A infância é um grande povoado de sons, cheiros e gostos. Sons, cheiros e gostos que marcaram nossa personalidade. O grito do pai, a comida da mãe – tanto no cheiro quanto no gosto. Isto falando dos principais. Se entrarmos nos sons e cheiros secundários, veremos que muito do que somos, do que sentimos, também vem destes sentidos.

O passado é um mar embrulhando entulho. O pai e a mãe discutindo. O colchão de palha fazendo barulho de madrugada. O cheiro do mofo das coisas guardadas há anos. Os canários e coleirinhos cantando nas minhas gaiolas. Quem seria eu sem este passado?

Que passado é esse que às vezes condeno, às vezes acho bonito, se foi esse passado, e só esse, quem me fez e me criou? Por que sou refém dele? Ou fruto dele? Ou dependente dele? Por que às vezes odeio a ponto de desejar que não tivesse existido? E por que tantas coisas que vêm dele admiro a ponto de vê-lo como essencial ao que mais gosto do presente? Somos tão frutos do passado, mas só temos força para nos tornarmos outros, baseados nele.

Nossas fraquezas se escancaram diante dele. Sons, cheiros e gostos daquele tempo nos dominam para sempre; são laços que nos prendem, que nos exigem fidelidade a uma vertente. O rio que somos corre imemorial.
Aqueles a quem a gente ama também têm seus cheiros, gostos e sons que forjaram suas vidas. Loucuras e desprazeres. O som das pombas “pupu” nos descampados silenciosos. O cheiro do suor dos cavalos depois de uma cavalgada. O gosto das frutas apanhadas direto das árvores. O pai e a mãe discutindo. O passado é um mar embrulhando entulho.

Daí a gente encontra outra pessoa. O cheiro de um com o gosto de outro. O som do outro com o cheiro de um. E fecha! E só fecha porque o passado de cada um foi como foi. Mude uma carta, mude um dia e já outra vida, outros encontros, outros futuros. E a gente chega à conclusão de que o passado pode construir uma pessoa para se encontrar com outra. Vá saber!
Filósofos e psicólogos já disseram: o que tu vai fazer com o que a vida fez de ti é o que importa. E é muito simples: a maioria de nós faz outras miscelâneas do que a vida quis pra ele. Só uma meia dúzia de psicopatas fica batendo nas teclas surdas do passado, repetindo suas músicas velhas e sofridas. Com as notas do passado, é preciso compor novas melodias.
Não é fácil. O passado, ainda mais quando ruim, é uma ceifadeira de alegrias. Mas se cada um de nós é um mundo novo, novos olhares precisam ser desenvolvidos. Não se trata de esquecer, trata-se de refazer.

Cheirar o passado, reouvir seus sons dissonantes e estridentes e levar adiante seus gostos bons é uma arte. Uma arte necessária para humanizar o presente. Temos compromisso com o presente. Consequentemente, com o futuro. Talvez nossas dores profundas não nos queiram permitir. Talvez queiramos nos vingar de tudo que nos foi feito. Mas vingar-se do passado não levará ao futuro a não ser para perpetuar a doença da qual queremos nos livrar.

Não tenho mais gaiolas com coleirinhos. Mas meu antigo colchão de palha ainda fala comigo quando me encolho na cama e puxo o cobertor por cima da cabeça. Sinto um cheiro de outro mundo e ouço os passarinhos que eu tinha. Não moro mais na infância, mas ainda é meu grande povoado. E quem vai saber se não a amo pelas pombas que ela ouvia na infância?

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