Passou pela minha cabeça que muito da vida falando comigo já não ouvi, ouvindo o que os outros dizem sobre a vida para mim. As pessoas gritam o tempo todo, às vezes para nós, às vezes conosco. O mundo grita. A gente até escuta, ou tenta, mas é muito ao mesmo tempo.
Por isso, às vezes tento deixar tudo em silêncio ao redor de mim e passo meus olhos sobre as pessoas e seus barulhos. Sempre me perguntei se existe diferença entre viver e existir; hoje sei que essa é toda a diferença que existe.
Quando crianças, nos passam uma receita de felicidade: estude, forme-se (de preferência escolha uma carreira que “dê dinheiro”), case-se, tenha filhos, adquira bens e serás feliz. Esse grito é em alto e bom som, para que nenhum de nós ignore o conselho precioso. Os gritos que são meus, guardo sob um milhão de camadas de silêncio, puramente por autopreservação; mesmo assim, às vezes eles me ensurdecem.
Enquanto isso, a vida sussurra. Fala baixinho no nosso ouvido: “eu não serei assim tão fácil”. E a gente não ouve. Cresce achando que quando chegar ao futuro e tiver conquistado tudo, a felicidade será como um pote de ouro no fim do arco-íris esperando por nós.
A vida diz o tempo todo: “não espera amanhã pra ser feliz, porque nem sempre feliz é o amanhã, e eu nunca disse que haverá amanhã”. Mas a gente é surdo porque o barulho abafa a vida, né? Os compromissos chegam como uma retroescavadeira e vão detonando tudo pela frente, derrubando para limpar o terreno. Para construirmos. Mas o quê, além de qualquer alicerce para a felicidade, deveria ser construído?
Quando se vê, já é amanhã. Quando se vê, cadê o pote de felicidade? Que merda de arco-íris é esse? O que aconteceu com a vida, que passou sussurrando e eu não ouvi? O que aconteceu comigo?
Já é amanhã, repito comigo mesma todos os dias, baixinho como a vida, inaudível como meus gritos. A vida olha para mim como quem diz “finalmente”, e eu agora escuto. É quase imperceptível, mas condiciono meus ouvidos a filtrarem os gritos e deixarem passar só a fala mansinha de quem diz, não porque espera ser escutada, mas porque sabe.
Perante o universo e a implacabilidade do tempo, não sou nada, nem meus sussurros ou quem dirá meus gritos. Mas se estou aqui após um punhado de bilhões de anos, por que preciso só existir durante esse ínfimo instante que me cabe? Por que, já que existo, não vivo? Por que não dar sentido ao que não tem sentido? Se vim parar aqui por acaso, não será por acaso que passarei pelos anos que me restam.
Hoje prefiro ser sussurro, embora provavelmente ninguém me escute nessa barulheira toda. Não é questão de querer ser escutada, afinal, e sim de dizer e deixar que o tempo leve as palavras como o vento leva as sementes; vai que brotam em algum lugar?
Continuarei sussurrando até que não seja mais capaz: “não dê ouvidos a tudo que nos gritam; seja feliz antes de amanhã; não viva a vida só amanhã; ame mais e propague o amor, porque sem ele a vida não existe e a existência é só um erro de percurso”.
Hoje já é amanhã. Para uns, vida que recém começa; para outros, é o último dia em que se pode ouvir a vida. Por que, então, gritamos tanto ao invés de escutar? Quando for meu último dia, espero ter a certeza de que não passei pela vida como quem nunca viveu.
Não há amanhã para ser feliz. A vida é quem diz.

Ana Clara Stiehl
Cronista

 

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