Desde 2011 o RS não apresentava casos de sarampo. Em 2018 já foram sete registros. Foto: reprodução internet

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) brasileiro é considerado uma referência em política pública de saúde. Representa a prevenção contra doenças, economizando sofrimento a crianças e suas famílias, além de recursos em tratamento de enfermidades. Porém, a cobertura vacinal contra as mais variadas doenças vem caindo nos últimos anos. Exemplo disso aparece em dados divulgados pela Secretaria Estadual da Saúde do RS. A vacina tríplice viral – que protege contra o sarampo, caxumba e rubéola – teve cobertura de 90,5% da primeira dose (aos 12 meses de idade) em 2016. O percentual cai para 78% em 2017. Já a segunda dose – dada com a tetraviral (que protege também contra a varicela) aos 15 meses de idade – registrou cobertura de 87% em 2016 e 58,7% ano passado.

O resultado disso é que doenças já consideradas erradicadas – como é o caso de sarampo – fazem vítimas novamente. Só o RS já registrou em 2018 pelo menos sete casos de sarampo, sendo que os últimos registros no Estado eram de 2011. No país, já são 677 casos de sarampo em 2018, segundo o balanço mais recende do Ministério da Saúde. O Secretário Estadual de Saúde Francisco Paz salientou o risco que o declínio que as coberturas vacinais vêm apresentando no país e Estado nos últimos anos traz a todos. “Esse movimento de afastamento e desinteresse tem como fatores a não ocorrência recente de algumas doenças no Brasil assim como notícias falsas e campanhas mal informadas”, afirmou. “Mas, como ainda são doenças que circulam em outros países, essa baixa cobertura das vacinas nos deixam suscetíveis a reentrada desses vírus”, completou.

De acordo com a enfermeira Nicole Ternes, responsável pelo setor de vacinações de Montenegro, a queda vacinal que vem ocorrendo anualmente em todo o território nacional atinge Montenegro. Ela apresenta dados comparativos entre os anos de 2016 e 2017, no município, que demonstram essa queda. A imunização contra poliolielite, em Montenegro, em 2016 passou dos 100% enquanto em 2017 alcançou menos de 91%. Já a imunização contra rotavírus em 2016 alcançou cerca de 97% e, em 2017, aproximadamente 75%. “É possível notar a queda dos números de um ano para o outro e a tendência é que 2018 dê continuidade a essa perspectiva”, destaca Nicole. Confira tabela com os dados completos abaixo.

Falta de vacinas também colabora para o problema
Vários fatores colaboram para que a aplicação de vacinas esteja em queda, do comportamento errado dos pais, até o surgimento de grupos “antivacina”. Mas também existe falta de doses. Nicole Ternes explica que o município não faz compra de vacinas, dependendo do envio delas por parte do Ministério da Saúde. Elas vêm da Rede de Frio, em Porto Alegre, onde ficam armazenadas até serem encaminhadas aos municípios do Estado, abastecida pelo PNI.

Quando há algum problema a nível laboratorial, alfandegário ou algum outro motivo, ocorre o desabastecimento a nível nacional e, com isso, em efeito cascata, os municípios acabam ficando sem as vacinas ou recebendo um quantitativo menor que o necessário. “Com a falta dos imunobiológicos, diminui a cobertura”, reconhece Nicole Ternes. “Por exemplo, no primeiro ano da criança, as visitas em sala de vacina são bem frequentes, sendo mensalmente no primeiro semestre. No segundo ano de vida, essas visitas ficam mais espaçadas e perdemos a oportunidade de imunizar uma criança que procurou a sala de vacina com imunobiológico em falta, corre-se o risco dela não retornar. Problema sério que ocorre em momentos de desabastecimento”, diz a responsável pela setor de vacinação.

Vacinas são seguras
O médico infectologista Paulo Ernesto Gewehr Filho, coordenador do Núcleo de Vacinas do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, assegura a confiabilidade das vacinas utilizadas no Brasil. Reações à imunização, como dor local, inchaço ou vermelhidão são considerados normais. Nada, porém, que possa comprometer os benefícios que ela traz. Circulam informações mentirosas de que as imunizações teriam ligação com os casos de autismo.

Paulo Ernesto explica a origem desse mito mundial que muito prejudica as imunizações. “Isso vem de uma pesquisa, já antiga, feita por um médico britânico, que apontava ligação da imunização com o autismo. Porém, já foi desmentida. Esse médico fui investigado e condenado. Ele teve ganhos para fazer uma pesquisa tendenciosa e acabou sendo caçado. É uma farsa, já desmentida, mas que causou grande dano”, relata Paulo Ernesto Gewehr Filho.

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