Meu caro Pedro
Não sou de reclamar, como sabes. Nossa parceria nasceu conosco. Tenho estado contigo em todos os lugares desde sempre. Música, literatura! Mil e uma noites nos botecos do mundo. Quando tu cantavas, eu estava lá. Quando te entristecias, eu estava lá. E quando foste feliz, muito feliz, quando encontraste o amor da tua vida, quem estava lá contigo? Nem vou responder.
Só que, meu!, tu não és justo! É de ti isto, de maltratar quem te quer bem. Já fizeste com tantos. Não vales o que comes, ou melhor, o que bebes. Sei que vais dizer que não o fazes por mal. É que tua entrega é sempre extrema. Para ti, é sempre tudo.
O que não me conforta porque sabes, sabes sim, que este “tudo”, no meu caso, me levará ao “nada”. Este “tudo” um dia vai nos matar. O que me exiges, de nós todos, é uma falta de consideração. E temo um dia não poder mais fazer minha parte.
Sei sim, muito bem, que não devemos tomar decisões com a bílis. Usar a mim e a minha estrutura para discutir política. Sabes como sou ranzinza e pavio curto. Também sei que há situações que só eu resolvo. Mas às vezes é melhor tu consultares outros órgãos. Longe de mim te dar conselhos, ou te chantagear. Tu sabes que vou morrer contigo, que sou teu parceiro incondicional. Mas gostaria que vivêssemos muito ainda.
Também sei que tuas escolhas, apesar de exigirem demais de mim, fazem parte da tua alegria, do teu mundo. E eu nasci pra te acompanhar nas boas e nas ruins. Pra te ajudar a ser feliz. Limpo teu caminho da maioria das toxinas na boa, mas tu podias cooperar um pouco. Só quero deixar registrado que, se hora destas eu falhar e te deixar na mão, se eu fraquejar – como confessou aquele candidato abominável – muito será pelo teu excesso de exigência.
De qualquer forma, não há preço que pague o teu sorriso com os amigos e ver como eles gostam de ti. E como tu gostas deles. Essa alegria de vocês até me faz esquecer como é duro o submundo aqui em baixo. Aqui todo mundo ajuda, mas ninguém é de ferro, tá entendendo?
Nossa relação sempre foi íntima, como sabes, até porque não podemos viver um sem o outro. Você suja e eu limpo e isso, se não é amor, deve ser outro bom sentimento qualquer. “Dependência”, tu dirias, ou “falta de opção”. Que seja. O que Deus pôs está posto e não se discute. Sugiro que entremos num acordo de uma coexistência mais pacífica, como Trump e o gordinho coreano. Estou aberto ao diálogo. Só não meta o coração em nossa conferência. Pelo que sei, é outro bom de copo. E quando ele tá meio rasgado então, eu trabalho ainda mais.
Desde que te conheço por gente, tamo junto! Uma parceria de fé. Só para um pouco de maltratar quem só te quer bem. Toda vez que tu sofres, eu apanho. Toda vez que tu tá alegre eu apanho. Podias ficar menos feliz e menos triste, o que achas?
Enfim, desculpe este desabafo de um velho cansado. Não sou mais o mesmo. Assim como tu. Só que tu não queres ver. Toma tento.
Do sempre, sempre teu

Fígado!

Compartilhar

Deixe seu comentário