A estátua de São João Batista recebeu nova pintura e reparos em partes danificadas no começo deste mês. Foto:Lisa Borchardt

Gratidão e fé. A maioria não sabe, mas a imagem foi construída com doações da comunidade na década de 1990

A revitalização da imagem de São João Batista é motivo de alegria para quem acompanhou de perto sua instalação no morro que virou cartão postal de Montenegro. Há poucos dias, um grupo de artistas da cidade se reuniu para realizar reparos e pintar a estátua do padroeiro do município. Familiares de Ivan Jacob Zimmer, o prefeito que sonhava em ter uma imagem do santo zelando pela cidade, e funcionários da Prefeitura que acompanharam todo o processo relembram detalhes do desejo de um político devoto que se tornou realidade.

A história de vida de Ivan teve uma ligação especial com São João Batista. O ex-prefeito de Montenegro nasceu no dia 23 de junho, véspera das comemorações ao santo. A viúva Maria Helena Zimmer lembra que ter uma estátua de São João Batista “olhando” pela população sempre esteve nos planos do marido. Graças a sua persistência e ao apoio de diversas pessoas que colaboraram com projeto durante seu segundo mandato (1993 a 1996), o gestor alcançou seu objetivo. Ivan faleceu em setembro de 2009, mas antes deixou um pedido muito especial para sua família. Ele quis ser cremado e ter suas cinzas jogadas sobre o Morro São João. E assim foi feito. Em janeiro de 2010, Maria Helena atendeu a vontade do companheiro.

Vale lembrar como tudo começou. Ivan foi prefeito por três mandatos, mas não usou dinheiro público para a obra do santo. A professora Susane Ferreira, na época servidora pública, e o marido dela, Léo de Oliveira Barreto, então secretário de Viação e Serviços Urbanos, acompanharam de perto o desenrolar dessa história.

Até a doação de valores simbólicos era motivo de alegria
Para Susane e Léo, o então prefeito realizou um “trabalho de formiguinha”, visando concretizar seu projeto. Isso porque ele saiu pela cidade pedindo doações e comemorando a cada R$ 1,00 recebido. “Sua popularidade foi capaz de reunir pessoas, simples ou não, para arrecadar fundos para a execução da estátua”, lembra Susane. “O homem conseguiu arrecadar o recurso pretendido. Empresas solidárias à causa somaram esforços para atender ao objetivo”, recorda.

A estátua de São João Batista foi construída pelo artista Vanderlei Rodolfi

Todas as contribuições foram registradas em uma caderneta, que acabou se perdendo após a conclusão do trabalho, comenta Maria Helena. Nas anotações, havia o nome de quem ajudou e o valor obtido. Concluída a etapa das arrecadações, partiu-se para a segunda fase. Ivan almejava a construção de uma estátua de grande porte, mas o valor angariado não tornou isso possível. A esposa tentava consolá-lo. “Eu dizia pra ele que a fé não tem tamanho”, relembra Maria Helena.

Conformado, o ex-prefeito deu início às formalidades e foi em busca do artista para esculpir a imagem do santo. Segundo Léo, o responsável por esse trabalho foi Vanderlei Rodolfi, já falecido. “Nada parecia fácil, e não foi”, comenta a professora Susane. A burocracia e as críticas de algumas pessoas pesavam de forma contrária ao objetivo, mas o fato de se tratar do padroeiro da cidade falou mais alto, o que motivou boa parte da população a manifestar apoio ao então prefeito, que, com fé e determinação, realizou seu sonho.

A família agradece

Maria Helena e Luísa Zimmer na inauguração da estátua de São João Batista. Foto:Ivan Jacob Zimmer

A viúva do ex-prefeito e a neta Luísa Zimmer Ritter souberam da recuperação da estátua através da reportagem do Jornal Ibiá. A feição entristecida de Maria Helena ao falar sobre as condições de abandono da imagem cedeu espaço a um largo sorriso ao receber a notícia de que ela recebeu uma atenção especial. “É uma alegria imensa para o coração da gente. A gente tem muita fé no São João”, enfatiza Maria Helena.

Luísa destaca a importância histórica do Morro São João e seus elementos antropológicos. Ela lembra da época em que ir ao morro com as turmas da escola era algo comum e motivo de alegria para os estudantes. A jovem lamenta a falta de manutenção da área, mas comemora o fato da estátua ter sido contemplada com benfeitorias. “A cidade não dá mais valor para o lugar, mas os jovens ainda vão lá. É bom saber que foi restaurado”, conclui.

“Obra finalizada. E agora?”
A pergunta é do ex-secretário de Viação e Serviços Urbano, Leo Barreto, e é ele mesmo quem responde. Reconstruir a estrada Cláudio Kranz, principal acesso ao morro, foi a primeira medida tomada com o objetivo de estruturar o local para receber São João.

Depois de tudo pronto, foi preciso mover esforços para deslocar a imagem de onde foi construída, na residência do artista, próximo à empresa Tanac, até o local definitivo. “Uma retroescavadeira fez a colocação da estátua no caminhão que a levou até o início da estrada. De lá, ela foi conduzida por uma carregadeira, amparada pela retroescavadeira, até o topo do Morro”, detalha Leo. Ele ainda lembra das pessoas que colaboraram com toda a operação. Entre elas, Adair Candido da Silva, mais conhecido como Cacaio, já falecido, e Valmir de Matos.

Gilberto Nunes foi um dos funcionários que ajudou a levar a estátua até o Morro

Quem também lembra de como tudo ocorreu é o funcionário público aposentado Gilberto Nunes. “Ele reuniu o pessoal do setor de asfalto e os roçadores e pediu ajuda pra colocar o santo lá no Morro”, recorda. Conforme Gilberto, o dia era de chuva e vento forte, mas nada intimidou os trabalhadores de concluir a tarefa. “Quando paramos de colocar o santo, o prefeito veio com um saco cheio de pasteis, sanduíches, sonhos e refri. Todo mundo comeu olhando para o santo”, revela. “Aquilo também tem parte de mim. São poucos os que ajudaram a colocar o santo lá e estão vivos. Ver que arrumaram ele é motivo de alegria”, festeja.

Léo também expressa sua satisfação em relação à recuperação da imagem. “A recuperação da estátua é um reconhecimento de dirigentes e da comunidade a um símbolo importante na história de Montenegro”, argumenta. “Certamente, o ex-prefeito Ivan tinha muita devoção pelo santo padroeiro. Sempre, de qualquer ponto que ele estava, olhava para o Morro e se referia ao santo como Joãozinho”, comenta.

Deixe seu comentário