“Pobre país, pois está enxovalhado (…) Junto com o sangue e as lágrimas, a imundície respinga nas ruas de suas cidades. O que era belo foi emporcalhado. O que era verdade foi apagado pela gritaria mentirosa. (…) A sórdida mentira usurpa o poder (…) Pobre país onde se instalaram os Cavaleiros do Apocalipse (…) Sua monstruosidade deverá ser idolatrada (…) Sua fealdade, admirada como nova beleza. (…) Reina a noite em nossa pátria (…) Onde quer que eles e seus capachos se apresentem, a luz se apaga e reinam as trevas.”
Klaus Mann em “MEFISTO” – Capítulo: O Pacto com o diabo. Pág. 156.

Quando os nazistas tomaram Budapest, alinharam judeus à beira do Danúbio. Mandaram tirar os sapatos, um artigo de luxo no inverno europeu, e fuzilaram para que caíssem no rio. Os casais, amarravam uns aos outros, mas só atiravam num, de maneiras que o outro morria afogado. Hoje, em Budapest, há um símbolo desta ignomínia em sapatos de bronze colocados à beira do rio.
Claro neste símbolo que a maldade humana não está unicamente ligada à busca pelo poder ou a sua manutenção. A matança de inocentes, a destruição moral ou física de quem sequer é um inimigo está mais ligada à crueldade gratuita, à psicopatia dos ressentidos do que, propriamente, a uma guerra entre forças equivalentes.
Está comprovado que a vitória do nazismo foi a vitória de rancorosos, daqueles que criam que os seus fracassos como pessoas estava ligado a um “inimigo” transcendental: os judeus.
Não é difícil transformar o ressentimento numa religião quando cremos que nossa condição social não é culpa das complexas relações históricas e econômicas, mas de pessoas individualmente, de instituições ou da cultura e da sabedoria de outros. A ignorância gosta disso: admitir que a ignorância é culpa de “alguém”. “Alguém” a quem possa apontar o dedo, pessoalizar e dizer: que gente “má”; vamos matá-los!
Logo estamos na linha de tiro, sem sabermos como nos elegeram, eu ou você, as pessoas más que os condicionaram à ignorância e ao fracasso.
Goebbels, o ministro da propaganda nazista, foi campeão nisso. Repetir uma mentira até que algo dela permaneça; de transformar pessoas comuns em inimigos do Estado só por serem de uma etnia diferente, ou de terem uma ideia de mundo diferente.
É por estas iniquidades que o nazismo, e todas as suas formas menores de ação política e crueldades pessoais, não podem nunca ser dignificadas por qualquer forma de razão, por qualquer expressão de uma boa palavra. A iniquidade deve ser sempre condenada. Mesmo que seja pelo silêncio, pelo desprezo e pela desconsideração, o que, por fim, até ajuda a democracia.
Quando ignoramos o que representa o mal, como símbolo, quando não lhe damos respaldo intelectual ou midiático, estamos sim dando um passo em frente!
Às vezes, a iniquidade, a violência perpetrada pelo ressentimento da ignorância, não está no perfilar de inocentes a serem metralhados. Mas no ataque à cidadania, à liberdade de expressão, à liberdade de participação política. Está no engano, na mentira, na chantagem. De igual forma, ações que não podem ser dignificadas. Nem por um sorriso. Nem por uma boa palavra.
Porque uma cidade, um estado, um país, devem ser construídos pela diversidade, pelo debate franco e livre e não pela ação nefasta de nazis pós-modernos.
Sob pena de termos, um dia, sapatos de bronze alinhados nas barrancas dos rios brasileiros como forma de simbolizar este período negro em que estamos entrando.

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