É A FACULDADE que leva muitos jovens a abrir mão do conforto da vida em família. Foi o caso de Susana Toledo, que divide a casa com um amigo

Independência. Deixar a casa dos pais pode trazer muitos ensinamentos e responsabilidade

Quem mora com os pais sabe que tem alguns mimos. Mesmo que cumpra responsabilidades domésticas, não ser o “dono” ou a “dona” do lar significa poder dividir algumas responsabilidades. Contas a pagar, louças na pia, roupas no varal. Coisas simples, mas que roubam tempo e demandam organização que, ma maioria das vezes, exige treino de quem resolve viver longe dos pais. Talvez isso explique porque, cada vez mais, os jovens brasileiros estejam adiando a saída do lar.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro brasileiros na faixa dos 25 aos 34 anos ainda vive na casa dos pais, mesmo tendo renda própria. Essa proporção vem aumentando. São muitas as explicações e elas passam pela dificuldade em manter o padrão de vida sem a renda dos genitores, além de, em casa, poder dedicar-se mais à carreira e aos estudos. Quem sabe, só se mudar depois do mestrado ou da segunda graduação, por exemplo. Há, ainda, uma explicação de “cuidado ao inverso”. Com a natalidade cada vez menor nas famílias brasileiras, essa geração de filhos únicos prefere não se afastar fisicamente dos pais.

A chamada “geração canguru”, que demora a cortar os laços, é desafiada principalmente em dois casos: aqueles de espírito livre e aventureiro, que escolhem a independência, ou os que são forçados a isso por conta de passarem para vagas em faculdades em cidades distantes.

A Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) trouxe alguns desses jovens para Montenegro. E uma característica costuma uni-los: após o diploma, voltar para casa às regras dos pais não é mais uma possibilidade.

Com as colegas, uma família se formou

Camila Pasa, Amanda Bianca e Larissa Canelhas: três “montenegrinas” trazidas pela Uergs. Crédito: arquivo pessoal

A estudante, professora de Dança e colaboradora do Coletivo Órbita Larissa Canelhas, de 21 anos, deixou a casa dos pais, na região do ABC Paulista, quando tinha apenas 18. Veio para a Uergs a fim de colocar em prática o sonho antigo de estudar num local diferente do qual cresceu. “Acredito que a locomoção causa um impacto maior durante a formação, que não é só o diploma, como também a maturação de sair da adolescência e da escola para a vida adulta e universitária”, relata a jovem. Quando chegou, em 2015, foi recebida na casa de uma veterana do curso de Teatro.

O início, é claro, teve suas dificuldades. Sem se adaptar, ela logo se mudou. Naquele ano, chamou de lar três locais diferentes em Montenegro. “A universidade, apesar de ser pública, não possui a infraestrutura de uma universidade federal. Não tem casa de estudantes ou restaurante universitário”, diz Larissa. O processo de aluguel nem sempre é tranquilo. “Minha sorte foi que trabalhei nas férias antes de passar no vestibular e consegui juntar o dinheiro que me ajudou na mudança, pagando passagem e os primeiros meses aqui”, recorda.

Crédito: arquivo pessoal

Hoje, Larissa mora com três colegas da faculdade. Uma “família” se formou. Uma delas, Camila Pasa, veio da região de Bom Princípio, já era formada em Teatro pela Uergs e agora também cursa Dança. Há mais tempo na cidade, até hoje ela oferece aquele apoio que quem vive longe da família sanguínea precisa. A dificuldade também está em assumir todos os custos de ser independente. Larissa foi bolsista do Programa de Iniciação à Docência (Pibid) por dois anos, o que ajudou na renda e ofereceu experiência, mas, com o corte do programa pelo governo federal, essa atividade rica de docência, que também ajudava os alunos a se manterem, foi perdida. Atualmente, ela participa do Coletivo Órbita, que nasceu do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de dança da Amanda Bianca, moradora que Montenegro também ganhou através da Uergs.

Saudade do lar

A saudade da família inspira Larissa Canelhas a aproveitar bem o tempo no RS

Saudade não é sofrimento, Larissa trata de explicar. Mas ela está lá, sempre presente. E a inspira a fazer o melhor aqui, já que se propôs a vir tão longe pra realizar um sonho. “E tem valido muito a pena”, diz. Apesar de nunca ter morado só, sempre tendo com quem compartilhar suas crenças e inspirações, é muito diferente de viver com os pais. “Hoje eu enxergo o quanto aprendi longe do conforto de casa, com os meus mestres, artistas inspiradores que fazem acreditar cada vez mais na importância do ensino das artes e, principalmente, no ‘ser artista’, para mim, uma escolha de vida, uma filosofia”, ressalta a estudante.

