O fascínio pelo mar é o fato de ele ser o útero primordial. Quem olha para o mar olha para a casa materna. Nem levaremos em consideração que ele é forte, que ele é excêntrico e imprevisível, que ele é mau e bom, que é o chefe de tudo. Vamos levar em consideração apenas que ele é o lar de nossa infância.Quem volta ao mar volta ao começo, ao “fundo do fim”.
Não que o mar seja seguro. Não é. Não que o mar represente paz. Não representa. Não que o mar seja o fim. Pode não ser. Mas toda caminhada pela orla representa um beijo na mãe. Um “oi”. Um “eu voltei”. Mães não voltam. Filhos, às vezes. Toda pessoa que passeia na praia é um filho que celebra sua origem. O mar é um símbolo. Se é verdade que nenhum ser humano retorna ao útero, não é menos verdade que nenhum de nós encara o poder do passado sem reverência. Para o bem ou para o mal. Nem todo passado foi bom. Mas, sem ele, não haveria o agora. O passado guarda em si o matar e o morrer. Igual ao mar.
O mar não tem padrão. Às vezes bravo, às vezes comedido. Às vezes mata, às vezes salva. Às vezes escola, às vezes pune. A gente nunca sabe qual destas sabedorias vai por em prática. A nós cabe escolher o que ele fará de nós. O mar não decide dia nem hora para ser o que pode ser. Ele age. E só.
O mar é bipolar. Não tem pena. Nem ódio. O mar só é mar. Ser mar é uma grande merda para muitos. E uma grande coisa… para todos.
O mar recicla o mundo. Sua sujeira. Sua arrogância. O mar esteve antes e estará depois, mesmo que sujo. Ele não está disposto. E se estiver, nem vamos saber. O mar decide tanto quanto o magma. E nem vamos falar do magma, ou do sol, ou do espaço sideral. Por que daí perderemos o controle. E o controle é algo que, se vamos olhar para o tempo decorrido de todas estas grandezas que tentamos controlar, caímos no risível. Nós não controlamos nada! Vivemos uma média de 70 anos e, neste curto tempo, ao invés de amar e sermos felizes, preferimos a baixeza de fodermos uns com as vidas dos outros. Em 100 anos estaremos, cada um de nós, esquecidos, e ainda haverá o mar. E, com sorte, outras pessoas melhores do que nós. Mesmo sabendo disto, preferimos destruir a construir. Há um mar de rancor em nós.
Já pedi aos meus que minhas cinzas sejam jogadas ao mar. Ao fim e ao cabo de tudo, sei que não estarei sentado à direita de quem quer que seja. Estarei à disposição das águas, das marés, das areias e do vento, como foi desde os primórdios. Estarei de volta à casa materna. E se houvesse uma frase para escrever num epitáfio que nunca existirá, seria: “Aqui jaz, sob as mesmas inquietudes de uma vida, aquele que nunca teve paz.”
Porém, enquanto não chega o dia derradeiro, divago em torno do meu passado. E reencontro o menino que só viu o mar em torno dos 15 anos, e que só o descobriu como família depois dos 30, e constatou o mar como útero e túmulo perto dos 60.
Todos passamos por várias casas durante a vida. Nem de todas queremos lembrar. Muitas assassinaram parte da nossa infância. O mar também assassina. De uma forma ou de outra, o que entrega depois busca.

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