Do nada, tu repara: não conservou nenhum amigo do passado. Eu até passo por uns na rua; se me cumprimentam, lembro-me deles, mas os tinha esquecido.
Não quer dizer que não me lembro de gente do passado. Lembro. Uns até me emocionam quando encontro, mas não é regra. O passado se diluiu na loucura do presente. Lembrar é um acidente.
No passado, as relações, se não eram mais simples, eram pelo menos mais constantes. As famílias se reuniam mais. Irmãos, tios, primos, avós, amigos visitavam-se com frequência. Jogavam cartas; tomavam mate à tardinha. Meu avô matava um porco nos domingos e a parentada ia ouvir seu bandonion e fazer torresmo no tacho de bronze. Eu, o então guri chato e inconveniente, via pais e tios quase chegarem às vias de fato por conta da cachaça. Era-se criança de outro jeito naqueles dias. Dependíamos mais do que a família pensava. Agora, se écriança com mais interferências externas.
Hoje, quase um idoso, vejo com perplexidade as mudanças que me fizeram esquecer o mundo que foi toda a minha vida, e viver outro.
A arte de abandonar o passado está no espírito da modernidade. Tudo é feito para durar pouco; para ser trocado. Móveis, utensílios. Antes, tudo durava muito. Mas isto não era bom para a economia. Agora tudo dura pouco, para que tenhamos que comprar novamente no curto prazo. O que não percebemos é que esta filosofia se enraíza em nós como trepadeiras que consomem a árvore na qual se enroscam. Tornamo-nos hospedeiros dos parasitas da modernidade, esta ideia que não nos liberta, mas nos suga, bebe nossa vitalidade e nos faz entrar num círculo vicioso, que quanto mais mudamos mais temos que mudar. Sentimentos, inclusive.
Nem percebemos que tudo está vinculado. Fazer parte de uma máquina que esquece o passado, as pessoas do passado, os valores do passado. Até ser a carne moída na máquina.
Viemos de uma evolução que valorizava o tempo. Cada avanço levava séculos. Mas, se andávamos devagar demais, a pressa de hoje nos tem alijado do melhor da convivência humana. Conviver também consiste em preservar. E, praticamente, não temos preservado nada. As gerações pouco conversam, pouco trocam, não acreditam umas nas outras. Tornamo-nos inimigos dos que não são do nosso tempo.
Eu mesmo incinerei, fiz sumir gente da minha memória. Só me lembro de alguém da minha adolescência, mesmo alguém importante, que moldou valores da minha personalidade, se tropeço nele. No mais, são todos pó e sombra.
E não que não queira lembrar. Não que eu queira esquecer. É que não conviver atrofia. E o que foi vivido, some na mesma velocidade que traz coisas novas todos os dias. O sedutor brilho da novidade. Quem passa, fica velho muito rápido. Abandonamos todos; as pessoas, aqueles dias. A cada minuto, somos mais sós e órfãos de nossas raízes.
O passado é uma flor moribunda. Tudo que me construiu, esqueci ou abandonei, na angústia de ser sempre novo, como exige a época. Se encontro alguém daqueles dias, mal tenho o que dizer a ele, e ele, nada a dizer a mim. Não temos assunto, apesar de, um dia, termos tido muito. Somos estranhos: os que se foram e senti; os que se foram e não senti nada.
Não é saudosismo de um tempo que tinha mesmo que passar, como qualquer tempo. O duro é constatar que, de todo o vivido resta pouco e, em breve, nada nem ninguém. É duro saber que já há de nós tantas horas mortas.

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