Frio na barriga? Sim, ainda existe. Principalmente ao pensar em como será quando estiver formada e pronta para iniciar novos ciclos. Ficar no Rio Grande do Sul é uma possibilidade, mas planos muito distantes não lhe passam pela cabeça. “Tenho vontades, mas não me cobro muito com prazos. Vou deixando acontecer e, principalmente, escutando o que faz o meu ser vibrar com mais intensidade”, conta Larissa.
Os pais sempre a incentivaram a voar longe e ainda a ajudam com uma parte do aluguel. “Mas eu me movimento dando aulas, bolsa da faculdade e uns trabalhos ‘free’ que aparecem. A independência com certeza é um objetivo”, conta ela, disposta a ir atrás.

Vida livre, vida cigana

Na hora de se mudar de endereço, apego só pela bicicleta, que sempre a acompanha

Por ser filha de pai militar, fazer as malas e rumar para um novo lar nunca foi problema para Susana Toledo, de 27 anos. Caxias do Sul, Casca, Espumoso, Santa Maria e Porto Alegre fizeram parte de sua história antes de ser apresentada a Montenegro.

Atualmente, seu “lar” é a casa que divide com um amigo e os três cachorros e dois gatos dele. Mas, ela deixou a casa dos pais pela primeira vez quando rumou para a universitária cidade de Santa Maria, então com 17 anos, para estudar Relações Públicas. Lá ficou de 2008 até 2013.

“Minha irmã já estava lá, o que ajudou nessa adaptação. Foi uma segunda mãe”, conta. Depois de formada ela voltou para onde o pai residia, em Casca, na Serra Gaúcha. O plano era estudar para concurso e assim conquistar a independência. “É difícil voltar pra casa. Os pais têm as suas manias e vontades, e nós, as nossas”, diz Susana. Isso foi um incentivo. Aprovada em concurso público, ela partiu em busca da independência em Porto Alegre.
O plano era estabelecer-se, fincar bandeira na capital gaúcha e “fazer carreira”. A cidade a agradava, mas o trabalho burocrático, não. A difícil decisão de abrir mão da estabilidade de um emprego público em prol da felicidade veio após o falecimento da mãe, e com o apoio do pai. “Ela morreu aos 50 anos. E eu comecei a repensar a vida”, recorda a jovem. Veio a seleção para ingresso de diplomados da Uergs e Susana resolveu estudar Artes Visuais.

Depois de um período com idas e vindas diárias, estabeleceu-se aqui no município. Na sequência, vieram algumas mudanças de endereço e companhia até que chegou na casa onde está hoje, no Centro de Montenegro. “Surgiu o Lucas na minha vida. A mãe dele se mudou, sobrou espaço e eu precisava de um lugar”, resume Susana.

É tudo dividido: das contas ao serviço na casa

Na cozinha, a regra é clara e evita desentendimentos

Há um ano e dois meses, os amigos Susana e Lucas vivem sob um acordo. As contas são divididas entre eles, o consumo e reposição da geladeira são feitos mutuamente e cada um respeita o espaço do outro. Uma faxineira visita a casa para fazer aquela limpeza geral e eles vão mantendo. Na parede da cozinha, a regra é clara: ela lava os copos e panelas, ele os pratos e talheres. E os visitantes lavam tudo o que sujarem.

Desentendimentos? Existem. Mas vale o bom senso. “Flexibilidade é importante. São pessoas diferentes dividindo o mesmo espaço. Conflitos podem surgir, mas vão se resolvendo. Eu sou mais noturna e evito fazer barulho depois que ele vai dormir. Ele sai mais cedo que eu, mas isso não chega a me atrapalhar. O principal é conversar”, relata Susana. As pequenas negociações do dia a dia são a grande diferença de quem sai da casa dos pais e vai dividir apartamento. É que em família, a palavra do pai e da mãe é regra e no ambiente coletivo tudo precisa ser negociado.

A independência foi ensinada a Susana desde pequena. Apesar de realmente aprender a cozinhar após se mudar, sempre conseguiu se virar. Apegos também nunca fizeram parte da vida. Até hoje a casa do pai ainda guarda coisas suas e a possibilidade de mudar de endereço novamente não a assusta. Definitivamente, comprar uma casa não é o objetivo. “Não tenho vontade de me fixar, nem vejo problema em pagar aluguel. Uma compra me aprisionaria numa cidade”, explica ela, reconhecendo que essa vida cigana sempre a agradou, afinal, cada lugar traz aprendizados novos.

Mas os laços financeiros ainda não puderam ser cortados. Apesar de fazer estágio e integrar o Pibid, Susana complementa a renda com a ajuda paterna. “Voltar a depender financeiramente foi difícil. E sei que só posso estar aqui porque tenho ajuda”, reconhece.

Em função disso, os planos dela após se formar na Uergs passam por fazer concurso e dar aulas, mas ao contrário da maioria dos concurseiros, o objetivo não é fazer carreira, mas sim passar um período em determinado local e depois olhar novamente para o mapa à procura de novos destinos. Sem se apegar a objetos. Móveis podem facilmente ser comprados e vendidos em briques. O que vale mesmo é a vivência acumulada, diz.

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