Que geração privilegiada esta nossa, nascida nos anos 1950/1960! Quantos fatos nós estamos vendo e vivendo que o mundo nunca viu nem viveu. Quantos novos dilemas. E a espantosa velocidade com que as coisas findam, as ideias, os valores que regiam gerações. Antes se levava décadas para mudar um valor moral, um valor ético. Um conhecimento valia dos tataravós até os tataranetos. Nem se discutia. Hoje se discute o que se conheceu ontem e amanhã ninguém garante se estará valendo.
O problema é que a psicologia humana não se formou nesta velocidade. Formou-se na lentidão dos séculos, da perenidade. E evoluímos para o modo como somos porque as coisas, os fatos, as ideias duravam. Uma criança nascia, aprendia uma coisa e morria de velho com ela como “verdade“. E agora chegamos num mundo em que não há mais verdades. Estamos sempre frente a frente com decisões que, em centenas de anos, não foram decididas. Não aguentamos não decidir, mesmo que não precise. Estamos doentes de velocidade. Não acreditamos em nada, e isto tá com cara de que não é bom.
Vejamos os cemitérios. Cemitérios sempre houve. Desde os primórdios. Estudando cemitérios, mortos preservados, a História, a Arqueologia, a Paleontologia remontaram a vida como ela era. Comida, valores, crenças, política. Estudando túmulos, se pode reerguer o homem antigo, compreendê-lo em parte e até sua sociedade.
Os cemitérios eram registros de História, a escrita que não existia. E olha que louco: em breve, não existirão mais cemitérios. Seremos somente cinzas de um forno crematório. Nem pó. Cinzas. Reescreveremos a Bíblia: “Do pó às cinzas!” Sabemos que do pó podemos ler alguma coisa, das cinzas… O que faremos com tanto nada?
O fim dos cemitérios acarretará às novas gerações o fim do dia de Finados. Acarretará o fim da ficção que os cemitérios evocam. Os filmes de terror, os livros de mistérios. Se não vai acarretar o fim das fantasias sobre a morte, em não havendo cemitérios, os filmes e livros terão dificuldades de trazer ao imaginário das novas gerações este local tão cheio de possibilidades.
Por outro lado, os lençóis freáticos, a terra, agradecerão a higiene e a diminuição da poluição. Eu acho isso bem bom. Mas… e os cem mil anos de história dos cemitérios? Alguém dirá: mas e os milênios do estupro, do crime? Não é pra mudar? É!
Viram como é difícil estarmos nesta geração privilegiada?
Os cemitérios são símbolos de todas estas discussões que temos com nosso passado. E agora, sem cemitérios, param de gritar os ossos, param de gritar os túmulos, para de gritar aquela cidade cheia de mausoléus e jazigos como se fossem casas, que construímos para abrigar quem já não existe; para de gritar o pó e passam a gritar as cinzas.
Temos que aprender a ouvir as vozes delas. Se é que as cinzas gritam.
Por fim, estar vivo, em qualquer mundo, em qualquer época, é sempre um privilégio nos dado pelo universo. E cada época e cada mundo tiveram e têm suas discussões. Mas que a nossa é um divisor de águas, ah, isto é. Estamos vendo o fim de muitas coisas que pareciam importantes e, por fim, talvez nem fossem.
Resta saber a importância que vai ter tudo que está sendo posto no lugar. É provável que aprendamos a viver com importâncias mais relativas. Mais efêmeras e menos drásticas. Não se vai mais matar nem morrer por elas? Não sei. Mas quem morrer se contente com suas cinzas voando com o vento.

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