No surpreendente livro “O dicionário kazar”, do escritor sérvio Milorad Pavitch, há uma pequena definição sobre um homem e seu futuro: um homem deve cuidar para não andar tão depressa que seu futuro, com seu passo, não possa mais alcançá-lo. Uma corrida. O mais rápido perde.
O futuro é uma fixação doentia. Tudo que fazemos é para alcançá-lo, para torná-lo real já que ele é uma quimera. Em seu nome, sacrificamos o presente e desconsideramos o passado. Inobstante, não há futuro sem queimarmos a lenha do presente na sua edificação. O capitalismo dá as regras: acumular no presente para garantir o futuro. Estudar no presente para se qualificar para o futuro.
Até o país em que vivemos é um país do futuro e não do presente. Uma escola de samba estampou o golpista Michel como vampiro, caricatura de Nosferatu a sugar direitos dos pobres e frágeis como se fora sangue. Tudo para melhorar o presente de poucos e piorar o futuro de muitos.
No mesmo livro, há um personagem brilhante que fala numa língua, mas se cala em outra. No Brasil, o silêncio da maioria contra tantos desmandos calou fundo numa outra língua: a das imagens e cores da arte dos morros do Rio de Janeiro; as vozes possíveis no momento.
O futuro, aquele pelo qual trabalhamos décadas, escorre feito um filete de sangue dos lábios sem cor do vampiro de plantão. Nosso futuro vai morrer por sangria sob o silêncio de outra língua, a das panelas.
Na página 87 do “Dicionário” de Pavich, ficamos sabendo que “o caminho mais seguro para se chegar ao verdadeiro futuro (pois existe também um falso futuro) é ir na direção em que teu medo cresce”. Portanto, só há futuro verdadeiro se enfrentarmos o medo.
O futuro é uma ideia fixa e também sacra. Temos isso conosco, de que tudo que é sacralizado tem aura divina. Quando Pavitch diz que “uma mulher sem bunda é como uma cidade sem igrejas” é a isso que se refere. Divinizamos a bunda feminina pelo desejo que inspira, pelo prazer que promete. E o futuro? Por que entregamos grande parte do presente para sua construção se nem temos certeza de que desse esforço virá o futuro verdadeiro? Se não estamos trilhando na direção em que nosso medo cresce e sim o caminho do gado ao brete?
É a Literatura pregando por parábolas.
Só o amor rivaliza com o futuro. Só o amor não pode esperar. “Ele a acariciava tão bem que a alma dela murmurava no seu corpo”. Milorad é um mestre! Amar é urgente. Para o amor, pouco importa o futuro. O amor só constrói um presente. Como a vida, só se vive o presente. Como um espelho, só reflete o presente. Todos os espelhos que prometem o futuro refletem antes tragédias para o presente. Conforme Milorad, “não se pode receber da verdade mais do que nela se investiu”. E assim, do futuro.
Se é verdade que “a paixão de ler é muito mais importante que a paixão de escrever” é porque ler cria mais mundos do que escrever. Porque ler gera mais futuros do que escrever.
O futuro parece uma miscelânea de assuntos desconexos, mas um cimento os une. O futuro se sonha acordado. Se tanto dedicamos do presente para que haja futuro; se querem nos roubar esse futuro que sonhamos, então na verdade estão nos roubando o presente, o sacrifício do presente, a paz do presente… o tempo presente!
Por fim, depois de nos roubarem o trabalho, a terra, a paz e a liberdade, farão de nós os sem-futuro. Zumbis que fogem de seus medos e os entregam para falsos messias e falsos heróis e, em nome deles, nos mataremos uns aos outros por uma migalha de… futuro.

Compartilhar

Deixe seu comentário