Ninguém sabe como o ser humano despertou para a linguagem. A chamada revolução cognitiva ocorreu entre 70 e 30 mil anos atrás. O que sabemos é que a linguagem mudou o homem. Já para o ser humano da época, não bastava comunicar-se com os demais apenas sobre os lugares de caça, de água, de comida para coletar.

Como a cooperação social é e era vital para a sobrevivência, saber com que estávamos lidando era muito importante. Daí surgiu a prosaica fofoca. Conforme o escritor Yuval Harari, para o bando, era importante saber quem odiava quem, quem comia quem, quem era honesto ou trapaceiro. Cooperações mais sólidas e sofisticadas podiam ser desenvolvidas se baseadas na confiança, no conhecimento da personalidade de cada um.

Este conhecimento começou a ser dado pela fofoca. Aquela mulher que fica na janela bisbilhotando a vida alheia nada mais está fazendo que a milenar arte de abrir o livro da vida privada alheia. Uma forma de dar aos demais uma visão do que realmente é aquele cidadão. Se ele pode ser um bom político, um comerciante honesto, um soldado que não mude para as hostes inimigas em plena batalha.

A fofoca nasceu para fortalecer os grupos humanos. Conforme o mesmo autor, a própria imprensa se desenvolveu sobre este projeto: mostrar à sociedade quem é digno dela, de representá-la como forma de proteger esta própria sociedade. Se hoje, com as redes sociais, a fofoca ganhou uma maneira de as pessoas destruírem seus desafetos às vezes com mentiras, meias verdades ou crimes não julgados, saiba que nisso também está o dedo dos caçadores/coletores de 70 mil anos atrás.

Depois desta parte, de transmitir informações sobre o que existe e como são as personalidades dos membros do bando, começamos outra revolução: transmitir informações sobre o que não existe; e a proeza de convencer as pessoas de que algo existe quando não existe. Daí nasceu a ficção e tudo que a ficção trouxe para o bem e para o mal. Religiões, lendas e outras mentiras com roupagem de verdade. O imaginário ganhou linguagem. Daí a literatura, a arte e toda a massagem prazerosa que o imaginário faz em nossa mente. Mas também todos os tabus e mitos que acabam por governar vontades e prazeres e tolher a nossa liberdade.

Olhando-nos no espelho do presente, vemos que ainda somos os mesmos caçadores coletores entrevados por peças pregadas em nossos primeiros passos como seres pensantes e criativos. Atormentados pelos mesmos fantasmas de dezenas de milhares de anos, não conseguimos nos livrar de preconceitos, de crenças baseadas no medo e em conhecimentos precários sobre nossa existência.

A cada passo para frente dado pela ciência, por descobertas sobre nós mesmos, damos dez passos para trás porque crenças primárias, velhas, como as palavras do Levítico, ainda tolhem o aperfeiçoamento das relações humanas. Se uma geração enterra um preconceito, vira e mexe vem uma nova onda defendendo velhos paradigmas racistas, homofóbicos e belicistas para gerir a sociedade. A diplomacia não tem vencido os conflitos tanto como deveria.

Tolerância e acordos são trocados por sopapos virtuais e marcação de duelos até pela internet.

Se alguém pensou que, depois de 70 mil anos, estaríamos mais perto de uma sociedade culta e pacífica, pode estar enganado. Tecnologicamente sim. Mas, pelo jeito, temos ainda que fofocar muito para saber quem está conosco, quem está contra nós e quem tem valor para gerir a sociedade em nosso nome.

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