O futuro a Deus pertence, diz a sabedoria popular. Se é que vai haver um. Nas nossas divagações ficcionais sobre ele, explodem monstruosidades: Frankenstein, o Soldado Universal, o Exterminador do Futuro na impagável interpretação de Arnold Schwarzenegger. Para dizer só três. Anti-heróis frutos da ciência e da tecnologia, cujas qualidades humanas, como sentimento e ética, desapareceram.
O avanço científico está a nos dizer que a ficção em breve pode vir a ser real, como num romance de Júlio Verne e suas vinte mil léguas submarinas. Cada vez mais próteses funcionam. Cada vez mais se entende como o corpo humano funciona. Cada vez mais os interesses bélicos e econômicos namoram a pesquisa científica. Já há chips em moscas e baratas com fins de espionagem. Os caras são ninjas.
Há muitos passos ousados sendo dados neste campo. Em 2013, um projeto sobre o cérebro recebeu um financiamento de um bilhão de euros da Comunidade Europeia. Imaginemos um chip que bloqueie ou libere neurotransmissores ao seu bel prazer. Que interfira nos sentidos, nos sentimentos e desejos. O potencial é bombástico e infinito.
Conforme especula Yuval Harari: “… um cyborg eternamente jovem que não procria, não tem sexualidade, que consegue interagir e compartilhar com computadores, que não tem raiva, medo…” E nós também podemos especular: que tipo de sentimento, que tipo de desejo um ser assim pode desenvolver? Estaríamos à beira do super-homem ou dos piores pesadelos da ficção científica?
No andar desta carruagem, a própria palavra “humano” pode mudar de sentido. E que uso farão de saber tão devastador as ideologias, os governos, as religiões?
Parece, de fato, muito assustador. Provavelmente nunca, em toda a história da humanidade, será tão importante participar politicamente do que nos próximos 100 anos. As decisões que serão tomadas e que vão mudar, não só o mundo, mas o conceito de ser humano, deverão ser as mais democráticas possíveis. Para que o maior número de pessoas possa ter a consciência do que, como pergunta o escritor judeu: o que queremos ser e no que queremos nos transformar?
Porque a transformação, lenta e gradual, já começou. E, afinal, inteligência sem consciência representa um caminho sem volta ao inferno.
A interferência da Inteligência Artificial na vida humana dá seus primeiros passos setenta mil anos depois da ascensão do Homo sapiens como o animal que vira deus. Hoje o Facebook, com programas e algoritmos complexos, baseado nas postagens das pessoas, já consegue traçar perfis bem razoáveis das ideias, gostos e valores de seus usuários. Mapas políticos e ideológicos já podem ser intuídos. O Facebook nos conhece melhor que nós mesmos. O que se fará com isso, nem imagino.
Pelo sim, pelo não, há um caminhão de cientistas que afirmam que o cérebro não “pensa” da mesma forma que o computador e que tentar “casá-los” é uma grande bobagem e que tudo é mero teatro para angariar patrocínio.
De qualquer forma, o futuro a deus pertence, seja lá que deus e que futuro sejam. O velho Olimpo grego parece uma premonição com seus deuses humanamente insatisfeitos e irresponsáveis botando terror, terror que sai dos livros e das telas para se transformar em nossos piores pesadelos.
E, se por acaso, você vir por aí alguém parecido com o Schwarzenegger, pelo menos desconfie.

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