Reza a lenda que Sócrates, condenado a tomar cicuta, passou a estudar flauta. Por quê?,perguntaram os discípulos. Para aprender mais uma música antes de morrer.

A flauta de Sócrates dá uma ideia de como lidar com o fato de a vida ser volátil. O belo, o sentimento, o conhecimento, não se pega com a mão. Mas não quer dizer que não tenham consistência. Mesmo sendo “nadas”, tal como o sentimento religioso, é no que nos apegamos para suportar o peso do sem sentido de tudo.

Saber mais. Entender mais. Sentir mais. Tudo nos ilude, mas insistimos. Viver é dor, sofrimento e finitude. A morte nos incomoda mais do que a vida, nos alucina. E vamos procurando soluções para ela, em detrimento do preenchimento da vida.

Não entendemos o sentido da vida. Tampouco nos perguntamos: qual o sentido da morte? Por exclusão, teríamos uma resposta, já que não devem ter o mesmo sentido uma e outra. Há quem tenha solução para a morte (o céu, a reencarnação) e parecem não se importar com a vida. Mas… nos importamos.

A fragilidade e a precariedade da vida se sobressaem nos milênios. No começo, não havia sociedade. Criamos uma. Não havia medicina, educação, justiça. Desenvolvemos cada conceito para cuidar de nós. Para nos ajudar a achar um sentido para a existência. E até agora continuamos batendo cabeça. Há quem diga que quando descobrirmos o sentido e a razão de tudo, a vida perderá a graça. Eu acho diferente. Acho que a graça vai se perder muito antes, junto com a vida.

É melhor enganar-se e achar que encontrou o santo graal da existência. Porém, eu, por mim, prefiro achar que não há sentido nenhum a ser achado, a não ser aquele que seu prazer e sua vontade dão a este ínfimo hiato temporal que o acaso nos deu.

Desesperados, optamos então por construir um sentido. Estudar flauta, filosofia, plantar flores, escrever poemas, sair de madrugada para cuidar de mendigos e crianças espancadas. Formas de aprender mais uma música antes de morrer.Talvez a arte, talvez a solidariedade, talvez o amor. É certo que o amor nos faz permanecer vivos mesmo sendo ele, também, um desastre anunciado.

Queremos um sentido individual quando talvez só exista um no coletivo. Mas, no fim, todos veem, só restam escombros do que fomos e fizemos.
Somos apenas uma paliçada decadente na qual insistimos em escorar estacas, mas que, em breve, ruirá. Queremos ser mais que uma pessoa, o que nos torna ainda mais infelizes. Exigir um sentido para a vida e para depois dela é o ponto máximo do nosso individualismo. O que nos faz crer que somos o máximo e não devemos perecer?

Somos apenas escravos de uma hélice finita de DNA num planeta com data de validade vagando por um universo em eterno colapso.

E escravos não têm direito a sentido. Somos escravos das circunstâncias, dos nossos erros, do poder econômico, do poder político, das intempéries, do pênis, da vagina, das crenças, dos medos, dos intestinos, vejam só. Resolva ele parar para ver a merda que vai dar. Alguém com tantos senhores pode querer um sentido para a existência?

Quando respiramos, aquilo que parece nada enche nossos pulmões. Resta-nos, ao final de tudo, as coisas imponderáveis e sem consistência. Penso que no leito de morte, se a vida me permitir o privilégio da consciência de estar morrendo, eu possa sussurrar no ouvido de alguém: Eu amei e fiz de tudo para ser amado. O que já seria um sentido, o sentimento.

Agora vou ali pegar o violão e ver se aprendo a tocar mais um samba.

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