Gilgamesh é um mito sumério. Conta a história de um rei que não queria morrer e para isso foi até os confins do universo para enfrentar a morte. No entanto, voltou de sua jornada ainda mortal. Concluiu, depois de muitas batalhas, que a luta contra a morte era impossível e só restava conviver com a dor de perecer.
Contudo, 4.700 anos depois, solitários cientistas, sem pompas de reis ou mitos, os Gilgamesh pós-modernos, têm conseguido impor derrotas significativas à morte. Antibióticos, transplantes, quimioterapia, mapeamento do DNA, afirmam: Gilgamesh vencerá. Se não ele, seus descendentes.
Religiões e filosofias que só fizeram debater e enaltecer a morte, e a vida depois dela, aos poucos vão perdendo o sentido. Conforme o escritor Yuval Harari: “Especialistas em nanotecnologia estão desenvolvendo um sistema imunológico composto de milhões de nanorrobôs, que habitariam nossos corpos, abririam vasos sanguíneos obstruídos, combateriam vírus e bactérias, eliminariam células cancerosas (…)”.
Há quem creia, contudo, que injetar robozinhos microscópicos no ser humano só fará dele mais um autômato a serviço do poder. Pode ser. É provável que, se as sociedades futuras forem democráticas, teremos um código de ética para estes robozinhos. Sabe-se lá. O que se pode dizer com certeza é que: mais incerta do que a morte, será o que a sociedade fará com a vida que queremos manter eterna.
Lógico que, apesar dos grandes avanços dos últimos cem anos, certas ideias ainda estão mais para ficção científica do que para a realidade. Mas o troço tá andando rápido. Há muito tempo não é mais como antes. Antes um cara nascia, crescia e morria com os mesmos valores, as mesmas tecnologias, as mesmas porcarias dia após dia. Agora não é mais assim. O cara nasce no Orkut e é adolescente no Tinder. Como vai ficar adulto, como vai envelhecer, isso nem o Google sabe. Que dirá Deus!
O futuro é tão incerto, há tantas possibilidades de escolha de um, que esta incerteza se transforma numa esperança. Se inventarem a vida eterna, o que será de nós?
A arte discutiu isso. A eterna juventude no pacto de Fausto com o demônio. A imortalidade assassina de Drácula. A ficção do Novo Testamento. Todas pregando a imortalidade como uma coisa doentia. E talvez seja. Já imaginaram os seres humanos não se renovando, pensando sempre a mesma coisa durante séculos? Já imaginaram Hitler vivendo para sempre? Ou o Bolsonaro?
Por sorte, a natureza parece ter previsto nossa capacidade de encontrar solução para a morte. Para isso a natureza mata estrelas. O sol, como sabem, não durará para sempre. Um dia vai queimar todo seu hidrogênio e vai se transformar numa gigante vermelha, que vai engolir e incinerar todos os planetas que a orbitam.
Vai demorar um tempinho. Tá, um grande tempinho. E podemos acabar com tudo no meio do caminho.Poluição, radiação, o fim da água. Sabe-se lá o que vamos inventar para minar nosso futuro. Se não colocarmos nenhum membro do MBL numa cápsula para sobreviver em outro planeta, já está bom. Kripton não merece de um plágio tão degradante.
É provável que estes loucos façam o serviço em breve, mas se não o fizerem, Gilgamesh perderá sua batalha de qualquer maneira. Porque a natureza decidiu há muito tempo: as estrelas morrem para que nada, nem ninguém, seja eterno!

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