Foi o cientista David Gross quem descobriu que, no reino dos Quarks, as partículas subatômicas que formam a matéria, a força de atração entre elas é contrária ao senso comum. “Cresce com a distância, como o amor de duas pessoas que sentem falta uma da outra quando estão separadas, mas não se aguentam quando estão juntas”. E ainda fez poesia.
Esta aparente contradição dos Quarks deveria nos ensinar. Se não precisamos viver tão próximos uns dos outros, podemos ainda estar juntos por causas comuns. Porém, no Brasil, não estamos suportando mais conviver com ideias divergentes. E só sentiremos falta uns dos outros, e da força da paz que nos unia, à beira de uma guerra civil.
Não temos olhado para a criança que nos habita. Toda criança tem um sentido épico e um poético da própria existência. As crianças querem ser heróis; salvar dos monstros o mundo que habitam. E como são convictas, como é bela sua luta. Tudo que nos faz depositar esperanças no porvir, mesmo quando o presente, o nosso, que foi um porvir um dia, fracassa.
O papel da poesia é comover e persuadir. Encontrar um caminho nobre na poesia que está ao nosso alcance, que há no cotidiano, é o que nos faz humanos e nos faz lutar contra os monstros que habitam nosso mundo.
Dizia Borges: “Sou o que não foi uma espada na guerra”. Apesar de ele afirmar também que todos os seus personagens procuram um destino épico. O destino épico que ele quis para a própria vida. Só que, em Borges, a violência e a atrocidade só são admitidas na ficção. O destino épico está no combate que se trava na imaginação, onde somos verdadeiramente humanos.
Está escrito em algum lugar: nada pode ser estável se não partir de um princípio sólido. O princípio sólido do imaginário é que ele nasce com a gente, está conosco desde o útero, faz parte de nossa natureza. E quando a vida nos desestabiliza e grita “seja desumano”, “seja mau”, “peça sangue”, é preciso recorrer ao princípio sólido que nos estabilizou desde o princípio. A poética da existência faz contraponto à selvageria primitiva que canta para nós como uma sereia da boate Bahamas: vem pro ódio, vem!
O destino é uma construção individual e coletiva. Depende de meio e da biologia. Da política e da saúde. Das alegrias e das tristezas. Das satisfações e das insatisfações. E, em muito, de quem cremos que causou cada um destes micro destinos. É uma matemática tão complexa que entender um destino, regredir ao útero, compreender o que a química de cada um faz com cada um não parece possível. Como conceber as tantas crianças lindas e meigas e sorridentes com uma vida sem quaisquer carências que, quando adultas, saem pelas ruas, pelas redes sociais a pedir o apedrejamento, a crucificação moral e a morte dos “diferentes”? A vida é como a física quântica: ninguém sabe como explicar. E a Educação, que poderia ajudar, cada vez mais perde importância.
Estamos nos perdendo uns dos outros em universos paralelos sem sentido. David Gross diz que “Universos Paralelos” são uma falácia. Só porque ainda não temos condições de analisar nosso universo real, não significa que haja outros. Aderir a isso seria uma rendição, uma derrota. Segundo ele, estas teorias que hoje ganham o Nobel ainda serão substituídas.
Esperamos o mesmo sobre o nosso entendimento da conduta humana. Que mudemos o entendimento dela, se necessário. E que ela mude, necessariamente.

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