Nosso primeiro aniversário de namoro caiu em um feriadão de Carnaval. Isso faz bastante tempo e, na falta da variedade de restaurantes dos dias atuais ou das facilidades de ir à outra cidade, programamos um jantar na, então, única pizzaria de Montenegro. Nenhum dos dois possuía carteira de motorista, muito menos carro. Sequer havíamos completado 18 anos. Caminhamos de mãos dadas fazendo planos, olhando as estrelas e com fome.
Nosso jantar romântico, ao contrário daquilo que desejávamos, não acabou em pizza. O pessoal da pizzaria, que também era filho de Deus, foi dar uns pulinhos nos salões lotados. A pretensa música ao vivo foi substituída pelo desfile das escolas de samba que passava na tevê da única lancheria aberta no Centro; a pizza trocada pelo xis bacon. E a poesia do instante deu lugar à crônica de hoje.
Depois desse, tivemos muitos outros momentos memoráveis, que hoje compõem o que chamamos de “nossa história”. Tivemos vários encontros que acabaram em xis, como no dia dos namorados em que se armou um grande temporal e eu cancelei a reserva do restaurante, com medo de sair de casa. Ou no outro ano, em que, enquanto passava a chapinha no cabelo, descobri que estava com piolhos, uma vez que eles caíam fritos na pia do banheiro (esse episódio, segundo o Rubem Penz, daria um belo texto, ao qual ele chamaria “Lêndeas da Paixão”).
Eu e o Gustavo tivemos outros jantares, inesquecíveis por vários motivos. Tivemos formaturas, empregos diferentes; o terreno, o apartamento, depois a casa. Tivemos nosso casamento no ano em que eu não tive férias; ainda assim, a gente teve uma pequena lua-de-mel, na qual os padrinhos do noivo nos acompanharam. Tivemos dois filhos lindos. Algum tempo separados, mas, agora, um futuro inteirinho pela frente. Tivemos algumas perdas e muitos ganhos; inclusive um belo ganho de peso, com a contribuição certeira dos xis.
Para o espanto de muita gente, não sou dada a escrever sobre a minha vida, e a grande maioria de meus textos é a mais pura ficção. Semana passada o Pedro Stiehl citou Mallarmé num comentário mais ou menos assim “Tudo o que acontece, acontece para virar literatura”. E não é? À exceção das segundas, e porque já é terça, hoje escrevo inspirada na minha – feliz – história.
Completar 25 anos de convivência, amor e cumplicidade merecem muito carinho, textão no jornal e um lindo jantar. Um xis quem sabe? Até porque hoje é Carnaval…

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