Nestes tempos difíceis, em que o retorno a um passado sórdido, infame, bruto e desumano tem sido aventado aqui e ali, resta-nos fazer uma declaração de amor. Uma declaração de amor à Democracia. À Democracia e a tudo que dela advém e emana: liberdade de escolha, de pensamento; liberdade de fazer política. Direito de ser protegido pelo Estado, de ter saúde, educação, cultura, trabalho. Que o povo possa ser soberano por sua maioria, ditar suas leis e construir um destino.
Amar a Democracia não é fácil, concordo. Ela é exigente. E nos quer com ela o tempo todo. É exclusivista. Não podemos pertencer a ela e servir a outro senhor ao mesmo tempo. Amar a Democracia exige compreensão com os erros. Exige fazer de novo, escolher de novo, punir parceiros, enterrar líderes na cova profunda do desgosto. E ainda crer nela como caminho humano e civilizatório.
Não há civilização fora da Democracia. Sem ela, é só medo e barbárie.
A Democracia é eivada de pilantras que tentam prostituí-la, vendê-la, desmoralizá-la. E com estas ações nefastas, sangrar as riquezas que a todos nós pertencem. Mas a Democracia é como um bem, como uma família, como nossa casa. Não pode ser vendida, barateada ou sucateada. E as liberdades, as liberdades democráticas só podem ser defendidas com mais Democracia e mais liberdade.
Declarar amor à Democracia é admitir suas fraquezas e sempre reconstruí-la, mesmo que moribunda, dos escombros onde a jogaram. Amar a Democracia nos exige que sejamos maduros, que não entreguemos nossa liberdade a ditadores por medo de exercê-la. Maduros como as crianças que imaginam um mundo fantástico e vivem nele a realidade que constroem. A Democracia é uma grande fantasia que a criança em nós edifica para viver sua liberdade/realidade de forma criativa.
Nas suas fantasias, as crianças ensaiam para a vida adulta. São autossuficientes. Criam um mundo onde transitam felizes e o dominam. A Democracia exige isto de nós. Na Democracia, não tem colinho da mamãe. Amá-la significa cair com ela e levantar com ela. Nunca é barato o preço que pagamos por amar a Democracia.
E ela é tão linda, tão respeitosa com nossas fraquezas, tão tolerante com nossas incapacidades, tão solidária com nossas necessidades. Numa democracia, o Estado é menos injusto e capaz de dar uma finalidade social a sua existência e ao que o povo paga para ele. Só numa democracia as forças coercitivas do Estado, suas polícias e seus judiciários podem ser justos e não seletivos. Só a Democracia garante o legítimo e combate o ilegítimo com sua legitimidade.
Amar a democracia é amar também forças fugazes, que não se medem com réguas ou balanças. Amar a Democracia é amar o melhor do humano e colocá-lo para trabalhar a serviço do belo, do justo, do sorriso no rosto, da paz social. E paz social não é reprimir quem precisa. É dar-lhes condições de sair da condição em que estão. Só a Democracia resgata o povo dos subterrâneos e lhe permite o sol.
Declarar seu amor à Democracia é declará-lo à vida. É admitir que só há vida se houver liberdade para vivê-la. A Democracia é fêmea. Por isto, às vezes, não está disposta, está azeda e diz: que se danem! A Democracia precisa ser conquistada e reconquistada todos os dias. Precisa ser tratada com carinho e preservada dos vândalos.
Declaro aqui, de público, meu amor à Democracia. Só ela diz sim à vida e não à morte. Só ela, o meu amor!

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