Tu nasce. Vai crescendo. Torna-te uma criança saudável, brincalhona. O mundo vai te chamando pra briga e tu é só alegria e criatividade. Destrói o mal com tua arma de pulverizar monstros. Salva cidades, países e mundos com tua imaginação. Se tua realidade é ruim, não necessariamente será um cara ruim. Se tua realidade é amorosa, não quer dizer que será um cara do bem. O mundo vai te moldando. Tu vai moldando teu mundo. Não há uma resposta clara que explique como tudo acontece. Tu viaja no tempo, mas ninguém sabe como a viagem é escrita.
Aí tu vira adolescente. Tudo que era o máximo já não é mais o bastante. As exigências mudam. Tu tem que pensar numa profissão, como ganhar a vida. A escola dá opções. A vida fora da escola dá outras. Teus hormônios gritam. Tu ouve. Eles tão muito a fim.Eles mandam. Tu encontra uma menina. Ou duas. Três. Mas tem que continuar pensando em ganhar a vida. Ser autossuficiente. Tem uns resquícios da infância e tu ainda é sonhador, idealista. Tu quer uma sociedade nobre, um emprego nobre, um mundo nobre. Tu bate de frente com o mundo. Nada é nobre. Nem ninguém do passado ou do futuro. Então tu te rebela, te torna um outsider, um inconformado. Prega revoluções de forma ingênua ou violenta. Ou não te rebela. Só replica o mundo e sua decadência. De qualquer forma, tudo que tu idealizou já não é mais o bastante.
Num piscar, tu é adulto. A merda toma preço. Teu emprego é bom, mas não é aquilo para o qual tu investiu um sonho. Tu estudou Literatura e História, mas trabalha numa fábrica de automóveis. Ajuda a poluir o mundo. Não é mais nem o herói da infância nem o rebelde da juventude. Na ânsia de um retorno, tu casa com uma das garotas que encontrou na vida. Para encher vazios, vocês entram em cenáculos, igrejas, clubes, partidos. Tu sabe que tem que estar atento a tudo: à política, à economia, à ciência, às forças que movem a sociedade, mas tu não consegue. O mundo e a vida são muito complexos.
Tu tem que cuidar do amor, dos sonhos, do trabalho, da cidade, do país, do planeta. Relacionar tudo isto com o dia a dia requer muita vontade. Aí tu desiste. E os outros vencem. Da forma mais dolorida, tu vê que tudo que tu fez na vida não foi o bastante.
Então, num suspiro, tu fica velho. Em casa, sentado na tua cadeira de velho, tu olha o mundo. Vê que os políticos que tu apoiou não fizeram a sociedade evoluir, eram corruptos. Os padres e pastores em quem tu depositou tua fé viveram de extorquir a crença dos humildes. Eram pedófilos, batiam nas esposas e ameaçavam elas e os filhos de morte se os denunciassem. Vê que teu trabalho não te levou a nada além da linha de montagem. E que hoje te consideram um inútil por sugar impostos através da previdência social. O tempo não te deu nada a não ser cansaço; o tempo não te deu nada a não ser a consciência de que ele finda. E tu com ele.
A vida, que mesmo passageira, poderia ter sido uma experiência ímpar, transformou-se num engano. No final de tantos desafios, tu descobre que nem deus tu vai ter e todo o esforço que tu fez para fazer a diferença na sociedade, não foi o bastante.
Tu não cuidou do amor, dos sonhos, do trabalho, da cidade, do país, do mundo, dos filhos. Não percebeu a complexidade das relações entre todas elas. É demais pra qualquer um. O tempo só te fez deixar de ser o herói da tua infância.
Enfim, nada do que a gente faça é o bastante. E agora? Agora acabou!

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