Quando fazia suas viagens para escrever seu excelente “Armas, germes e aço”, surpreendeu ao escritor Jared Diamond que havia na Namíbia uma rua chamada “Goering”, numa homenagem a Heinrich Goering, um dos líderes da colonização alemã daquela parte da África. O impressionante é que esse Goering foi um dos responsáveis pelo primeiro genocídio do século XX, o genocídio dos Hereros, povo que se revoltou contra a colonização alemã.
Ocorre que nada há de surpreendente em haver uma rua com este nome lá. A coisa mais natural do mundo é, no fim das contas, admirar nossos algozes. A maioria dos povos dominados acabou por tomar como sua a cultura, os valores, as crenças daqueles que os dominaram e os oprimiram. É só olharmos para um exemplo: o terno e a gravata. Fazem parte da vestimenta “séria” e “elegante” em praticamente todo o planeta.
Nossa tendência em esquecer as maldades que nos são infligidas vem de casa. Todas as famílias tendem a por uma pedra sobre suas desavenças, suas torturas físicas e psicológicas e sobre as injustiças entre quatro paredes. Por fim, este comportamento acaba se transferindo para a sociedade e para a História.
O grande mal deste comportamento, esse de esquecer o que de mal nos foi feito, permite essa verdade filosófica: a de que a história sempre se repete.
O renascimento da intolerância, do fundamentalismo religioso e dos movimentos moralistas devia nos causar horror por todo mal que já foi feito em seu nome. No entanto, não olhamos para trás. E, mais adiante, teremos que admitir que foi um grande erro. A divisão maniqueísta entre as pessoas, taxando uns e outros de mocinhos e bandidos de acordo com seus gostos, cores e amores, vai acabar em tragédia. O Estado Democrático está dominado pela mão pesada da ignorância e da violência.
Lembro bem do livro “Os violinistas” de JurgenMäss. Nele, dois meninos criam-se juntos estudando violino. São amigos, apesar das diferentes origens. A música os une. Vão juntos para a orquestra de Berlim às vésperas dos nazistas tomarem o poder. Até que um deles, Carl, entra para a juventude hitlerista.
Vitimado pela lavagem cerebral do Führer, Carl logo começa a ver no amigo, cujos pais são trabalhadores de fábrica e ativistas sindicais, os “defeitos de sua classe”. Incentivado pela organização e apoiado no sentimento de maior número, Carl começa a perseguir Heinz. As calúnias acabaram por retirar Heinz da orquestra. E a loucura vai num crescendo psicótico até o desfecho, quando Carl invade com a turba a casa da família de Heniz e, em êxtase, confisca seu violino e o incendeia no meio da rua.
Uma das frases marcantes dita por Carl: “a tua gente não merece tocar as músicas que a nossa criou!”.
Não sei se o Brasil caminha exatamente para uma coisa assim. Mas é preciso dizer que a História, a Literatura e a Cultura estão repletas de avisos. Se escolhermos este caminho, o do messianismo político e da intolerância, será uma opção consciente. E é obrigação de todos fazer estes alertas.
Ou deixamos tudo por isso mesmo, e damos logo nome de rua para o coronel Brilhante Ustra e nome de museu para o MBL.

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