Há quem creia que Matrix seja só um glamour do cinema. Há crentes para tudo. Uns até acreditam que vivemos uma realidade virtual imersos num líquido como se fosse um útero com uma mangueira conectada na nuca, alimentados por um programa de computador. E este, controlando o que é real e o que não é na nossa vida infeliz.
O que poucos sabem é que Matrix existe. Há bem mais de 10 mil anos e cria realidades imaginadas melhores e mais eficazes que qualquer computador. O homem primitivo criou Matrix.
Segundo a antropologia, primitivamente era praticamente impossível a convivência de grupos humanos com mais de 150 pessoas. Por conta das dificuldades de todos se conhecerem intimamente. E laços sociais eram tanto mais fortes quanto mais intimidade. Mas houve um momento na História em que se deu uma ruptura. Quando a cooperação humana começou a se dar através dos mitos e crenças comuns, e não mais nos conhecimentos pessoais.
Quando se passou a acreditar em deuses, nações, raças, as pessoas começaram a cooperar aos milhões, movidas por compartilhamentos de ideias, o que criou impérios, religiões, classes sociais.
E o que começou tudo isto? A Ficção! Foram os criadores de histórias que criaram a primeira Matrix. E até hoje dançamos conforme a música do primeiro cara que inventou uma história fantástica e fez um monte de outras caras acreditarem nela e passar a fazer o que ele queria por uma farsa. O resto da história todos nós conhecemos.
Isto trouxe benefícios para a humanidade. Tanto que somos a espécie que mais se dá bem no planeta. Dominamos todas as outras e dizimamos as que não queremos mais.
A ficção está ligada à palavra, e fundamentalmente, à palavra escrita. Com ela quebramos o paradigma de que só a biologia determinava as vidas. O ato de escrever e inventar histórias mexeu nesta lógica e, para o homo sapiens, tudo passou a ser permitido.
É fácil de ver como o caos se instaura quando somem do cenário as “verdades imaginárias”. Quando o estado deixa de atuar e as pessoas perdem a confiança nele, tá feita a bagunça. As instituições imaginárias regem nossa vida e não conseguimos mais sobreviver sem elas.
As várias Matrix possuem milhares de anos e, juntas, formam a grande máquina que nos governa a realidade, cria modas, prazeres, sentido para nossa vida. Aliviam nossa carga da morte e delineiam o que devemos querer de nós mesmos. Numa relação extremamente complexa, elas se relacionam entre si e nós acreditamos em cada uma e em todas a ponto de nossa vida real sustentar-se, quase que toda, sobre pilares que não existem. Nossa crença neles lhes dá materialidade necessária para mandar em nós.
Não se sabe ainda a que custo para o planeta, mas o troço funciona.
Outra: o fato de conseguirmos (contra a biologia) cooperarmos em números muito superiores a 150 indivíduos gerou matança e genocídios como nunca antes na história. O desafio é fazer esta nossa possibilidade intelectual gerar paz.
Só essa nossa capacidade de cooperar por crença em uma ideia é capaz de colocar 100 mil pessoas num estádio para olhar um jogo ou mandar milhares de homens para a morte certa como no dia D.
Matrix dá certo pra nós. Tire-se Matrix e seus controles de nossas vidas para ver quem seria mais cruel num estádio lotado. Nós ou chimpanzés. Já vi jogo em que quase não havia diferença.

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