A realidade é uma máquina de moer carne. Alguém já disse isso, eu sei. Sei também que é preciso dizer outras coisas. Coisas que ninguém disse. Mas quem quer dizer coisas, sabe o quanto é difícil dizer o que nunca foi dito. Talvez uma seja: sonhar não se aprende dormindo.
Sonhar é buscar uma realidade que não nos moa. Sonhar é tão bonito, mas tão bonito, que não se faz dormindo. Igual a amar. Igual a sexo. Igual a ouvir boa música. Não se faz dormindo.
Os sonhos verdadeiros, daqueles que temos e que, em tese, podem interferir no mundo (o nosso mundo, no caso) são aqueles que sonhamos alertas. Que discutimos com nossos pares, nossos amores; que testamos e experimentamos; os que praticamos no cotidiano. Que dividimos com quem amamos.
Se não somos quem caminha deixando sonhos pingando do suor, se não somos quem briga por um sonho: não somos! Quem não abre mão de facilidades em favor de um sonho, não sonha. Quem não se sacrifica em favor de um sonho, não sonha. Quem somente discursa sonhos, não sonha.
Sonhar pressupõe que o sonho não permaneça sonho. Sonhar pressupõe que nossas aspirações e vontades se tornem carne e virem realidade, mesmo que depois sejam moídas pela realidade que criaram. Viver não é fácil, logo sonhar, consequência da vida, também não deve ser.
Apesar de hoje vivermos o pesadelo de tantos sonhos virarem pó, é urgente que continuemos sonhando. Sonhar é uma forma de resistência. Sonhando com um grande amor, com uma sociedade justa, com o aprimoramento das nossas qualidades pessoais e humanas. Mas sempre tendo em mente que sonhar não é uma ato onírico de ficar a olhar para as estrelas e esperar que as coisas caiam do céu.
Sonhar é uma ação. O verbo agir é o verbo mais importante em qualquer língua. Sair da letargia do sono e por mãos à obra. Isso é sonhar. A realidade é um barro que se molda. É verdade que por muitas mãos. Sonhar é meter nossas mãos também.
Sonhar não se aprende dormindo. Sonhar se aprende apanhando. Sonhar se aprende sangrando. Sonhar se aprende quando se é a criança que deposita confiança no mundo, mas pode ganhar de volta loucura e psicopatia.
Mas sempre é possível transformar o barro da loucura num símbolo de humanidade. É o papel do sonho. Transformar em convivência o que antes foi maldade; transformar em vida o que antes foi só dor e morte.
Sonhar um mundo novo é nosso papel. Só a sobrevivência dos nossos sonhos não permitirá que a loucura que hoje plana sobre nossas cabeças como aves de rapina, coma da nossa carne. Porque abutres comem o que está morto. E não estamos; simplesmente não estamos.
Cada criança que brinca de super-herói; cada jovem que olha o mundo com um olhar crítico de quem pode melhorá-lo; cada velho, como eu, que volta a estudar, assina um documento com a vida: sonhar não se aprende dormindo.
Tenho comigo que sonhar é também dizer algo novo todos os dias. Não disse desta vez. Mas era premente dizer algo que, mesmo velho e já dito muitas vezes, precisava ser repetido por conta das maluquices do presente. Porque não podemos permitir que moam nossos sonhos.

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