Eram quatro da manhã. O telefone tocou. Tinham jogado um travesseiro sobre ele na hora do sexo. O som saiu abafado. Carlos não acordou. Deise sim.
–Oi? – atendeu quase sem voz.
– Chama o Carlos, disse uma voz impositiva no outro lado da linha. Uma voz feminina.
– Ca… – Deise chegou a dizer, mas não foi até o fim. – Olha, ele tá dormindo…
– Não quero saber, disse a voz impositiva. Chama ele agora!, e enfatizou a palavra “agora”.
Entre o sono e a vigília, Deise fez o que a mulher mandava. Sacudiu o marido e disse: – Carlos, é pra ti.
Carlos virou-se e pegou o telefone. Ainda disse: – que merda é essa a essa hora?, quando ouviu a voz: – Quero te ver. Vem aqui! – E Carlos acordou de vez.
Sentou na cama. Um filete de suor começou a escorrer desde a testa. – Oi? – respondeu.
– Vem aqui agora ou vou aí.
Carlos colocou o telefone no colo. Olhou para Deise e pensou: não era um sonho. Não era um filme destes em que o protagonista sabe o que fazer. Não sabia. Deise também acordou.– Que foi, Carlos? Quem é?
– Vou ter que sair. – Foi quando Deise acordou definitivamente.
– Como sair, Carlos?
– Sair, Deise. Sair! Sair! – E já foi levantando, nervoso.
– Quem era no telefone?
– Volto mais tarde.
– Se tu sair agora, não vai mais me encontrar aqui – ela disse levantando também.
Ele pensou um pouco. Depois escolheu: vestiu uma roupa , crispou os lábios como quem não tem o que fazer e saiu.
Deise ficou sozinha. Furiosa, derrubou mala do armário, gritou, jogou roupas dentro, chamou de “aquela puta”, vestiu a primeira calça que encontrou, a primeira blusa. Titubeou em frente à porta e retornou. Foi ao quarto dos filhos dele, que criava como mãe e deu uma olhada. A última. Foi quando as lágrimas tomaram o lugar da dor. A fragilidade, o lugar da força. A mágoa, o lugar do perdão. Não podia voltar atrás e saiu.
Eram quatro e trinta da manhã quando se sentou num dos bancos da Praça Rui Barbosa. Não podia acordar parentes; a mãe ou a irmã. Tinha vergonha. Tinha medo. O ódio atou um nó em sua garganta que prendeu o choro. O amor foi escorrendo entre seus dedos e, por mais que abrisse as palmas das mãos para segurá-lo, ele escoava. Cada lembrança, uma mágoa. Não tinha volta. Pensou em ir a um hotel, mas a rua vazia, a praça vazia, a vida vazia lhe dava forças para ficar ali sentada, esperando o dia amanhecer.
Quando o sol raiou, bateu à porta da casa da mãe. – Ainda tenho um quarto?, perguntou. A mãe disse sim. Mas ela própria não respondeu às perguntas que a mãe fez sobre a hora, sobre a mala, sobre a cara de quem não dormira. Só respondeu quando a pergunta foi sobre Carlos. – Tá com a Ane!
Deitou na cama antiga e abraçou o travesseiro. Pensou que podia ser criança outra vez. Mas não era. Pensou que o amor não nasce nem morre de uma hora para outra. São como a vida. Nascem aos poucos, morrem aos poucos. E agora tinha que matá-lo. Angustiada, levantou e foi se sentar em frente à janela iluminada. Seu amor fugira como fogem os passarinhos. Escapam das mãos da gente e saem sem rumo pela primeira luz que encontram e nunca mais os vemos.
Era dia oito, oito de dezembro. Dois mil e dezessete. O dia em que Deise enterrou seu amor ainda vivo na mesma luz da janela pela qual ele voara.

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