Grupo reúne-se semanalmente na UBS Centro. Em roda, trocam experiências e informações

Grupos de tabagismo oferecem informações, auxílio médico e uma importante rede de apoio no combate ao vício

Largar o cigarro não é fácil. Mesmo com todas as orientações disponíveis e os estudos que comprovam os diversos malefícios do item, deixar o vício demanda um grande esforço e uma mudança de hábitos quase radical. Diante disso, foram criados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) os grupos de tabagismo – serviço ainda pouco conhecido pelo público, mas que, para muitos, já fez a diferença na busca pelo parar de fumar.
Em Montenegro, o grupo funciona na Unidade Básica de Saúde (UBS) Centro. No prédio recém inaugurado da Ramiro Barcelos, os participantes se encontram nas manhãs de segunda-feira para momentos instrutivos e, principalmente, de troca de experiências. O apoio neste processo, afinal, é essencial. Não há nenhum custo.

A frase “eu também já passei por isso” é uma das mais ouvidas nos encontros. Além das orientações, as atividades são guiadas em uma conversa entre os participantes, que aborda, dentre outros pontos, os “gatilhos” que atraem ao cigarro, os sintomas de quem tenta parar, as crises de ansiedade e até os problemas pessoais de quem precisa desabafar e já não quer recorrer à nicotina para acalmar os nervos. Muito fortemente, um apoia o outro por uma vida livre da droga.

O grupo de tabagismo conta com a condução de três profissionais: a dentista Cristina Helena Vaccari Lopes, a enfermeira Mariana Luft de Vargas e o médico Mário do Canto Filho. Quem busca pelo serviço na UBS entra em uma fila de espera, onde passa por uma entrevista que analisa as suas condições de saúde. Um grupo, então, é formado com dez pessoas.

Seguem-se quatro encontros obrigatórios – entre as 8h30 e as 9h30 das segundas – onde são dadas as informações, feitas as conversas entre os participantes e analisadas as situações, caso a caso. Com a avaliação médica, são prescritos adesivos de nicotina com diferentes dosagens; ou medicamentos que inibem a vontade de fumar e reduzem a ansiedade. Dependendo da situação, há encaminhamentos para outros profissionais da rede de saúde, como psicólogos.

O atendimento segue, a partir dali, nos chamados “grupos de manutenção”. Também nas segundas, a partir das 10h, eles são de livre participação para quem queira seguir participando e recebendo o atendimento médico, mesmo já tendo conseguido largar o cigarro. Nestes, as atividades são iniciadas pela pergunta – feita um a um – que questiona se o participante tem fumado ou não. Os “nãos” são replicados por uma salva de palmas.

Seu Luiz, um exemplo a ser seguido

“Me considero em família com esses daqui do grupo”, declara Luiz. Ele fumou por mais de 70 anos e largou o cigarro com a ajuda do atendimento

Orientando o grupo desde a sua reativação em 2016 – há uns anos atrás, outro projeto do tipo funcionava na cidade – Cristina Helena conta que o perfil comum dos participantes é de um adulto, com idade acima de 40 anos. A maioria começou a fumar cedo, na adolescência ou na infância, por incentivo até dos próprios pais. “Era outra realidade”, avalia. Grande parte dos participantes procura o serviço preocupado com a saúde e incentivo por filhos e netos.

O aposentado Luiz Antônio de Souza, de 83 anos, por exemplo, parou de fumar com a ajuda do grupo há um ano. Ele fumava desde os doze e, já adulto, chegou a consumir quatro carteiras de cigarro por dia. Apesar do alerta dos médicos, pensava consigo mesmo: “fumando ou não, eu vou morrer. Então vou continuar”. Após problemas no coração, complicações nos pulmões, quatro pontadas de pneumonia e um mês no hospital, no entanto, essa percepção mudou. Foi internado, inclusive, que ele descobriu a existência do grupo montenegrino.

Após ganhar alta – e enquanto fumava seu primeiro cigarro na volta para casa -, Luiz conta que pediu que a filha providenciasse sua inscrição no serviço. A equipe da UBS ainda lembra de sua chegada. “Ele era cinza, da cor do reboco da parede”, brinca Cristina. Com muita determinação, logo após o primeiro encontro, o participante já havia reduzido o consumo para dois cigarros por dia. “Ficaram muito faceiros quando eu contei e aquilo me deu uma tranquilidade por dentro”, lembra.

Com aquilo em mente, na ida para casa, o aposentado passou no mercado. Pediu para a atendente lhe vender a pior marca que ela tinha. “Falei ‘vou tomar um porre de cigarro e aí eu vou parar de vez’”, recorda. Luiz fumou quatro daqueles e não conseguiu mais. Queimou todo o estoque que tinha em casa e ali parou.

Hoje, ainda usa esporadicamente os adesivos de nicotina, mas nunca mais colocou um cigarro na boca. De vez em quando, ele revela, chega a sonhar com o cigarro. O aposentado participa religiosamente de todos os grupos de manutenção e sempre que vê alguém fumando já procura aconselhar. “Eu tenho condição de dar o meu exemplo para quem tem a mente leviana”, declara. “Me considero em família com esses daqui do grupo.”

Dependência psicológica é uma dificuldade
A dificuldade em largar o vício é reconhecida em cada passo dos encontros. Mesmo nos grupos de manutenção, alguns participantes seguem fumando, mas trabalham na diminuição com as conversas e o atendimento recebido.

“Não é fácil. Além da dependência química, é muito forte a dependência psicológica. O cigarro vira quase um amigo”, aponta Cristina Helena Vaccari Lopes, uma das condutoras do grupo.

A profissional destaca que, embora o sucesso não seja atingido em todos os casos, o apoio fomentado nos participantes faz a diferença. Aliado à medicação, ainda, há orientações para que o indivíduo lide com a abstinência, com diferentes exercícios e sugestões de uma necessária mudança de hábitos.

Outro cuidado proposto para quem deseja parar, é para que o fumante não substitua o vício do cigarro por outro vício, como excessos na alimentação, por exemplo.

Montenegrina no aguardo do atendimento
Moradora do bairro Senai, Roseli Rodrigues da Rosa, de 47 anos, está na lista de espera para sua participação no grupo. Ela confirma o perfil indicado pelas orientadoras do serviço.

Roseli começou a fumar ainda adolescente. “Eu iniciei na brincadeira, para fazer um grauzinho. Pior que até agora eu não consigo parar de vez com a brincadeira”, conta.

Sozinha, Roseli chegou a conseguir largar o cigarro por seis meses. Companheira no combate à ansiedade, a droga acabou sendo substituída pela comida. “Acabei ficando com 80 quilos. Aí voltei”, lembra, destacando a necessidade de uma rede de auxílio.

Desempregada, a fumante acaba gastando mais de R$ 200 por mês com o cigarro e, além disso, é fortemente orientada pelos médicos para que largue o vício. Hoje, ela segue ansiosa para receber o atendimento. “Já vi que sozinha eu não consigo parar”, reflete.

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