Já havia acostumado a acordar e dar de cara com alguém que não sonha. A face de uma pessoa que contava o passar e o pesar dos anos na ausência de aspirações. Um sem rosto que, frente ao espelho e à vida que se apresentava, fazia uma breve leitura dos sentimentos dessa interrogação que é todo dia, e a traduzia em rugas, sorrisos e olhares. Há muito tempo eu não recebia visitas na madrugada. As ocupações do dia mantinham as portas das minhas fantasias trancadas durante a noite.
E, não restando quaisquer lembranças das minhas noites mal dormidas, era apenas mais um corpo que repousava na cama, vazio de uma alma que não descansa nunca dos apuros diários. Despertar, cumprir compromissos e dormitar novamente.
Mas, afinal, qual o sentido da vida, senão sonhar?
Não basta subsistir. Como diz a música dos Titãs, é preciso saber viver. Precisamos reafirmar nossas esperanças de que o amanhã, sim, virá. E os nossos sonhos de que ele será sempre melhor do que hoje.
Naquele fim de madrugada, quase amanhecer, fora diferente. Um início de raio de sol teimava em me inquietar, me desgastando e perseguindo de forma tão intensa que me levou tresvariar. Febril e amedrontada, abracei contradições e fascínios em forma de delírios noturnos, como se fossem algo que morria e nascia, novo, em mim.
Sonhei com tempos idos. Tempos remotos em que, ainda criança, eu sonhava. Quando existiam as viagens para lugares distantes da imaginação, tão próximos dos meus afetos. Quando havia quem velasse meu sono a noite toda ao pé da cama. Sonhei com noites turbulentas de sono tranquilo. Com sonhos de noite inteira.
Sonhei com outros tempos, recém vividos, mas já deixados, não tão para trás, mas de lado. De sonhos e desejos. De ideologias. Um sono que acalmava e abafava o dia. E suas inquietudes: do amor, das brigas, da idade. De tudo que ficou no passado. Com sonhos de utopias.
Sonhei com abraço apertado, olhos escuros e sorriso largo…
Sonhei, já quase dia, finalmente, esse sonho verdadeiro. Um sonho presente. O sonho tinha nome e sobrenome. Tinha endereço, também.
O sonho que eu finalmente sonhei tinha o teu rosto, meu bem.

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