No princípio, era o fogo. Não o verbo, como está escrito. O calor e sua antítese: o frio. O fogo, um animal brandindo labaredas como se fossem espadas. O fogo não era de paz. Era um guerreiro; o frio, um predador à espreita. Fica quieto e não se movimenta. E assim enrijece o mundo. O fogo não. É um escândalo, um dragão dançarino.
No começo, não houve uma luta do bem contra o mal. Houve sim uma luta do calor contra o frio. Uma luta entre a paralisia e o movimento. O fogo disse ao movimento: sou teu pastor e nada te faltará. Mas sendo o fogo um pastor louco, se precisou que fosse domesticado. E desde 800 mil anos atrás, um cara descobriu que o que não dava para digerir antes, depois do fogo, dava. Um cozinheiro. Enfim, o frio semeador de doenças e paralisia era combatido. Aquelas noites onde a escuridão dava guarida a bestas terríveis puderam ser iluminadas e se armaram defesas. E o fogo foi de paz.
Passou a nos obedecer e servir às nossas vontades. Enquadramos o fogo em estábulos controláveis e desde então fazemos dele o que queremos. O fogo passou de pastor dos tempos míticos a um animal doméstico dos tempos modernos. Se lhe damos lenha, e na quantidade certa, ele nos aquece, cozinha para nós ou se transforma numa arma letal.
Tudo isso sem contar seu fator agregador, sua capacidade de juntar as pessoas, de embalar no balanço de suas chamas incontáveis histórias reais ou inventadas que povoam todo nosso imaginário. Quem olha para o fogo retorna para as primeiras tribos que ainda residem na sua alma, reconta lendas remotas de sua família, de seus dias com pais e mães e avós, dias que não existem mais. O fogo é o passado bruxuleando como uma borboleta em frente aos nossos olhos. O fogo é uma máquina de aquecer lembranças e atiçar brasas de sonhos.
O fogo está no cerne dos nossos desejos; um braseiro a cozinhar nossos ódios e prazeres. Ele está no perigo das nossas escolhas, está na maçã de Helena de Tróia, na maçã de Eva de Adão, na maçã da Bela Adormecida. O fogo se copia, como se copiam estas mentiras. E se alastra queimando tudo, como se alastram as verdades.
Tudo um dia terminará numa enorme fogueira, como Hiroshima, como Pompéia, como uma estrela de nêutrons. Ou numa fogueira menor, como a de um lança-chamas, ou de um forno crematório. E se não terminar numa fogueira, terminará num frio intenso de um planeta abandonado por seu sol que minguou, ou por sua gente que o exauriu até não ter mais nada para dar.
A guerra nunca foi entre o bem e o mal. Sempre foi entre o calor e frio. Entre o movimento e a paralisia. Entre haver fogo e não haver. Só há vida se houver fogo.
Nestes dias frios de junho, acendo o fogo do fogão em busca de calor. Olho para as labaredas, para o braseiro e tento imaginar o que fora isso 800 mil anos atrás. Lembro-me de pais e avós e cenas em volta do fogão à lenha.
Na frente do fogo, sempre haverá um homem solitário à procura da alma de sua solidão que definha de seus próprios incêndios. As chamas parecem conversar com a gente. As histórias estão ali, queimando dentro da fornalha, mas, surpresa, elas não queimam. No próximo fogo, estarão de volta.
Eu não. Só o fogo e suas histórias. Só o fogo e a vida que ele traz e representa. É assim que o fogo mostra que não foi domesticado. E que não é, nem nunca foi, de paz.

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