Como de praxe, vamos começar com Era uma vez… O protagonista é um velho conhecido nosso; quando eu era criança, ele também era. E, como eu, ele cresceu. Crescendo, temos também obrigações – aliás, isto é o que mais temos.
Joãozinho, ou Sr. Joãozinho, tornou-se um adulto jovem. As brincadeiras de criança ficaram pra trás, agora ele se considera um homem de respeito, devendo agir como tal. Um ser humano crescido precisa ter opinião, e só nisso o Joãozinho e eu concordamos. Como um “respeitável espécime da sociedade”, Joãozinho tem uma opinião política… E a compartilha fielmente, todos os dias, com sua rede de amigos virtuais.
Joãozinho, pasmem, se considera politizado, se lhe perguntarem. Infelizmente, Joãozinho é ingênuo – entre outros adjetivos, creio que esse seja o que mais o defina. Ele não é tão esperto quanto pensa, mas tem muita gente na internet que é. E, para sucesso desses caras, há Joãozinhos!
Joãozinho não se importa se a notícia que ele compartilha é falsa (ele nem pensa sobre isso, “se está na internet, deve ser verdade!!!”). Se ele lê a manchete e ela é em favor de seu ideal político, ele compartilha. E ama quando causa polêmica. Vale dizer que não clica nos links, só lê a chamada – deus o livre pegar um vírus, o famoso cavalo de tróia. Joãozinho ama falar sobre essas notícias que compartilha com seus conhecidos do mundo real. Quando os outros dizem que é falsa, ele ri e diz que é uma conspiração para não sabermos a verdade. Conspiração contra Joãozinho, como se a história não pudesse melhorar.
Joãozinho é piada para os outros, mas não importa, porque ele tem uma opinião. Não foi isso que o mandaram ter quando crescesse? E não tem que estudar sobre ela, certo? Isso daria trabalho pra caramba e está tudo ali, nas manchetes, pronto para ser compartilhado… quase nem precisa ler. Fácil. E pra ele, tudo certo. Joãozinho faz parte de um rebanho manipulado por líderes em busca de massa de manobra capaz de desgovernar o país. Todos com seus devidos cabrestos para não desvirtuarem do caminho. Caminho que leva todos ao matadouro.
Joãozinho não pode ver uma vergonha que já corre na frente pra passar. Sem nem perceber. Pra ele, é um respeitável jovem homem corroborando pra um Brasil melhor. Um Brasil fake, assim como tudo que ele acha que sabe. Quem não se importa de difamar os outros realmente se importa com os rumos do país? O coitado não sabe mesmo de nada.
Meu pai sempre me repete um ditado: “a ignorância é uma bênção”. É que saber dói. Saber faz a gente querer lutar; saber faz a gente questionar. E lutar e questionar dá trabalho. São verbos que não podem ser conjugados só uma vez na vida; quando se começa a fazê-lo, nunca mais se para, porque nunca se sabe o suficiente e as guerras nunca terminam. Abençoado, então, seja o Sr. Joãozinho; ele que crê mais do que busca saber, e é por isso que dorme tranquilo à noite, depois de passar o dia mentindo sobre outras pessoas, suas lutas, seus questionamentos, suas vidas.
Enquanto isso, seguimos. Era uma vez… Mais uma vez e quantas forem preciso… Porque quem questiona e quem luta começa novas histórias todos os dias.

Ana Clara Stiehl
Cronista

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