Em 1712, um obscuro escritor alemão de origem judaica, Alouysius Singer, publicou em Berlim “O livro dos abandonos”, onde compila, de diversos autores, frases e pequenos textos sobre a arte de abandonar. Quando da vinda dos imigrantes ao Brasil, no século XIX, um exemplar atravessou o Atlântico e acabou aqui em Linha Bonita, distrito de Salvador do Sul. Relíquia familiar, pouco permitem ver do livro raro. Fragmentos aqui, em primeira mão.
“A deusa Khunthea era casada com o deus Arun e reinavam sobre os céus do oriente. Um dia, ela abandonou Arun por amor a um mortal. Arun, na impossibilidade de um deus suicidar-se, decidiu não ser mais deus. Desceu à terra e foi viver numa caverna como um eremita. Foi o primeiro deus que rezou aos demais para deixar de ser deus; acreditava que, se se tornasse homem, reconquistaria sua amada. O pedido lhe foi negado. E Arun soube que um amor perdido nunca mais é reconquistado.”
Extraído de “O livro das tristezas”, da tradição do Camboja.

“Em 1305, o senhor feudal de Hereford encantou-se por uma camponesa num dia em que fora com seu séquito cobrar impostos e mostrar-se ao povo. Disse que a queria e que abriria mão dos impostos por dez anos se a família permitisse que ela fosse com ele. A família e a moça disseram não. Então, o senhor cortou os polegares dela e de cada um dos familiares, de maneira que não tiveram mais condições de trabalhar e se sustentar. Foi como ele soube lhes abandonar mal tendo os conhecido.”
De “O senhor e os polegares” de John Castoridius, Inglaterra, século XIV.

“Uma noite por mês, Athanasi Blazh levantava de sua tumba, dividia sua forma entre cem morcegos e voava até os vilarejos. Retomando à forma inicial, ia a tabernas, festas, praças. Um dia, encontrou a alegre Soraya e se encantou. Antes de beber-lhe o sangue, resolveu conversar, curioso da causa de tanta alegria. Dançaram e brincaram. Durante meses, Athanasi Blazh voltou para encontrar Soraya. Na noite de 28 de julho de 1002, Soraya beijou-lhe os lábios e disse que não sabia porque era tão alegre e feliz. Mas que depois que o conhecera, teve a sensação de ter ficado ainda mais. Athanasi Blazh rezou ao diabo para que o permitisse amar Soraya sem matá-la. O diabo não permitiu. Então ele abandonou seu túmulo e foi estudar uma forma de abandonar o diabo. Descobriu que o mal não se abandona. Somente o bem. Não sugou o sangue de Soraya. O diabo, sim.”
De “O vale da morte” de Sinugérius, escritor eslavo do século XI.

“Paulo, o poeta, pensou que a vida era só poesia e livros. Conheceu a cigana Angélica, caiu de amores e abandonou o passado. Na vez de Angélica abandoná-lo, descobriu que o passado não fora embora. A cigana virou poesia e, como musa, foi-lhe fiel amante até sua morte.”
De “O livro de Paulo”, Jerusalém ou Constantinopla, século VII.

“Quando o Cristo declarou aos apóstolos seu amor por Maria de Magdala, e pôs em risco toda filosofia da cristandade, Judas o alertou. “Assim não serás tu, teu pai e espírito santo, a trindade toda ao mesmo tempo. Quem ama torna-se aquele a quem ama. Esta Maria te arrastará ao humano. E humano não podes ser, posto que teu destino é celestial. Abandona-a, porque precisamos de um deus, não de um homem”. Jesus entristeceu-se, mas seguiu o conselho de Judas. Foi ser deus e abandonou o homem.”
Do apócrifo “O evangelho de Judas”.

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