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Nas últimas semanas os agrotóxicos, seu uso exagerado e as consequências à saúde de quem consome esses alimentos ganhou maior destaque entre os brasileiros devido a mudanças propostas em um projeto de lei. Na segunda-feira, 25, sob muita reclamação popular, a Comissão Especial da Câmara aprovou relatório do deputado Luiz Nishimori (PR-PR), defendido pela bancada ruralista, que facilita o registro dos agrotóxicos no País. Para entrar em vigor, as mudanças ainda passarão por votação em plenário e sanção presidencial. O fato, porém, é que o país está próximo de mudar algo que afeta a saúde de todos os brasileiros, os que plantam e os que comem alimentos produzidos com cada vez mais agrotóxico.

Este termo “agrotóxico”, aliás, pode desaparecer. O projeto de lei troca a palavra por “pesticida”. Atualmente, os agrotóxicos precisam ter uma avaliação toxicológica feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), uma avaliação ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e uma avaliação agronômica feita pelo Ministério da Agricultura. Com a mudança, caberá apenas ao Ministério da Agricultura a aprovação ou não de novos produtos.

Isso significa que substâncias hoje proibidas – algumas por serem reconhecidamente cancerígenas – poderiam ser analisadas sob um novo grau de “tolerância”. Vale lembrar que o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo, e, por aqui, são permitidas mais de 10 substâncias proibidas em outros países por questões de saúde.

Os produtores alegam que o trâmite para liberação de um novo produto no Brasil é lento. Isso impacta, é claro, na produtividade e na competição com vendas de outros países. Afeta, ainda, as vendas internas, considerando que muitas pessoas não compram frutas, legumes e vegetais com qualquer falha na aparência. Essa aparente “perfeição” nos alimentos é obtida, em parte, com os pesticidas. Mas a qual custo à saúde? Enquanto as discussões ocorriam, na bancada, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), contrária à proposta, questionou “O que é aceitável? Um tumorzinho, uma malformaçãozinha?”.

Carlos Eugênio Escovar, diretor médico do Hospital Santa Rita, da Santa Casa de Porto Alegre. Foto: reprodução internet

Na fuga ao consumo de alimentos com agrotóxicos, estão consumidores que procuram pela produção orgânica, mesmo que essa ainda seja um pouco mais cara. O setor de orgânicos já movimenta no Brasil mais de R$ 3 bilhões ao ano e cresce cerca de 20%, segundo dados do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. Mas até que ponto a presença dos agrotóxicos é responsável pelo aumento nos casos de câncer em agricultores e no consumidor em geral? Para tentar esclarecer essa questão, entrevistamos o médico Oncologista Carlos Eugênio Escovar, diretor médico do Hospital Santa Rita, do Complexo da Santa casa de Porto Alegre, unidade especializada em casos de câncer.

Entrevista com Carlos Eugênio Escovar, diretor do Hospital Santa Rita
Jornal Ibiá: A utilização de agrotóxicos nas lavouras tem levantado questionamentos sobre a possibilidade de relação com aumento de casos de câncer em agricultores. Isso é comprovado ou percebido pelos médicos?
Carlos Escovar: É difícil poder afirmar isso. Ou até avaliar a quantidade de casos que podem ou não ter essa relação. Até pelo público que chega na Santa Casa de Porto Alegre. Por vezes, esse agricultor que teve desenvolvido o câncer, não vem para tratamento aqui. Porém, mesmo sem essa confirmação por dados, é evidente a associação com uma série de neoplasias (doenças em que as células anormais se dividem incontrolavelmente e destroem o tecido do corpo). Podemos citar como exemplo a leucemia, tumores de pele ou de pulmão.

JI: Essa associação pode ser feita pelo produto e também pela forma de uso?
CE: Cada caso tem suas razões específicas, mas, pode sim ser feita uma associação, por exemplo, com o uso ou não de equipamento de proteção individual.

JI: Recentemente foi divulgado um levantamento de municípios em que o câncer já é a primeira causa morte. O RS é apontado como estado com maior número de municípios (140) nessa situação. Só aqui no Vale do Caí são seis cidades. Isso pode ter relação com os agrotóxicos ou temos outras explicações para a elevação nas ocorrências de câncer?
CE: Essa questão vem sendo muito estudada, sobre o país e, também, o Rio Grande do Sul. O crescimento nos casos pode ter relação com inúmeras coisas. Pode-se questionar a possibilidade do agrotóxico. Porém, também tem que se considerar a taxa de longevidade. Se vivemos mais, é maior a possibilidade de doenças que se manifestam em número superior em idosos cresçam em ocorrência. O segundo ponto é a mudança nos hábitos das pessoas. A má alimentação e o sedentarismo crescem e isso se reflete em doenças. Existe ainda uma terceira questão, a ascendência alemã e italiana. Pode condicionar a casos de câncer de mama, por exemplo. Outra questão é: será que o RS tem mais casos ou faz mais diagnósticos? Há a possibilidade da rede de atendimento funcionar melhor e termos no Sul do país mais registro de casos, não necessariamente uma maior ocorrência.

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JI: No caso do câncer de pele, há um número maior de ocorrência em trabalhadores do campo, explicado pelas condições da profissão?
CE: Sim, há a questão de trabalhar sob o sol, muitas horas ao dia. E começar essa exposição ainda muito jovem. Por isso é importante a orientação para uso do protetor solar. Tem de se aprender a não se expor tanto aos riscos.

JI: E no que se refere ao consumidor? O senhor considera possível que o agrotóxico presente nos alimentos cause câncer em quem os consome?
CE: Considero pouco provável. Isso na população em geral. Tem que se questionar, também, se o alimento foi higienizado corretamente antes do consumo, e se está cru ou não.

JI: O senhor considera satisfatório o acesso ao tratamento na rede pública para os casos de câncer? Hoje, um agricultor, que mora no interior do estado, consegue atendimento na sua região ou tem de ir para Porto Alegre, num centro como a Santa Casa?
CE: Hoje a grande maioria das cidades ou regiões tem o atendimento para oferecer. Não é preciso que pacientes do interior venham para a Santa Casa ou outro hospital da Capital. É possível fazer quimioterapia e radioterapia sem grandes deslocamentos. O que existe é muita perda de tempo entre a primeira procura por atendimento, a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento. Até esse trajeto se cumprir é perdido um tempo valioso.

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