Entre os anos de 1769 e 1770, o navegador inglês James Cook foi até a Austrália e a Nova Zelândia e reivindicou estas terras para a coroa britânica. Cem anos depois haviam dizimado 90% da população local. Pior fizeram na Tasmânia, ali do ladinho. Exterminaram 100%. O cadáver do último tasmaniano só foi enterrado em 1976, depois de permanecer por décadas a ser dissecado para estudos e exposições.
Nossa selvageria não começou ali, óbvio. Começou desde sempre. E por mais que a humanidade avance — se é que avança, somos incapazes de reconhecê-la em nós e transformá-la.
Precisaríamos de milhares de páginas para descrever tudo o que existia antes de nós, e o que extinguimos com nossa presença. O que havia na terra, animais, plantas e gente diferente, demos um jeito em quase tudo. Restam os polos, cujo frio extremo protege, e os mares indomáveis. Por pouco tempo.
E a nossa selvageria não se resume às nossas relações com o planeta e com povos “estranhos”. Nossa selvageria está também intrinsicamente ligada à nossa aversão às diferenças de ideias e comportamentos e como podemos fazer disso cavalo de batalha em busca de poder e dinheiro. Ela é também usada na política, quando se apropria do medo e da ignorância das pessoas para ocupar espaço público e enfim chegar ao objetivo: o dinheiro público.
Nas discussões sobre o aborto, por exemplo: discutimos a defesa do feto. Depois que ele se transforma numa criança e vaga pelas ruas das grandes cidades sem pai nem mãe, já não são mais os mesmos que a defendem. Os que obrigaram aquela criança a nascer, por força de leis, religiões ou ideologias, as esquecem. Já não servem mais ao objetivo. Agora é chamar as armas para contê-los. É mais do que óbvio que, se a sociedade obriga a mulher a dar à luz a um embrião, esta mesma sociedade deveria fazer de tudo para que a criança tenha um mínimo de estrutura material e emocional para sobreviver. Só que não.
Hipocritamente, alguns de nós pegamos uns quadros de uma exposição e nos utilizamos deles para explorar o medo e o preconceito. Porém, sobre crianças que assistem pais e irmãos mais velhos fazendo sexo nos casebres ínfimos da pobreza brasileira, nenhuma palavra. Dois locais onde há maior número de abusos, como igrejas e as casas das próprias crianças, estes mesmos “alguns de nós” nada dizem. Não querem interditar igrejas. Mais fácil um museu, onde quase ninguém vai.
Nossos medos, preconceitos e ignorância a respeito dos fatos são fonte de selvageria. E eles sabem disso. Fazem manifestação por armas, exércitos, penas de morte. Não por um governo democrático que defenda o cidadão e, ao mesmo tempo, dialogue com a diversidade e as múltiplas formas de cada um viver a sua vida.
Não querem diálogo. Querem espaço político para acessar o dinheiro público. É só ver onde estão as lideranças destes movimentos. É tudo por dinheiro. E nós com nosso silêncio, com nossa conivência surda, porque eles são mais ousados, mais determinados, vamos concedendo espaço. Em breve estarão nos governando.
O Brasil está se transformando numa Tasmânia. Em nome de uma moral duvidosa, querem destruir a diversidade que nos caracteriza e com a qual são incapazes de conviver. Como o último homem daquela civilização, é muito provável que neste caminhar, as gerações futuras só verão a liberdade em museus. Isso se não houver algum maluco à sua porta fechando a exposição vociferando que liberdade não é arte.

Compartilhar

Deixe seu comentário