Quando Cortés chegou ao México, em 1519, os nativos lhe perguntaram por que os espanhóis gostavam tanto de ouro. Cortés respondeu: “Porque eu e meus companheiros sofremos de uma doença do coração que só pode ser curada com ouro”.
E, cá entre nós, Cortés não estava mentindo.

A invenção do dinheiro mudou o mundo. Se é verdade que facilitamos o sistema de trocas com ele, também é verdade que o coração de todos ficou abalado. E se também é verdade que não precisamos mais levar trinta melancias numa carroça para trocar com um cara a dez quilômetros de distância que produz botas e roupas, também é verdade que sua componente, a acumulação, traria algum poder a mais ao acumulador.
Não há aglutinador maior que o dinheiro. Quer amigos? Quer prazer? Quer poder? Tenha dinheiro! Mostre que, por conta dele, você não tem qualquer problema de coração.

O dinheiro, através da história, uniu os mais ferrenhos desafetos. Inimigos de Roma usaram sua moeda, o denário, sem qualquer escrúpulo. Muçulmanos criaram o Dinar, sem medo de serem felizes. A palavra dinheiro tem a mesma raiz. Dinheiro une deus e alah numa boa, sem ranços.
Dinheiro une PT e PSDB; PMDB e PP. Vide as malas do Gedel, a malinha do Rocha Loures, os dólares nas cuecas de um petista, a propina filmada do Arruda, etc e etc. Sem contar os milhões que falsos pastores arrancam de fieis ingênuos todos os dias. Cada um tem sua guerra santa diária e, nesta guerra, a única santidade, o deus em jogo que queremos arrebatar e para o qual rezaremos eternamente, é o dinheiro.

Nada contra o dinheiro, enfim. Todos precisamos dele. E mais, todos gostamos dele. O dinheiro é uma engenhosidade humana que visa facilitar nossa vida. E facilita. Mais de alguns do que de outros, mas isto é outro papo. O dinheiro em si não tem culpa nenhuma.
Toda uma gama de leis foi criada através dos séculos, desde sua criação há uns 3000 anos antes de cristo, para controlar sua fluidez, para controlar como e quanto cada um recebe, para controlar seu poder de subornar, para ficar exclusivamente no seu papel: o de intermediar trocas. Já vimos, claro, que não funcionou. Ou pelo menos temos que manter controle diário. O dinheiro é afrodisíaco. Possui-lo, para muitos, vale diversos orgasmos. Vale mais que o amor. Mais que uma vida tranquila. Mais que a vida.

Há quem creia que a sociedade foi se moldando para que cada vez mais precisássemos dele. Pode ser. Mas é certo que o sistema de trocas que o antecedeu não daria mais certo. Até porque não deu antes. Voltar ao passado é fazer como certos países fizeram nos anos 1970, como o Camboja, tentando remontar sociedades agrícolas medievais. Foi um fracasso genocida, como todos sabem.

Por fim, não se sabe se o ouro dos Astecas curou o coração de Cortés e sua trupe. O que se sabe é que na guerra santa de Cortés, os Astecas foram dizimados e o governo espanhol ficou mais rico com o ouro mexicano. Afinal, o que é a vida de milhares de pessoas (que nem gostavam de ouro) frente à ambição de conquistadores e a este deus, mais poderoso que qualquer outro já inventado?
E trazendo a discussão pra cá, para o presente: já travaste tua guerra santa hoje? Já te perguntaste quanto ela vale? E teu coração, como está?

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