“É de se admirar, senhor, que tendo tantas tropas à vossa disposição, permaneçais no vosso palácio, sem procurar conquistar outros países e estender os limites de vosso império”. Foram as palavras de Atossa, mulher de Dario, imperador persa, instigando-o à guerra. O imperador cedeu à vontade da esposa e saiu a conquistar reinos vizinhos.
Os babilônios começaram a se preparar para o ataque de Dario. A fim de poupar provisões porque sabiam que Dario faria um cerco de meses à cidade, o rei ordenou o seguinte: que cada homem poupasse somente a mãe e a esposa. As demais deveriam ser estranguladas. E o foram.
Inobstante, Dario tomou Babilônia, mandou crucificar três mil homens e mandou de outras nações dominadas 50 mil mulheres para repovoar a cidade.
Atossa, a mulher do imperador, provocou e milhares de mulheres morreram. Outras milhares foram deportadas à força, obrigadas a gerar e a repovoar um reino. E esse é só um episódio de como o sexo determina o destino de pessoas e a roda da História.
Antes disso, e depois disso, não houve época em que a mulher não se tornou vítima da potência e da grandiosidade da História. Das consideradas bruxas e queimadas pela igreja da Idade Média, às mulheres que têm o clitóris amputado no norte da África. Das trabalhadoras do campo da América Latina, às prostitutas de luxo da Europa. Nada é de hoje. Tudo tem uma longa jornada no tempo. E se é verdade que força bruta sempre se impôs sobre o gênero feminino, também é verdade que muito da violência contra elas começa por uma igual. Pode ser pela vontade de uma rainha ou da cafetina de um pequeno cabaré de interior.
Atossa, mulher de Dario, pediu guerra e mortes ao marido em nome de poder e glória; mulheres da Idade Média denunciavam desafetas como bruxas à Igreja; foram na maioria mulheres que nos anos 60 pediram a ditadura na Marcha pela Família; não é de todo estranho ver representantes históricas das vítimas da opressão desfraldar bandeiras às visões opressoras e, histéricas, seguirem um psicopata que quer ser presidente.
A vida é complexa. A História, fruto da vida, ainda mais. A contradição é um traço humano inexorável. Enquanto alguns se dão em sacrifício à Democracia e à liberdade, outros se dão aos discursos da morte.
O que é certo é que a fragilidade de segmentos da sociedade só pode ser defendida pela Democracia. É a Democracia que facilita e propicia a defesa dos mais fracos, dos que não têm maioria, dos que não têm a força bruta a seu favor.
A condição feminina, as orientações sexuais diferentes, os que sofrem preconceito de cor, os pobres e humildes só terão voz e vez em regimes democráticos. Só a democracia pode garantir espaço para todos. Senão, haverá sempre espaço só para alguns. Esses “alguns” tomarão os espaços à força.
A mulher sempre foi um símbolo do mundo. Tanto que o sacrifício de fêmeas era o preço que se pagava para aplacar a ira de deuses, reis e poderosos de plantão.
Anos antes de Dario, foi uma mulher que venceu o exército persa. A rainha Tómiris derrotou o imperador Ciro, cortou sua cabeça e a mergulhou-a num balde de sangue. As palavras de Tómiris ficaram famosas: eu te saciarei de sangue, como te prometi.
As decisões das mulheres determinam nossa vida. Desde o nascimento, às decisões da casa ao planeta. Delas depende muito a História continuar humana e progressista. Porque se elas quiserem um mundo obscurantista, elas conseguem.

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