Então tem um dia que as coisas se decidem. Não decorrem de fatos simplesmente aleatórios. Se bem que alguns podem ser: as conspirações do universo. O primeiro encontro pode ser aleatório. Porém, toda a química que se sucede, não. Todas as vontades e sentimentos, também não.
A biologia dá alguns avisos: quando teu coração palpita, e o dela também; quando tu fica meio babaca sem saber o que dizer ou fazer, e ela também. Quando ela ri de nada, fica séria de outro nada. E tu também. No tumulto dos acontecimentos aleatórios, tu procura não ficar longe dela. Ela também. Já temos aí um caldo de cultura para um romance razoável.
Ninguém no entorno tá percebendo nada. Vocês escondem bem. Nem namorados, maridos ou esposas. Mas nos movimentos internos que ninguém domina, o pau tá comendo. Tu respira fundo, ela também. Ela treme, e tu então… Ela diz pra si mesma: isto vai ser uma merda. Tu: isto vai dar uma grande bosta.
Na saída do encontro aleatório determinado pelo pouco de destino que há em tudo, cada um de vocês dois toma seu rumo. E quase se esquecem. Talvez reste um sonhozinho erótico, mas sério mesmo, nada. Só que a porra do destino aleatório teima em não ser aleatório e resolve jogar pesado. Quinze dias depois, vocês se encontram. Então sozinhos, porque o destino resolveu ser mais filho da mãe ainda.
Ela só foi comer uma pizza com as amigas de infância. Tu, comer uma pizza com os cachorros de infância. Tu pegou o violão e tocou numa mesa: “Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante”. Ela, de outra mesa: “De uma estrela que virá numa velocidade estonteante”. Na saída, vocês já são amigos. Nas entranhas, os sentimentos continuam se comendo, mas ainda só por dentro.
Na madrugada, você a segue. Descobre que na casa dela há janelas que, da rua, você pode vê-la. Por diversas noites você retorna ali e fica parado, olhando. Vê que ela cozinha, que ela ri para alguém, pai ou mãe! Um anzol o destino já fisgou. O outro ainda não, está boiando na água turva das probabilidades.
Então, o destino fisga o resto. Ela decide que não quer mais sair acompanhada. Quer sair só. E vocês se encontram outra vez. Ela diz: se não é novo pra você, é pra mim. Tu diz: Tudo… nada na minha vida é tão novo quanto tu. Nas escadas do restaurante, ela pega na tua mão. Tu faz força pra soltar: é cedo, tu diz, meio que indeciso. Tu tem medo. Ela diz: Cedo nada; já foi, é passado. Me dá essa mão aqui, agora! Eu seguro tudo. Deixa comigo!
Assim, ela segurou todos os anos vindouros de paixão, êxtase e angústias que o destino impôs como capricho. Como sempre, o destino brinca, depois resolve desbrincar. E se há quem creia que as sacanagens do destino são um parque de diversões, azar. Não são! O destino foi cravando estacas no teu coração, e no dela. A rotina, os filhos. E quando parece não haver mais coração para sangrar, eis que os corações se renovam, renascem das cinzas do ir levando esta chama. No cais da vida, há barcos para desesperados, para os que não sabem o que fazer com o destino. Uns embarcam. Outros, não. Novos mares, outras tempestades. Quem foge de um destino sempre acha outro.
O destino é um bêbado fazendo festa com a vida das pessoas. Um véu que cobre o corpo e seus desejos; uma entidade que se pode culpar pelo bem e pelo mal; que se pode agradecer ou amaldiçoar, dependendo de fracassos ou sucessos. E, é claro, de um modo ou de outro, ele não presta!

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