Quando eu era pequena meu pai costumava me levar junto aos botecos que frequentava. Enquanto ele se entretinha com a bebida, eu ganhava uns doces e ficava ali, assistindo todo tipo de discussão: por causa de trabalho, de política, de mulher. Por causa do troco. Opiniões diversas que, aquecidas pelo álcool, entravam em ebulição.
Só não acompanhava o pai a um único bar, onde, dizia, aconteciam as rinhas de galo. Ali era proibido pras crianças. Proibido pra mim. Proibido.
Era início dos anos 80, mas a briga de galos é proibida no Brasil desde 1934. Porém, como quase tudo no nosso país (aquilo que é ilícito e enriquece), continua existindo à margem da lei.
Hoje em dia, apesar da proibição legal, da visibilidade e do entendimento muito maior das questões ligadas à crueldade com os animais, ainda existem criadouros e rinhas, à exceção do antigo bar, que está às ruínas.
Aqui na minha casa, criamos outro bicho; mas criamos bem, com muito zelo. Como somos quatro, cada um cuida do seu. Ainda que, certo, vez ou outra, eu e meu marido, responsáveis por dois filhos pequenos, acabamos auxiliando-os na tarefa de tomar conta de seus próprios bichinhos.
“Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
engolia com voracidade.”
O personagem referido por Manuel Bandeira na poesia O Bicho, sobre a qual crescemos debruçados a fim de nos tornarmos pessoas melhores, era um homem. Mas bem que poderia ser a nossa opinião, esse animalzinho faminto, que se alimenta de tudo o que vê pela frente; inclusive, se não tivermos cuidado, de muita porcaria. Frágil demais algumas vezes, pode morrer por faltas e excessos. Necessita grandes doses de bom senso para viver em sociedade.
Existem ambientes perigosos; dependendo das circunstâncias, uma simples opinião pode acabar em selvageria. Em outros, como no ambiente virtual, ela pode reproduzir-se rápido demais. Há lugares em que nem deveria entrar; mas algumas pessoas, mais insistentes, mais resistentes, teimam em instigar o animal dos outros. Partir pra briga,assim como eu via nos botecos.
Qual de nós já não sofreu um ataque gratuito de gente sem controle? De gente que cria bichos raivosos e acredita que, pra ter opinião, é preciso esbravejar?
Algumas pessoas não têm noção do quão definitiva pode ser a palavra. Algumas, simplesmente, não têm noção. Às vezes a opinião é tão mais forte do que a pessoa, e ela acaba arrastada. Condenada a viver no cativeiro das suas convicções ferozes.
Há que se ponderar, dialogar e entender que existem diferentes visões de mundo: o animal alheio. E precisamos, acima de tudo, aprender a respeitar o bichinho do outro.
Pra que não acabe tudo numa grande rinha. De gente.

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