Tendo cumprido sua pena, André deve voltar a Esteio. Ele se orgulha de tudo ter começado na Cidade das Artes

Natural de Esteio, André Fagundes explica método desenvolvido ao longo de dois anos em solo montenegrino

Os desenhos, compostos por diversas linhas e pontos que vêm e vão, mexem com quem observa. Ali, nas obras do esteiense André Lobato Fagundes se revelam diversas formas. São olhos, torres, figuras humanas e de animais, que variam aos olhos de quem vê. Mesmo largados aleatoriamente sobre uma mesa, os traços parecem se complementar, fluindo de um desenho para o outro. Apesar de belos, a técnica usada quase chama mais atenção do que os trabalhos em si. Ela é o que André chama de “Desenhos Astrais”.

O artista acredita que uma energia é canalizada na caneta ou no lápis utilizado, produzindo os desenhos. “No primeiro dia, eu botei a caneta e não aconteceu nenhum traço. Ela estava só alcançando o posicionamento. Normalmente as pessoas esperam que, neste tipo de situação, a caneta me conduziria por toda uma linha de traço. Não. Eu percebi que, saindo de um ponto, eu preciso voltar ao ponto de origem, adivinhando até onde ela quer chegar”, explica. “Acho que isso vêm da energia que nos move.”

André começou a ter essa relação com a prática há cerca de dois anos e, percebendo os resultados alcançados, foi fazendo experimentações e testes com diferentes materiais para ver até onde os desenhos o levavam. “Isso me traz uma alegria e parece que harmoniza tudo. Dependendo, eu levo 120 horas para concluir um destes. Ele acaba te absorvendo”, conta. Para ele, fazer o desenho é como uma visita a outros tempos. Tendo estudado a Psicologia e o Espiritismo, ele explica, porém, que não se trata de uma psicografia.

E não é fácil concluir o trabalho. “Tô com bursite aqui, de estar seis horas seguidas fazendo um desenho, mas eu adoro”, afirma André. “E é algo infinito. Se eu continuar, ele vai construindo texturas e criando, em cima, outros desenhos. Quando já está complexo e cheio de significados, eu decido parar e não me arriscar mais.” Ele ressalta que o desenho é canalizado do subconsciente e que é nesse processo que ele recebe a sua simbologia. André se concentra apenas para não interferir neste processo, deixando o trabalho como algo puro. Cada pessoa que vê, compreende a obra de um jeito.

Em uma das obras favoritas de André, cada junção de traços forma um símbolo diferente

“A arte salvou minha vida”, afirma André
André mora em Montenegro desde o ano passado. Ele está no regime semi-aberto e passa as noites no Instituto Penal, onde se dedica à sua arte. De dia, ele trabalha como voluntário no Parque Centenário, no apoio das atividades da Guarda Municipal. Ali, absorve muitas das energias que se materializam nos traços.

Quando diz que a arte salvou sua vida, o artista se refere ao que o levou para sua atual situação. Adotado, quando jovem, ele sempre foi muito dedicado aos estudos. Tem sete cursos técnicos e formação em Publicidade e Propaganda. Ele relata que a família era dona de um bar, em Esteio, e que o pai era alcoólatra. “Ali, no meio das bebidas, aquilo nunca se deu como um problema”, recorda.

O comércio familiar acabou falindo e as coisas desandaram. O pai, André conta, sempre foi uma pessoa fechada, nunca esteve em nenhuma das formaturas do filho e, com o fechamento do negócio, teve o problema com o alcoolismo agravado. Violento, muita de sua raiva era descontada constantemente como agressão ao filho. “Um dia ele bebeu, quis brigar e eu resisti. Nisso ele veio a falecer”, conta.

André foi condenado por homicídio em 2010 e encaminhado à Penitenciária Estadual do Jacuí. “Eu não conseguia nem falar sobre o que tinha acontecido. Por mais que eu soubesse que precisava revidar naquele momento, a gente sempre fica com essa culpa. Lá dentro, eu comecei a estudar Psicologia e Espiritismo para tentar conseguir algum conforto. Chegava a ler três ou quatro livros em uma semana”, relata. “Nunca imaginei que ia dar nisso, com os desenhos. A arte salvou a minha vida e ainda está salvando”, declara.

Fora da realidade da Penitenciária, o artista se alegra em saber que conseguiu sair de lá a mesma pessoa. No Instituto, em Montenegro, ele conta que foi bem recebido e encontrou pessoas que pode chamar de amigos. Neste ano, reabilitado, ele já poderá voltar para sua terra, usando tornozeleira eletrônica. “Esse trabalho dos desenhos ainda vai longe por lá. Mas vai ficar marcado por ter nascido na Cidade das Artes.”

Conhecimento compartilhado nas redes

produção de algumas obras chega a levar um total de 120 horas

André criou uma página no Facebook – a “Desenhos Astrais” – para difundir seu trabalho e a técnica que desenvolveu. Frequentemente, ele posta vídeos com tutoriais e, pessoalmente, já transmitiu seus conhecimentos para muitas pessoas. “Acho que é uma prática comum a todos e é uma coisa natural. Isso não é um poder, é um exercício”, comenta. Ele diz que já entrou em contato com um bacharel em artes, questionando sobre os “Desenhos Astrais”, mas ele não conhecia nada parecido.

Para o artista, a inspiração de qualquer tipo de arte segue o mesmo fenômeno, mas em doses homeopáticas. Muitos, por aqui, já se interessaram pela arte e começaram a fazer obras próprias com a técnica desenvolvida. O esteiense também está elaborando um manual, buscando compilar como se deu todo este processo de desenvolvimento. “Vejo isso como um acúmulo de informações que eu busquei no etéreo”, avalia. Não há nenhum intuito comercial.

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