quando o povo for mais honesto e responsável, os políticos também serão e o Brasil se tornará um país muito mais saudável para todos.
Márcio Reinheimer
Editor de Política

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